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AUTO-AJUDA

Fabrício Marques

Livros que fazem a cabeça de milhões


No filme Para o resto de nossas vidas, a atriz inglesa Emma Thompson assume a pele da solteirona Maggie. Ela é uma mulher frágil e atormentada que trabalha como editora de livros de auto-ajuda -os manuais que “ensinam” a ser feliz, curar doenças e resolver toda sorte de dramas existenciais. Maggie tenta seguir os conselhos da literatura que divulga, mas ainda assim sua vida é um suplício. Um dos dramas da personagem é o suicídio do noivo. Ele se atira do segundo andar de um prédio e morre, mas não em decorrência da queda. É atropelado por um carro que passava pela rua.
O perfil patético de Maggie é uma alfinetada na grande contradição dos manuais do bem-viver: a distância entre a mágica que eles prometem e a realidade concreta da vida das pessoas. Seus autores, que nem de longe são santos, obviamente não fazem os milagres que apregoam. A auto-ajuda tem este vício de origem, mas os leitores convivem bem com tal contingência e transformaram os manuais no grande fenômeno editorial dos últimos anos. Já foram lançados no mercado nacional cerca de 500 títulos deste gênero, que respondem por 20% de todos os livros que se vendem no país. É bastante comum ouvir que o sucesso da auto-ajuda é fruto do tino comercial de gurus espertalhões e do açodamento de leitores incautos.

Quanto maior a promessa, mais os leitores gostam

Trata-se de um argumento simplista. É certo que os manuais não fazem milagres, mas costumam distribuir outros afagos, na forma, por exemplo, de uma mensagem reconfortante ou um conselho prático. “Alguns bons livros de auto-ajuda rompem um círculo vicioso ao mostrar outras formas de resolver um problema”, afirma a psicanalista paulista Elisabeth Chulman Wajnryt, especialista em distúrbios de alimentação. “Os conselhos podem ser valiosos mesmo que se limitem à aplicação do bom-senso. Há muita gente que precisa só de sensatez para melhorar seu estado de espírito”, diz. Certos títulos são úteis porque oferecem dicas práticas para resolver problemas do cotidiano.
Você tem dificuldade de falar em público? O livro Como folar corretamentee sem inibições, de Reinaldo Polito, já esgotou 36 edições, dando dicas sobre empostação de voz e ensinando técnicas para driblar a timidez e o nervosismo. Outros manuais despertam interesse porque servem de referência para o comportamento. É o caso do guia de boas maneiras Na sala com Danuza, da colunista Danuza Leão, ou do manual Arte e manhas da sedução, um livro bem-humorado que orienta as leitoras a agarrar o seu homem sem cometer gafes.

Os maiores sucessos editoriais, contudo, são os manuais que propõem milagres. Basta visitar a relação dos best sellers para observar que, quanto mais genérica e ambiciosa for a promessa do livro, mais leitores se deixam seduzir. O maior expoente da auto-ajuda no país, o médico e terapeuta paulista Roberto Shinyashiki, está publicando seu quinto livro e acumula a impressionante tiragem de 1,7 milhão de exemplares. Seu prato de resistência são os males do amor e a dificuldade de manter saudável um relacionamento amoroso. Os livros falam de um problema universal e propõem soluções calcadas no senso comum.

É o que os psicanalistas chamam de literatura de confirmação, onde o leitor sai satisfeito por ver escrito aquilo que pensa. Ensina Shinyashiki no livro A carícia essencial, 66 edições vendidas: “Com o passar dos anos, o toque físico pode, razoavelmente, ser substituído pelo toque verbal. Então, um acariciamento no rosto da esposa pode ser substituído por um ‘Que bom que você veio!’ Todos nós queremos ser reconhecidos! Todos nós necessitamos de carícias! Tanto quanto precisamos de comida.” Lair Ribeiro, cardiologista mineiro radicado nos Estados Unidos e grande fenômeno da auto-ajuda no momento, usa truque semelhante. Seus quatro livros, que já venderam 800 000 exemplares, prometem solução para problemas variados (emagrecer, ficar rico, obter sucesso) por meio da neurolinguística, disciplina que se propõe a reprogramar o cérebro, corrigindo o que ele teria aprendido errado.

Há relatos de pessoas que gostaram do método e de outras que não. A ciência vê com reservas a panaceia da neurolinguística. “É um modismo que não tem base científica”, diz o neurocirurgião Jorge Pagura, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. “Os processos cerebrais têm base bioquímica e eu nunca vi tais processos mudarem com simples exercícios. O que pode ser talvez alterado é o comportamento de algumas pessoas facilmente sugestionadas”. O melhor substrato dos livros de Lair Ribeiro não são os exercícios para a cabeça, mas sim uma coleção de slogans e frases de efeito, altamente motivadores, que encantam o leitor. “Dinheiro é abundante para quem entende as leis que governam sua aquisição”, ensina Lair no livro Prosperidade.

