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Como a evolução explica a mentira?

Como a evolução explica a lorota? Borboletas, macacos ou orquídeas, não importa. Animais mentem. A grande diferença é que para os humanos mentir não é só uma questão de sobrevivência e reprodução

André Bernardo

Mais do que uma falha de caráter, mentir é uma questão de sobrevivência. E mais: se serve de consolo, o humano não é o único a viver de enganos. Outros seres vivos, como plantas e animais, também aprontam para conseguir o que querem. Até os vírus têm hábeis estratégias para trapacear os sistemas imunológicos de seus hospedeiros.

A ciência mostra que nossos ancestrais da Idade da Pedra já mentiam. Se não conseguiam alcançar seus objetivos por meio da força bruta, tinham que recorrer a outras técnicas, mais sutis, de manipulação e trapaça. Podia ser para manter o respeito do grupo ao voltar da caça de mãos vazias, para fugir de um predador, para conseguir alguém para acasalar ou para exercer a liderança sobre um grupo. Ou seja, somos hoje considerados mentirosos por natureza por causa das muitas vantagens adaptativas que a arte da dissimulação proporcionou aos nossos antepassados – e que continua a proporcionar a nós.

“Sem a mentira, a vida em sociedade entraria em colapso. Se você duvida disso, basta imaginar o que seria a vida se você resolvesse dizer a todos os seus amigos o que realmente pensa de cada um deles”, provoca o filósofo e psicólogo evolutivo David Livingstone Smith, diretor do Instituto de Ciência Cognitiva e Psicologia Evolutiva da Universidade da Nova Inglaterra, EUA. “Além disso, em muitos aspectos, mentir é um passaporte para o sucesso nos negócios, na política e na vida social. Indivíduos que não sabem mentir são párias sociais.”

 

 

O valor do engodo
Na implacável luta pela sobrevivência e pela reprodução da espécie, o moralismo não tem espaço. Quem mente bem leva vantagem sobre quem diz a verdade simplesmente porque a lorota funciona para resolver um monte de problemas – como não ser devorado. E a natureza, pragmática, tende a selecionar tudo o que funciona. Outro motivo para a perpetuação da mentira é que ela contribuiu para o sucesso reprodutivo dos cascateiros. Nesse caso, para se tornar um bem-sucedido reprodutor da espécie, o indivíduo precisa ser sedutor o bastante para despertar desejo em membros do sexo oposto ou intimidador o suficiente para afugentar os do mesmo sexo.

Como as características que asseguram a sobrevivência de uma espécie e favorecem sua reprodução têm maior probabilidade de ser transmitidas de uma geração para a outra, chegamos aos nossos dias como totais mentirosos. “Como primatas inteligentes que somos, nossos antepassados desenvolveram um alto grau de inteligência social. Para obter sucesso e deixar descendentes, a capacidade de administrar complexas relações humanas tornou-se imprescindível em sociedade”, complementa Smith.

É verdade que, de todos os seres vivos, nenhum mente tão bem e com tanta desenvoltura quanto os humanos. O homem mente tanto, mas tanto, que, segundo Smith, “não teria sido inadequado chamá-lo de Homo fallax (‘Homem enganador’) em vez de Homo sapiens (‘Homem sábio’)”. Mentir é um fenômeno tão natural para o ser humano – e para qualquer outra coisa viva – quanto se locomover, comer ou se reproduzir.

Como um animal mente? De vários jeitos. O mais conhecido é o do camaleão, que muda de cor conforme seu entorno. Muito tempo atrás, ele era apenas um entre vários “pré-camaleões”. Só que acabavam sendo devorados por seus predadores. E qual sobreviveu? Aquele que fosse capaz de disfarçar-se de tal modo que simplesmente desaparecia das vistas de seus algozes. A essa capacidade de adaptar-se à aparência do ambiente os zoólogos dão o nome de mimetismo.

O naturalista inglês Henry W. Bates (1825-1892) foi o primeiro a estudar estratégias de engano em animais. Ele observou o comportamento das borboletas no vale do rio Amazonas. Para fugir das investidas dos pássaros, as gorduchas borboletas da família Pieridae passaram a voar com as da família Heliconiinae, que têm um sabor bem menos agradável ao paladar das aves. Essa engenhosa técnica também é usada por vermes, moluscos, insetos, aranhas, peixes, anfíbios e até mamíferos.

