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3. Homem morcego

Daniel Kish, cego desde bebê, enxerga com um estalar de língua. E anda de bicicleta

Fêcris Vasconcellos

Superpoder: Ecolocalização
Utilidade: “Enxergar” através de sons
Frequência: Rara. A habilidade pode ser desenvolvida.

“Quem sou eu? Eu sou só um Batman”, disse o americano Daniel Kish, 46 anos, durante sua apresentação na conferência, em novembro do ano passado. Mas, diferentemente de Bruce Wayne, Kish não abate bandidos. O que faz dele um homem-morcego é que ele “enxerga” mesmo tendo perdido a visão no primeiro ano de vida por causa de um câncer. Isso não impediu o americano de perceber o mundo a seu redor. Como golfinhos, morcegos e submarinos, Kish emite sons e espera que o mundo à sua volta os devolva com variações para identificar obstáculos, pessoas e um sem-fim de possíveis objetos, tudo isso em um clique. Um não, diversos – 3 ou 4 movimentos entre a língua e palato por segundo. “É como uma linguagem. Você pergunta ao seu redor onde você está e o clique emite ondas sonoras, manifestações físicas que vão para o ambiente e voltam ao emissor com impressões dos arredores. É como tirar um molde”, afirma.

Assim, Kish leva uma vida inimaginável para a grande maioria dos cegos. Enquanto a maioria usa bengalas, cães-guia e a ajuda de outras pessoas para se mover de um lado a outro, o americano anda de bicicleta, dá palestras e foi a primeira pessoa sem visão no mundo a ser certificada oficialmente como guia para seus pares. O som sai da boca de Kish, “bate” nos objetos e devolve informações. O cérebro dele, então, traduz esses códigos em noçòes espaciais.

“Ao ouvir os sons que vêm de seus próprios ecos, o cérebro fica ativo não só na área da audição mas também numa região normalmente associada à visão”, diz o doutor em ciências pela USP e psiquiatra Daniel Martins de Barros. Isso demonstra que esses estímulos – que a maioria de nós interpretaria como apenas auditivos – são usados para a construção mental de espaço, do mesmo jeito que fazemos com a luz que bate nos objetos e entra na nossa retina, permitindo a visão. Em resumo, Kish consegue enxergar por meio do som, da mesma forma que um morcego ou um golfinho fariam.

Quando era criança, Kish já dominava tão bem seu dom que brincava no playground como qualquer outro menino de sua idade. E não é apenas o som emitido pela sua própria boca que monta o ambiente à sua volta. O trânsito, o barulho das pessoas, as palmas, tudo fala com os objetos e depois com ele. Para andar de bicicleta, Kish vai estalando a língua e desenhando o caminho à sua frente, desviando de todos os perigos como alguém que enxerga normalmente.

A ecolocalização em humanos é estudada desde os anos 1940 pela medicina e, apesar de rara, é uma condição relativamente mais comum a cegos. São diversos os desafios até executar essa manobra: aprender a estalar a língua produzindo um som correto, constante e forte o bastante, aprender a ouvir o eco produzido por esse som – ignorado pela maioria dos humanos – e, o mais difícil, produzir não só alguma sensação mas também um sentido inteiro com base nesse retorno que ele recebe do ambiente que o cerca.

VIDEOGAME E PATINS

Outro exemplo é Ben Underwood, nascido em 1992. Ele ficou cego na infância. De forma trágica, teve câncer nos olhos, e precisou removê-los. Então, Ben precisou aprender a ver com os outros sentidos. Foi em um passeio de carro, durante o qual menino perguntou à mãe se ela havia visto o prédio gigante pelo qual eles passavam, que ela percebeu que o filho havia desenvolvido uma habilidade misteriosa. O menino notou que o som que era emitido pelo automóvel voltava de maneira diferente quando encontrava um obstáculo de concreto pelo caminho. Como a alteração no som durava muito tempo, logo Underwood se deu conta que o objeto – no caso, o prédio – era um daqueles muito grandes.

Até a morte precoce, em 2009, em decorrência da volta do câncer que o acometeu ainda na infância, o garoto, completamente cego, andava de patins livremente pela rua, brincava de luta com o irmão e fazia jogadas incríveis no basquete.