Até psiquiatras recomendam os manuais

Na arte de acariciar a auto-estima dos leitores, a campeã é uma certa Louise Hay, autora americana que já vendeu 1,5 milhão de livros no Brasil. Seus manuais são calcados numa teoria sedutora: a de que é possível curar qualquer tipo de doença, mesmo o câncer e a Aids. Isso se faz, segundo a receita do livro, combatendo o desânimo e a depressão e declamando mentalmente slogans que reforçam a autoconfiança. A medicina também estranha esta teoria. “Há casos raros de regressão em certos tipos de câncer, mas até agora não há uma relação comprovada com o estado emocional do paciente”, diz o oncologista paulista Sérgio Simon, do Hospital Albert Einstein. A técnica de Louise Hay, embora não cure doenças, é um elixir poderoso para combater a depressão. Seus manuais são recomendados até por psicanalistas e psiquiatras no tratamento de pacientes depressivos. Um destes profissionais é o psiquiatra Tito Paes de Barros.

“Quando a Louise Hay diz: não se dê por vencido, não desista, porque alguma solução você vai acabar encontrando, ela estimula a vontade do depressivo, dá chances de que ele reaja e obtenha alguma satisfação com isso.” A ressalva, diz Barros, é que o estímulo é útil apenas se a depressão for leve. “Para um paciente com depressão profunda vai adiantar pouco.” O formato e a linguagem dos manuais ajudam a entender o que o leitor espera deles. Têm poucas páginas, porque o consumidor típico não costuma ler. A linguagem é simples, resvalando para o superficial, porque o leitor está com pressa e não quer saber de muita filosofia.

Para prender a atenção, as letras são grandes e muitos títulos oferecem espaços em branco para o leitor anotar o que está pensando. “Os livros de auto-ajuda vendem a idéia, falsa, de que há soluções fáceis e rápidas”, diz Renato Mezan, psicanalista de São Paulo. Com freqüência, os autores dos manuais baseiam seus relatos em vivências pessoais e se propõem a dividi-las com o leitor. A americana Louise Hay diz que se curou de câncer com a técnica que desenvolveu. O cardiologista Lair Ribeiro, que ficou rico na onda da auto-ajuda, informa que seus leitores também podem fazê-lo.
“Num mundo em que os modelos desmoronam, muitos correm atrás de gurus que sirvam como nova referência”, diz o consultor de recursos humanos Simon Franco. Para entender o apelo da auto-ajuda, Franco acha útil investigar a maneira como as transformações da sociedade estão afetando o equilíbrio das pessoas. “Veja o que aconteceu com o mundo. Nas empresas, há uma competitividade brutal e ninguém tem mais estabilidade de emprego. As pessoas perderam suas antigas referências e isso é um fenômeno planetário”, diz.

Franco prossegue: “As pessoas estão desesperadas e procuram alguém que diga como elas devem se comportar. Mas é preciso tomar cuidado, pois existem gurus que só querem ganhar dinheiro”, afirma. Se Freud vivesse em nosso tempo, possivelmente apontaria o êxito da auto-ajuda como resultado de um impulso egoísta das pessoas, que se caracteriza por tomar para si problemas psicológicos e existenciais, sem depender de ninguém. A este fenômeno, o pai da psicanálise deu o nome de narcisismo, num tratado que escreveu há quase oitenta anos.

O psicanalista Júlio Noto, professor de psicologia clínica da Escola Paulista de Medicina, explica o postulado freudiano: “Todo ser humano carrega um trauma, que é resultado da extrema dependência da mãe nos primeiros anos de vida. Quando chega à idade adulta, tenta superar esse trauma através da busca da auto-suficiência. O apelo da auto-ajuda está ligada a uma ferida narcísica”.
O milagre da multiplicação se deu nos anos 80 Freud, como sempre, tem sua contribuição a dar, ainda que sua teoria viva uma grande crise, com a descoberta da origem genética de alguns males da alma e do tratamento por meio de compostos químicos. Os autores de manuais acreditam que um dos motores da auto-ajuda é justamente a falência da psicanálise. “A terapia de auto-ajuda cada vez mais toma o lugar da terapia tradicional”, disse à revista Claudia a maga da auto-ajuda Louise Hay. “Como pode uma terapia demorar a vida inteira para funcionar?”

A concepção dos livros de auto-ajuda está longe de ser uma novidade. Existem manuais com várias décadas de sucesso – títulos como A força do pensamento positivo, de Norman Vincent Peale, e Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie. Só nos anos 80, este tipo de literatura viveu o milagre da multiplicação, na esteira de uma invenção americana chamada “grupos de auto-ajuda”. São associações de pessoas que sofrem de algum mal físico ou psicológico, que se unem para se ajudarem mutuamente e lutarem por seus direitos.

Os dois grupos de auto-ajuda mais famosos, presentes também no Brasil, são os Alcoólicos Anónimos e os Vigilantes do Peso. O conhecimento acumulado pelos grupos tomou a forma de manuais e desembarcou nas livrarias americanas na década passada. Como os Estados Unidos são a pátria dos direitos e liberdades individuais, tais grupos se espalharam com fôlego extraordinário. Em 1992. contavam-se 500 000 associações de auto-ajuda nos Estados Unidos, contra apenas 300 em 1962. Há até grupos que reúnem as vítimas do “mau colesterol”, gente que padece com o excesso de colesterol de baixa densidade no sangue.

