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A noite sob ameaça de extinção

Com o progresso e as metrópoles brasileiras cada vez mais iluminadas, a luz criada pelo homem está ofuscando a luz dos astros mais fracos, a ponto de não haver praticamente nenhum lugar na Terra em que a noite seja completa.

O céu noturno, embora não pareça, tem muito em comum com os rios, as florestas e os bancos de corais. Ele representa uma riqueza natural de enorme importância para decifrarmos os inumeráveis enigmas do Cosmo, mas está perigosamente ameaçado de extinção pelo progresso. O principal perigo vem da poluição luminosa, ou seja, da luz das cidades. Difundida na atmosfera, a luz criada pelo homem ofusca a luz dos astros mais fracos, a ponto de já não haver praticamente nenhum lugar na Terra em que a noite seja completa.

Cada vez mais iluminado, o fundo do céu limita as observações possíveis aos astros mais brilhantes; assim, cada vez mais, estreita-se o conjunto dos astros cujo brilho é suficientemente alto para torná-los observáveis. A própria Via Láctea não pode mais ser admirada na maioria das nossas cidades. Poucas de nossas crianças tiveram a oportunidade de vê-la. Em resumo, e embora de maneira contraditória, o mesmo progresso que constrói equipamentos astronômicos mais poderosos destrói a possibilidade de se enxergar mais longe.

Mas este tipo de progresso é realmente irreversível? Ou, de maneira mais objetiva, quanto custaria despoluir o céu? A resposta, por incrível que pareça, é: nada. Ao contrario das outras formas de resíduo, a eliminação das fontes de poluição luminosa é economicamente lucrativa. O clarão que vemos sobre uma cidade, à noite, é uma simples demonstração de desperdício. O motivo é que cerca de 30% da iluminação publica são desperdiçados, pois a luz é jogada para todos os lados. Muitas fotografias de satélite em órbita mostram como o fulgor das cidades é, literalmente, mandado para o espaço. Isso sem falar no grande desperdício que é manter iluminadas as fachadas de edifícios e os painéis publicitários durante as madrugadas, quando não há ninguém, ou há muito poucos, para vê-los. Do lado das soluções, no entanto, seria fácil empregar “chapéus” sobre lâmpadas como meio de restringir o cone de luz na direção do solo – a única que realmente importa.

Outra saída consiste em mudar a tecnologia das lâmpadas. Para a iluminação de vias publicas, a lâmpada menos poluidora é a de sódio a baixa pressão, conhecida pela sua cor amarela. A lâmpada de vapor de mercúrio é um completo desastre, pois emite luz em faixas de freqüências em que o olho é pouco sensível – quer dizer, não ajuda muito a visão das pessoas, mas atrapalha os telescópios. De quebra, a luz de sódio é a mais econômica, já que gasta apenas 1 watt para gerar 125 unidades de iluminação, o lúmen. Isso é 6 vezes mais que as lâmpadas incandescentes comuns, que geram 20 lumens por watt, e mais que o dobro das lâmpadas de mercúrio, que geram 54 lumens por unidade de potência.

Já há cidades despoluídas no muno – como Tucson, de 600 000 habitantes, nos Estados Unidos. Lá se pode admirar a Via Láctea graças a um programa de iluminação planejada que contribui com apenas 6,5% para a luminosidade de fundo do céu. Em comparação, Brasópolis, no sul de Minas Gerais, onde se situa o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), tem o fundo do céu conturbado em cerca de 50% pela luz das cidades de Itajubá, Campo do Jordão, a própria Brasópolis e outras. Têm sido inúteis as campanhas lançadas pelo LNA, o maior observador brasileiro: apesar delas, poucas comunidades vizinhas adotaram uma política eficiente de iluminação publica. É preciso ainda mais firmeza na luta para quebrar velhos hábitos de desperdício. As novas gerações também têm direito a um céu limpo. Queremos de volta a escuridão do céu noturno.