Underwood foi submetido a diversos testes na Universidade da Califórnia. A equipe que o examinou constatou que o menino não tinha uma superaudição nem um supertato, muito menos um radar escondido debaixo da roupa. Mesmo assim ele identificava, descrevia as coisas a seu redor e se movia com facilidade no ambiente. Underwood foi capaz de determinar dimensões de objetos, separá-los em pares iguais e mesmo definir formas mais complexas. Mas o mais impressionante é o que o menino fazia fora do laboratório, diariamente, em casa e na vizinhança.

A família morava em uma casa de dois andares, na qual o garoto se movimentava perfeitamente bem. Nas brincadeiras com o irmão, era capaz de descer ou subir os degraus da escada correndo. Ben também andava de bicicleta na rua absolutamente sozinho, sem grandes acidentes. O relato de sua mãe era de que, por prestar mais atenção nos sons que os amigos que conseguiam enxergar, o menino estava mais seguro e desviava de carros com mais eficiência. Underwood também andava de patins com muita habilidade, desviando de carros na rua por espaços de cerca de 1 metro. O que diferenciava o basquete jogado pelo menino do praticado por qualquer outro garoto de sua idade era só que, para Underwood, a partida tinha uma trilha sonora para além dos gritos dos jogadores.

Pesquisadores da Universidade de Alacá, na Espanha, estão desenvolvendo metodologias para que essa técnica de visão por meio do som seja disseminada e mais pessoas com deficiência visual possam começar a enxergar o mundo à sua volta. Segundo os estudos, o homem possui a capacidade de ecolocalização, mas ela está subutilizada e, por isso, não se desenvolve – quem enxerga naturalmente não precisaria do subterfúgio para enxergar.

Apesar de comprovado por exames de imagem que os indivíduos que usam ecolocalização passam a usar a parte do cérebro antes destinada à visão para formar as imagens por meio dos estímulos sonoros, há outras hipóteses que ajudariam a explicar o fenômeno, de acordo com esses pesquisadores. Uma delas é que essas pessoas passam a desenvolver uma conexão mais elaborada entre as áreas responsáveis por visão e audição, como acontece com os sinestésicos (veja mais sobre a sinestesia na página 12).

Outra questão é que a ecolocalização acontece também pelas vibrações causadas pelo som, mais até do que pelo som em si. Isso explicaria por que alguns cegos que contam com essa capacidade podem colocar seu superpoder em prática mesmo se houver um obstáculo, como uma chapa de vidro. Resta descobrir o quão espessa pode ser essa estrutura para que eles tenham essa quase “visão de raio X”. Independentemente disso, o superpoder de Daniel Kish e Ben Underwood já prova que o cérebro humano tem habilidades escondidas para além do que a ciência consegue enxergar.

FÁBRICA DE BATMANS

Daniel Kish, que desenvolveu essa habilidade sozinho, tenta hoje ensinar outros cegos a enxergar como ele. Para democratizar a ferramenta, Kish criou uma instituição sem fins lucrativos, a World Access for the Blind – pelo menos 5 mil pessoas já receberam o treinamento de ecolocalização. Para o americano, os métodos ortodoxos de capacitação de cegos para locomoção são restritivos e não dão liberdade de movimentos aos deficientes visuais. Um dos alunos da instituição, Juan Ruiz, está no Guinness como a pessoa que consegue se manter mais tempo andando de bicicleta por um caminho de obstáculos sem usar a visão. Graças aos cliques com a língua, consegue ver o que vem à sua frente.

Enxergar sem ver
A ecolocalização é o olho de morcegos e golfinhos

Batman, o super-herói dos quadrinhos, não carrega nenhum superpoder. A alcunha é por proteger as ruas de Gotham City na penumbra, para além do que os olhos dos policiais conseguem ver. Os morcegos de verdade, no entanto, possuem a capacidade de, por meio do som, identificar objetos à sua frente – já que também são praticamente cegos. Do mesmo jeito que Kish e Underwood, mas em frequências bem mais alta, os morcegos emitem ondas pelas narinas e pela boca. As ondas se refletem nos objetos à frente e retornam para os morcegos, que conseguem analisar distância e tamanho do obstáculo conforme a intensidade da onda que recebem.

Os golfinhos também contam com essa habilidade. Produzem cliques pelo ar inspirado por um órgão que têm no topo da cabeça – os sacos nasais. As ondas se refletem nos obstáculos e voltam em forma de eco, percebido pelo ouvido interno do golfinho. Para capturar as presas em movimento, ele emite os cliques continuamente, avaliando a distância e o tamanho do peixinho à frente.