Existe, contudo, uma diferença ponderável entre a eficácia dos manuais impressos e a dos grupos de auto-ajuda. Acontece que a palavra escrita é um instrumento mais precário que os psicodramas e as trocas de experiências praticados nas sessões de auto-ajuda. “De 70 a 80 por cento das aprendizagens humanas são sociais, ou seja, se fazem através da experiência e da relação entre pessoas. Um livro não reproduz a riqueza de uma experiência concreta”, pontifica o médico Alan Ferraz, diretor da Sociedade Brasileira de Programação Neurolingüística, a disciplina que dá base aos livros de Lair Ribeiro. Outra limitação dos manuais é que retratam apenas uma visão pessoal do autor. Como se trata de uma experiência subjetiva, o leitor pode identificar-se com ela ou não.

O publicitário paulista Francisco Meirelles, 36 anos, da agência DPZ, leu O sucesso não ocorre por acaso e Comunicação global, os primeiros livros publicados por Lair Ribeiro. Meirelles diz que não obteve sucesso nem prosperidade, mas tirou dos manuais alguns bons ensinamentos. “O Lair Ribeiro recomenda que a gente observe o lado bom das coisas. É curioso, mas isso dá resultados. Esse exercício faz com que se vejam os problemas de forma mais positiva. O humor melhora, o estresse fica mais suportável e o estado emocional se equilibra. Isso é bom”, diz. A empresária Maria Thereza Sandoval também leu O sucesso não ocorre por acaso, mas o livro não lhe disse nada.

“Achei superficial. Prefiro os livros de filosofia oriental porque eles levam a uma reflexão mais profunda”, diz ela. A professora Maria Nazaré Montilha, 44 anos, leu um punhado de livros de auto-ajuda para tentar livrar-se da compulsão pela comida. Encontrou alguma resposta há dois anos, no manual Adeus às dietas, de Jane Hirschann e Carol Munter, que propõe uma técnica para dominar a compulsão. “O livro me causou um impacto enorme. Com ele, aprendi a comer só quando sinto fome e consegui perder 6 quilos”, conta ela.

O risco é simplificar dramas complexos

O saldo da leitura de um manual de auto-ajuda, como se vê, não depende apenas das qualidades do livro, mas também do ânimo do usuário em seguir seus conselhos. A psicanalista Elisabeth Wajnryt realizou recentemente um trabalho de acompanhamento dos leitores de Adeus às dietas. Duzentas pessoas enviaram à psicanalista as respostas de um questionário que acompanha o livro. Só dois leitores disseram que o livro mudou suas vidas. Outros três afirmaram que o manual não serviu para nada. O restante declarou-se razoavelmente satisfeito, embora não tenha atingido todos os resultados esperados.

“Curiosamente, mesmo os leitores com maior grau de instrução admitiram que esperavam soluções instantâneas do livro”, diz Elisabeth. Os livros de auto-ajuda são como os remédios de venda livre nas farmácias. Mesmo quando são usados fora da prescrição, é raro que alguém se queixe dos efeitos colaterais. Existem casos excepcionais em que os livros causam confusão. Há cinco anos, foi lançado nos Estados Unidos o manual The courage to heal (A coragem de curar), de Ellen Bass e Laura Davis, para vítimas de abuso sexual na infância.

O problema é a irresponsabilidade com que as autoras tratam um assunto tão complexo. Como muitas vítimas de abuso bloqueiam na memória as más lembranças, o manual ensina a identificar recônditos sintomas de que a violência ocorreu. Os sintomas seriam os seguintes, segundo o manual:

1. Você se sente mal, sujo ou envergonhado;

2. Você se sente impotente;

3. Você sente que há alguma coisa profundamente errada com você e que as pessoas a abandonariam se soubessem de fato quem você é;

4. Você se sente incapaz de proteger a si mesmo em situações perigosas;

5. Você não consegue determinar quais são seus talentos, interesses e metas.

6. Você não consegue ficar motivado.

“Essa lista também serve para identificar alguém que vive uma paixão desenfreada e não correspondida, ou quem tem uma personalidade derrotista, ou então simplesmente um ser humano que vive no século XX”, diz a psicóloga americana Carol Tavris, que em janeiro passado escreveu um artigo no jornal The New York Times denunciando a leviandade do livro. Nos Estados Unidos, a onda de denúncias de pais que abusaram de seus filhos pequenos fez surgir um novo grupo de auto-ajuda, o das vítimas da síndrome da falsa memória. São pais que se dizem inocentes da acusação de incesto, a qual atribuem à imaginação perturbada e doentia dos filhos. Que ninguém estranhe se aparecer nas livrarias um manual para ajudar os pais caluniados.

Fabrício Marques