Entre os primatas, o homem não é o único a levantar falso testemunho. A americana Koko é exemplo disso. Em 1972, a então bebê gorila começou a aprender a linguagem dos surdos-mudos com a psicóloga Francine “Penny” Patterson, da Universidade Stanford. Passados quase 40 anos, o mais famoso representante símio da comunidade científica já domina mais de mil sinais e compreende cerca de 2 mil palavras em inglês.

Entre outras proezas, Koko consegue diferenciar passado, presente e futuro. Além de saber discutir e brincar – e, ainda, mentir. Certa vez, após quebrar seu brinquedo favorito, um gatinho de plástico, Koko não titubeou em pôr a culpa em um dos assistentes de Penny a fim de escapar da punição. Em outra ocasião, enquanto mastigava um giz de cera vermelho, Koko foi indagada pela pesquisadora se estava com fome. Com medo de levar uma bronca, limitou-se a responder, por meio de sinais: “Lábio”. E, em seguida, começou a passar o giz pelos lábios, como se fosse um batom.

A exemplo de Francine Patterson, o primatólogo Frans de Waal, da Universidade Emory, em Atlanta, passou anos de sua vida dedicado ao estudo do comportamento de alguns primatas no zoológico de Arnhem, na Holanda. Autor de Eu, Primata – Porque Somos como Somos, Frans de Waal testemunhou o caso de chimpanzés e orangotangos que tentavam atrair humanos para a área próxima de suas jaulas agitando um pedaço de palha com uma expressão para lá de amigável. Quando os incautos visitantes se rendiam aos apelos dos aparentemente pacatos moradores do zoológico, corriam o risco de ter os tornozelos mordidos pelos animais.

“Os animais que não são pré-programados pelo mimetismo se viram com o puro engodo. Alguns pássaros, por exemplo, emitem alarmes falsos quando encontram comida [como o sinal de que um predador está por perto]. Assim, afugentam outros pássaros, que ficam com medo de se aproximar, e conseguem se alimentar sozinhos”, afirma Frans de Waal.

 

 

Inteligência maquiavélica
Nenhuma ordem de seres vivos é capaz de manipular seus semelhantes com tanta astúcia quanto os primatas (humanos inclusos, claro). Em 1987, os primatólogos Richard Byrne e Andrew Whiten, da Universidade de St. Andrews, Escócia, cunharam o termo “inteligência maquiavélica” após estudar os hábitos manipuladores de babuínos negros, que vivem no sul da África. Algumas das histórias relatadas por Byrne no livro The Thinking Ape (“O macaco pensante”, sem tradução para o português) são quase anedóticas.

É o caso de um jovem babuíno que, perseguido implacavelmente por sua mãe após praticar uma travessura qualquer, para de repente e, com uma vigarice surpreendente, lança um olhar preocupado na direção do horizonte, como se estivesse prenunciando o ataque de um inimigo. Na mesma hora, a mãe do babuíno interrompe a perseguição e, com medo de sofrer uma emboscada, foge em debandada, rumo a um esconderijo. Outro babuíno observa, furtivamente, o esforço de uma fêmea de sua espécie para arrancar da terra seca uma suculenta raiz. Ao ver que, pouco depois, a fêmea conseguira arrancar do solo seu prêmio, o babuíno solta um grito estridente, como se estivesse sendo atacado. Assustada, a mãe do babuíno aparece em seguida e, julgando que o filhote estivesse levando a pior, põe a fêmea para correr. O trapaceiro, então, se aproveita da situação para saborear, sozinho, a iguaria.

“O ato de mentir consiste em ler a mente dos outros e tentar manipulá-la. É como se você tivesse que entender as motivações do outro e usar esse entendimento em seu benefício. Para algumas pessoas, a habilidade de prever o comportamento dos outros é unicamente humana. Mas pesquisas recentes afirmam que chimpanzés, gorilas, orangotangos e bonobos também são capazes disso. A habilidade que algumas espécies têm de adivinhar o que o outro busca e de antecipar suas reações favorece o engodo, a mentira e a dissimulação”, afirma Byrne.

 

 

Sem parar
Na maioria das vezes, os animais só lançam mão de subterfúgios enganosos quando se encontram em situação de perigo e disputa por comida ou parceiro sexual. Já o homem mente o tempo todo, porque é fácil e funciona. Isso não quer dizer que não seja perigoso mentir.

