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4. Super-insensível

Tim Cridland diz que sente dor - mas não mostra desconforto nem com 100 agulhas espetadas no peito de uma só vez

Carolina Cimenti

Superpoder: Não sentir dor
Utilidade: Não sofrer com ferimentos, além de ganhar a vida se torturando para plateias do mundo todo
Frequência: 70 casos conhecidos no mundo

Aos 10 anos de idade, Tim Cridland era considerado uma criança violenta e vivia na sala da diretora da escola. Ele nunca encostou um dedo nos colegas. Em vez disso, Cridland feria a si mesmo. Muitas vezes, a pedido dos próprios coleguinhas.

Às vezes, ele usava agulhas e alfinetes para se torturar. Outras vezes, preferia fogo ou até mesmo o peso de diversas crianças sobre as suas costas ao mesmo tempo. “Eles ficavam impressionados e sempre pediam para eu demonstrar algo novo. Depois, quando tentavam fincar uma agulha no próprio dedo, achavam impossível e não entendiam como eu conseguia fazer aquilo tão friamente”, diz Cridland.

Foi a partir dessa época que o garoto descobriu que tinha uma relação diferente com a dor. “Não é como se eu não sentisse dor. Eu sentia, mas ela simplesmente não me causava sofrimento. Eu sempre tive uma resistência maior à dor que os outros, mas, quando vi o quanto ela era diferente, comparada à de meus amiguinhos de escola, fiquei muito curioso e comecei a me questionar: de onde vem essa habilidade? E aonde será que ela pode me levar?” Em busca de respostas, Cridland começou a ler tudo o que encontrava pela frente sobre a dor e passou a exercitá-la com mais frequência. O mundo e o organismo dos orientais, principalmente os faquires indianos, que dormiam sobre camas de pregos, engoliam inteiras espadas e caminhavam sobre longos tapetes de brasa sem se ferir o encantavam. Enquanto as crianças ao seu redor sonhavam em virar astronautas, músicos ou médicos, Cridland só pensava em realizar as façanhas que lia nos livros e enciclopédias sobre esses homens magros, com turbantes e físico esguio, mas ultrarresistente.

Não demorou para ele descobrir a hipnose e a meditação. E assim, desde os 12 anos, Cridland vem aumentando a sua natural resistência à dor com técnicas milenares que, segundo ele, fazem toda a diferença no cérebro e no resto do corpo para isolar e até praticamente anular a sensação de dor comum aos mortais.

Aos 48 anos, Tim Cridland sabe exatamente onde a sua resistência à dor o levou. Agora ele é conhecido como o Zamora, o Rei da Tortura, e se apresenta três vezes por semana em um show no qual pratica toda a sorte de autoflagelos por duas horas consecutivas. Cridland resiste a altíssimas e baixíssimas temperaturas diretamente em contato com a pele por vários minutos, engole fogo, caminha sobre carvão em chamas, lambe barras de ferro em brasa e, no ponto alto da sua performance, se perfura em diversas partes do corpo, inclusive embaixo da língua, com espetos metálicos de 3 milímetros de largura.

“Nesses momentos finais, é comum ver pessoas na plateia desmaiando ou gritando que estão passando mal”, afirma Cridland. “Na realidade, eu obviamente não estou me ferindo enquanto faço essas coisas. Caso contrário, eu já teria largado essa profissão há muito tempo”, diz. Ironicamente, o Rei da Tortura nunca foi parar no hospital e só saía machucado das apresentações quando tinha que carregar e descarregar o seu furgão com os equipamentos sozinho. “Felizmente, com o tempo fui ficando famoso e o orçamento dos shows também aumentou.”

Cridland foi apontado pelo programa de TV da organização Guinness, que classifica os recordes mundiais, como o homem que mais fincou agulhas ao mesmo tempo no corpo. Foram 100 delas na região peitoral. E, para marcar ainda mais o recorde, Cridland foi o único candidato que as inseriu sozinho, sem a ajuda de um enfermeiro.

A performance mais arriscada que o Rei da Tortura já realizou foi aguentar o peso de um carro inteiro (pouco mais de 1 tonelada) em cima de seu tórax, enquanto estava deitado sobre uma cama de pregos. “Eu aceitei fazer esse desafio três vezes. As duas primeiras performances foram bem. Na terceira, aumentamos o calibre do carro para uma caminhonete 4×4, com mais de 2 toneladas, aí eu descobri o meu limite”, diz Cridland.

O limite de dor suportado pelas pessoas normais é, obviamente, muito mais baixo. Cridland realizou testes em três hospitais americanos e deixou as três equipes médicas boquiabertas. Em todos os casos, os especialistas em dores físicas observaram o cérebro, a pressão arterial e a salivação do Rei da Tortura enquanto faziam 3 experimentos: infligiram exageradas doses de pressão sobre nervos sensíveis de sua coluna; expuseram a sua pele a temperaturas de mais de 100°C e -10°C por quase um minuto; e introduziram agulhas da parte interior do bíceps até que atravessassem completamente o braço e saíssem do outro lado.

