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Múltiplas inteligências: mito ou verdade?

Emocional. Prática. Racional. Nas últimas décadas, surgiram várias teorias sobre os tipos de inteligências presentes em cada pessoa. Mas elas se sustentam?

Imagine aquele dono de mercadinho do seu bairro, ex-camelô que criou um bem-sucedido empreendimento. Para o psicólogo americano Robert Sternberg , esse tipo de indivíduo talvez não tivesse destaque num teste de QI, mas exibia um potencial cognitivo que precisava ser medido.

Nos anos 1980, estava na moda criar novos tipos de inteligência. Em 1985, Sternberg levou em conta a capacidade de “fazer acontecer” nos exames psicométricos (como o teste de QI), dimensão que ele julgava negligenciada nos exames. Sternberg cunhou então o termo “inteligência prática”. No mesmo ano, Howard Gardner, da Universidade de Harvard, publicou a Teoria das Inteligências Múltiplas, no qual defendia a existência de pelo menos sete tipos independentes entre si.  Uma pessoa poderia ser um ás na matemática e uma negação em vocabulário, de acordo com a tese. Em 1995, o livro Inteligência Emocional cristalizou um novo conceito: a capacidade de administrar emoções e lidar com pessoas é tão importante quanto usar a lógica para resolver problemas. Ou seja, não adianta ser uma sumidade da engenharia se você não sabe liderar uma equipe de pedreiros. Intrigado com o fato de que gênios também podem tomar decisões estúpidas, o psicólogo Keith Stanovich investiu anos na tentativa de criar um novo jeito de medir não só a inteligência, mas o pensamento racional – ele chamou esse escore de Quociente de Racionalidade. Em vão.

O problema de Stanovich e todos que tentaram fatiar as dimensões da inteligência é o mesmo: o QI continua sendo a forma mais eficiente de medir o potencial do intelecto. “Os testes de inteligência não são perfeitos.Ainda assim, eles são o melhor que a psicologia científica produziu em toda sua história”, diz a pesquisadora Carmen Flores-Mendoza, da UFMG. O cérebro é uma máquina incrivelmente complexa, com muitas nuances e capacidades. Mas, para a neurociência, a inteligência é uma coisa só, e todas essas habilidades racionais e emocionais são a manifestação dessa qualidade original. Conheça a seguir as teorias sobre os tipos de inteligência e suas críticas.

Inteligência Prática

Dois meninos estão caminhando em uma floresta. Um deles tira boas notas na escola, e tudo leva a crer que terá sucesso na vida. O outro é o oposto. No bosque, eles se defrontam com um urso faminto. O primeiro garoto calcula que a fera os alcançará em 17,3 segundos e entra em pânico. O segundo menino começa a correr. O estudioso vira e diz: “Você deve estar louco. Não há nenhuma maneira de nós fugirmos desse urso!” E o outro responde: “Será? Tudo o que preciso fazer é correr mais do que você!”.

Um dos mais importantes psicólogos do mundo, o americano Robert Sternberg usa essa anedota para ilustrar como duas pessoas podem ser inteligentes de maneiras diferentes. O primeiro analisou o problema com precisão, mas sua inteligência o levaria à morte. O segundo exibiu uma solução criativa e prática – e provavelmente não viraria comida de urso. Para Sternberg, o segundo aplicou o que ele cunhou de “inteligência bem-sucedida”, um misto de pensamento analítico, criativo e prático. Para o pesquisador, testes de QI mensuram apenas a inteligência analítica – aquela que faz um garoto calcular o ataque do urso com precisão. Um tipo de raciocínio ótimo para o desempenho escolar, mas que nem sempre é o mais útil no dia a dia.

“Existe o perigo de ignorar muitas pessoas talentosas por causa da forma como medimos a inteligência”, diz o psicólogo. O próprio Sternberg amargou durante anos notas baixas nos testes psicométricos por sofrer de ansiedade – mais tarde, já ciente do transtorno, refez os testes e seu desempenho melhorou. Decidiu se dedicar ao tema na vida adulta.

Em 1985, ele propôs a teoria da inteligência prática e sugeriu formas de professores e psicólogos mensurarem essa dimensão – o que ajudaria a prever quem teria sucesso na vida. Mas até agora as tentativas falharam porque os resultados apenas repetiram as tendências mensuradas pelos testes de QI tradicionais. Ou seja, a inteligência prática não acrescentou nada de novo no estudos cognitivos.

Inteligência Emocional

Em 1990, os pesquisadores Peter Salovey, da Universidade Yale, e John Mayer, da Universidade de New Hampshire, publicaram um artigo cunhando um novo conceito: o de inteligência emocional (ou IE). Seria “a habilidade para controlar os sentimentos e emoções em si mesmo e nos demais, discriminar entre elas e usar essa informação para guiar as ações e os pensamentos”. A ideia só pegou quando o psicólogo e jornalista Daniel Goleman lançou, em 1995, o livro Inteligência Emocional, que se tornou um best-seller mundial.

O autor citou pesquisas bem fundamentadas, contou histórias e traduziu termos técnicos para mostrar que os testes de QI estavam ignorando habilidades importantes, como empatia, capacidade de trabalhar em grupo, controle da angústia e automotivação.