Se fulano mente e beltrano acredita em sua mentira, fulano ganha e beltrano perde. Mas, se fulano mente e beltrano detecta essa mentira, a chance de fulano continuar obtendo vantagens por meio de suas mentiras cai drasticamente. E se beltrano resolve alertar sicrano sobre a desonestidade de fulano? “Mentir pode ser arriscado porque ninguém gosta de ser enganado. Por causa disso, nossa tendência é sempre de punir quem mente para nós. Se alguém é flagrado contando uma mentira, sua reputação é manchada e ele pode estar irremediavelmente arruinado”, diz Smith.

No caso dos nossos ancestrais hominídeos, a mentira podia significar, na melhor das hipóteses, banimento da vida social. Na pior, a morte. Sozinho e desprotegido, o trapaceiro estaria mais vulnerável à ação de predadores e de impiedosos grupos rivais. Nos dias de hoje, as punições são outras, só que também levam ao isolamento. Mas existe uma forma para enganar melhor os outros. É como afirma o biólogo Robert Trivers, da Universidade Estadual de Nova Jersey – “Algumas pessoas só conseguem mentir bem para os outros porque, em primeiro lugar, conseguem mentir bem para si mesmas. O autoengano pode até não ser ‘essencial’ para transformar alguém em um exímio mentiroso, mas, sem dúvida alguma, pode ser bastante útil.”

 

 

Mentirosos por natureza
• A orquídea Orphys speculum, presente no sul da Europa e no norte da África, produz pequenas flores sem néctar para atrair polinizadores em potencial. Para seduzir os incautos machos, as orquídeas têm em suas flores uma mancha violeta que se parece com os reflexos das asas semicruzadas de uma fêmea em repouso. Além disso, um longo tufo de pelos vermelhos simula aqueles encontrados no abdômen do inseto e as pétalas superiores imitam suas antenas. Para completar a farsa, ainda liberam um forte aroma que simula os feromônios das vespas fêmeas.

• O Buteo albonotatus (gavião-de-rabo-barrado) tem o hábito de camuflar-se em meio a bandos de urubus-de-cabeça-vermelha quando está à procura de comida. Como os urubus se alimentam de carniça, as presas em potencial do gavião (em geral, aves e mamíferos) não se sentem ameaçadas quando a revoada se aproxima. Mas basta as aves chegarem perto da presa para que o gavião abandone seu disfarce e, mais que depressa, faça sua investida fatal.

• Às vezes, uma criatura inócua tende a imitar o hábito de outra repelente para escapar de inimigos naturais. Foi o que aconteceu com as borboletas da família Pieridae – uma fina iguaria para os pássaros. Para fugir das investidas das aves, as borboletas da família Pieridae passaram voar com as da família Heliconiinae, que têm um sabor detestável.

• O pequeno lagarto Heliobolus lugubris é nativo do deserto de Kalahari, na África. Para não ser importunado por predadores, ele imita, quando filhote, a aparência do besouro oogpister (“mija-olho”, em africâner), que tem um jato de substâncias tóxicas contra predadores. Os lagartinhos, porém, não mimetizam apenas a cor e o tamanho do besouro. Eles imitam até seu jeito durão de andar.

• Um ótimo exemplo de “lobo em pele de cordeiro” é a tartaruga da espécie Macrochelys temmincki. Ela passa os dias no fundo de um riacho, com a boca aberta voltada para a superfície. A parte interna da boca é cinza, mas, no fundo, há uma parte rosácea que imita a aparência de um verme. Qualquer peixe tolo o bastante para abocanhá-lo corre o risco de virar almoço.

• Quando símios descobrem comida, normalmente emitem um alerta para outros da mesma espécie, que logo aparecem para dividir a refeição. Mas há indivíduos da espécie Rhesus (Macaca mulatta) que agem diferente: em vez de chamar os outros, começam a vascular o ambiente ao seu redor. Depois de se certificar que não estão sendo observados, devoram a comida – sozinhos.

• Quando é abordada por um inimigo, a cobra da espécie Heterodon platyrhinos começa a estrebuchar, como se estivesse agonizando – com direito a boca aberta e língua para fora. Para completar a encenação, ainda exala de sua cloaca um cheiro repugnante.

 

 

Saiba mais
Por Que Mentimos? – Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira
David Livingstone Smith, Campus, 2005

The Thinking Ape
Richard Byrne, Oxford, 1995