Após os testes, o diretor do Centro Médico da Universidade de Stanford, Kenneth Pelletier, chamou Cridland de “um fenômeno fascinante para a ciência”. Josh Handts, médico do Centro de Quiropraxia de Nova York, observou que ele não exibiu nenhuma resposta normal à dor. “Ele não suou, seus batimentos cardíacos praticamente não aumentaram e a sua pressão arterial não subiu. É como se ele fosse um homem de borracha, totalmente resistente às crises de pânico, que normalmente acompanham as crises agudas de dor.” Joshua Prager, médico do Centro Clínico da Dor, da Universidade da Califórnia, disse que Cridland consegue transformar a experiência da dor. “Não é como se ele não a sentisse, mas a forma como ele a processa no cérebro é diferente das pessoas normais.” O médico explicou que a parte do cérebro que reconhece a dor foi ativada durante os testes, mas a parte que reage ao sofrimento, não. “O estímulo está lá, mas a resposta física não é completa. É como se ele quebrasse o ciclo fisiológico para não sentir dor. Como se tomasse conta do próprio cérebro. Eu nunca vi isso em outro paciente”, disse Prager.

O neurocirurgião José Oswaldo de Oliveira Júnior, diretor da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor, oferece uma explicação para o caso de Cridland. Ele acredita que o fenômeno possa ter relação com um distúrbio genético chamado insensibilidade congênita à dor, que é extremamente raro. “Pode parecer uma contradição, mas sentir dor é fundamental para termos uma vida saudável. A dor é um aviso do próprio corpo de que algo está errado e que temos que tomar uma providência”, diz o especialista.

Normalmente, as pessoas que sofrem com esse distúrbio não chegam à idade adulta porque acabam ficando gravemente doentes, com uma infecção, por exemplo, e não se dão conta. “Porém existem vários graus de insensibilidade congênita à dor”, disse José Oswaldo. Se a pessoa sofrer com um grau menos elevado desse distúrbio e, principalmente, se ela for capaz de suar – um elemento fundamental para baixar a temperatura do corpo em períodos de febre – essa pessoa pode sobreviver.

Segundo o neurocirurgião, é possível que Cridland tenha um grau mínimo de insensibilidade congênita à dor que, ao ser combinada com a sua fascinação por estudos de hipnose e meditação dos faquires indianos, resulte na resistência dele. “Está comprovado que o uso de hipnose profunda pode causar modulação no cérebro, ou seja, a pessoa consegue provocar a liberação dos chamados opioides endógenos, como a endorfina, a encefalina e a dinorfina, e isso resulta na anestesia do corpo por um tempo limitado.” É por causa dessas substâncias, por exemplo, que ao final de uma maratona inteira, o atleta acaba não sentindo dor alguma e nem sabe se tem bolhas nos pés. A endorfina e os outros opioides estão muito concentrados na corrente sanguínea.

Além disso, Cridland já exercitou tanto o seu corpo para fazer esses truques que, ao repeti-los três vezes por semana, causa o mínimo possível de trauma na pele. “Se a dor é repetida dezenas ou centenas de vezes, o corpo tende a se acostumar com ela”, afirma Oliveira Júnior. “Não quero dizer que ele não seja uma pessoa especial, com uma habilidade rara, mas a combinação de uma insensibilidade que vem de nascença com o uso de hipnose profunda e treinamento exaustivo pode ajudar a explicar o fenômeno”, afirma o neurocirurgião.

Sem dor
Somente 70 pessoas no mundo todo vivem sem dizer um “ai”

A paulista Marisa Martins de Toledo, de 25 anos, não sabe o que é sentir dor. Nem mesmo nos partos dos três filhos – só percebeu que estava para dar à luz quando viu um líquido no chão. A boia-fria moradora de Campina do Monte Alegre (SP) percebeu a condição quando era pequena. Aos 10, viu pela primeira vez o problema se traduzir em algo palpável. “Bati o dedo do pé e não senti nada. Inflamou, tive febre. Aí minha irmã viu meu pé inchado. Tive que amputar a ponta do dedo.” É comum: muitos desses pacientes perdem membros e morrem precocemente por, simplesmente, não terem noção de que têm algum problema. Marisa conta que o único sintoma que a avisa nessas circunstâncias é a febre.

Esses pacientes geralmente tem uma doença chama Neuropatia Sensitiva Autonômica Tipo 5. São sete casos conhecidos no estado de São Paulo e 69 no mundo. Não há uma definição exata por parte da ciência sobre a real causa dessa mutação ou sobre como ela passa e se manifesta de pais para filhos, mas se sabe que a característica é hereditária. O único problema que esses pacientes têm é nas fibras que transmitem a dor. Elas são atrofiadas e, por isso, não alertam o cérebro de que algo no corpo está errado – a dor.