Goleman foi além do conceito proposto por Salovey e Mayer – mas foi aí que ele se perdeu. Os críticos alegam que o psicólogo fez uma salada, misturando aspectos da personalidade aos do intelecto, tornando quase impossível mensurar a IE, algo fundamental para que a ciência possa comparar a teoria com resultados de testes de QI tradicionais, por exemplo.

Inteligência emocional: um novo nome para velhos conceitos da psicologia.

 

Choveram críticas para o excesso de habilidades sociais exigidas para que alguém se tornasse emocionalmente inteligente. Goleman, que escreveu outros livros sobre o tema, continua um palestrante de sucesso, mas a IE ainda patina para se firmar na academia. Hoje, cientistas se questionam se o autor não quis apenas dar um nome bonito às conhecidas dimensões da personalidade, como empatia e motivação. “Estabilidade emocional é, desde sempre, um traço básico da personalidade humana, e não uma parte da inteligência”, escreve o professor de psicologia da Universidade de Madri Roberto Colom, autor do livro Nos Limites da Inteligência.

Salovey e Mayer não desistiram do filho e criaram um teste para avaliar a potência emocional, o MSCEIT. Mas até hoje não conseguiram transformá-lo numa alternativa aos testes de QI.

Fluida e cristalizada

A única divisão que pegou separa a lógica do conhecimento adquirido.

Em 1941, o psicólogo britânico Raymond Cattell apresentou um artigo no encontro anual da Associação Americana de Psicologia no qual dividia a inteligência geral em duas: fluida e cristalizada. Trinta e cinco minutos depois, seu colega canadense Donald Hebb subiu ao palco e propôs dividir a inteligência em A e B. Cattell e Hebb trocaram diversas cartas até unirem as duas teorias numa só, que é aceita por grande parte dos cientistas. A inteligência cristalizada se refere à capacidade de usar conhecimento acumulado ao longo da vida, como encontrar uma solução para o trabalho baseado em algo que você leu em um livro. A fluida descreve as ferramentas lógicas para resolver problemas que não dependem de conhecimento prévio, como encontrar um jeito criativo para consertar a máquina de lavar sem a ajuda de um técnico. Ao contrário das outras teorias sobre tipos de inteligência, o conceito de Cattell não faz oposição ao fator G, já que as duas dimensões seriam manifestações diferentes, mas interligadas, do mesmo fenômeno.

Múltiplas inteligências

Na teoria proposta pelo psicólogo Howard Gardner, da Universidade de Harvard, cada pessoa tem vários computadores com diferentes habilidades na cabeça, cada um atuando com certa independência entre si. A máquina da música pode ser terrível e torná-lo péssimo no violão, mas a da interação social pode transformá-lo em mestre nas rodas de bate-papo.

Ou seja, cada sujeito teria uma habilidade em uma área diferente e seria impossível compará-las entre si por meio de testes padronizados e globais, como o de QI. A proposta é simpática porque diz que todo mundo é inteligente em algo, e por isso ganhou adeptos. Afinal, dificilmente alguém ficaria de fora dos nove tipos propostos pelo cientista: as inteligências lógico-matemática, linguística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal, naturalista e existencial.

O problema é que desde a década de 1980, quando Gardner propôs o conceito, até agora a ciência não conseguiu comprovar a sua validade. O principal entrave é que a hipótese do pesquisador bate de frente com o fator G, um conceito extensamente comprovado por estatísticas, no qual as habilidades mentais estão relacionadas – não são máquinas independentes, como Gardner propõe.

As pesquisas sobre o fator G mostram que, se alguém vai bem numa prova linguística, por exemplo, tem grande chance de se dar bem em outros exames que avaliam capacidades cognitivas. Isto é, as nove inteligências de Gardner expressam a mesma coisa: inteligência, no singular mesmo.

Quociente de racionalidade

Escolha a opção correta: João está olhando para Ana, e Ana está olhando para Paulo. João é casado, mas Paulo é solteiro. Há alguma pessoa casada olhando para uma pessoa solteira?

1) Sim
2) Não
3) Não se sabe

Cerca de 80% das pessoas, independentemente do QI, escolhe a terceira opção. Mas a correta é a alternativa 1. Se Ana é casada, o que não está claro, a resposta correta é 1 (Ana está olhando para Paulo). Se Ana é solteira, a resposta correta ainda é 1 (porque João está olhando para Ana).

Por que a maioria erra? Para o psicólogo Keith Stanovich, professor da Universidade de Toronto, a explicação está no fato de que razão e inteligência são coisas diferentes. As pessoas podem ser geniais e mesmo assim tomar decisões ilógicas ou incorretas. Stanovich até cunhou o termo dysrationalia para descrever a incapacidade de pensar e agir racionalmente apesar da inteligência dentro dos conformes. Esperamos que o intelecto se reflita na capacidade de ação. Logo, os testes de QI deveriam mostrar os dois lados da moeda.

Stanovich decidiu criar um exame para mensurar isso, o Quociente de Racionalidade (ou RQ, na sigla em inglês). Mas as coisas não ocorreram como o previsto. No livro em que apresentou sua teoria, de 2009, seus testes mostraram correlações da ordem de 70% (alta) com os testes comuns de inteligência. Ou seja, o RQ era um conceito furado: media praticamente a mesma coisa que o QI. “Ele deu um tiro no próprio pé”, diz a pesquisadora Carmen Flores-Mendoza, da UFMG.