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Como driblar o apocalipse

Salvador Nogueira

Sabemos que tudo acaba um dia. A vida se destrói e renasce das cinzas a cada cataclismo cósmico, manifestando a aparente vontade do Universo de permanecer habitado. Apesar de todos os quadros apocalípticos possíveis, para praticamente tudo há uma escapatória. A inteligência humana poderia – com o devido tempo – superar todas as dificuldades, tornando nossa civilização virtualmente imortal. Até mesmo no fim do Universo, poderíamos simplesmente criar outro e começar tudo de novo. Como? Confira nossas 7 receitas antifim do mundo.

1. Climatize o planeta

A ameaça mais imediata à existência da civilização, muitos cientistas diriam, é a mudança climática. Estamos entupindo nossa atmosfera de gás carbônico e com isso aumentamos o efeito estufa, tornando o planeta mais quente. Os modelos de computador que simulam as interações entre a atmosfera e os oceanos sugerem que essas modificações podem levar ao aumento do nível dos mares e ao colapso de ecossistemas. Mas não criemos pânico! Diante do eterno impasse do mundo globalizado em cortar os níveis de emissão de gases estufa, alguns pesquisadores já sugerem que a melhor forma de resolver o negócio é com projetos de “geoengenharia”.

A ideia é usar nosso conhecimento do ambiente para controlá-lo. Por exemplo: sabe-se que o dióxido de enxofre, quando liberado por vulcões, sobe para o topo da atmosfera e reflete mais luz solar, reduzindo o calor que chega ao solo. E se lançássemos mão de uma liberação artificial de dióxido de enxofre, sob medida para manter a temperatura como está, contrabalançando o aumento do efeito estufa?

A maioria dos climatologistas diz que ainda não temos suficiente entendimento para fazer manipulações desse nível no clima da Terra e dá chiliques quando alguém vem propor soluções de geoengenharia para o aquecimento. Contudo, espera-se que a ciência refine cada vez mais seus modelos atmosféricos, de forma que um dia, talvez logo, seja possível “consertar” a mudança climática com tecnologia.

2. Rebata asteroides

Já dizia o saudoso Arthur C. Clarke: “Os dinossauros foram extintos porque não tinham um programa espacial”. Como nós temos, talvez possamos impedir a próxima grande catástrofe global causada por colisão de asteroide. Veja alguns modos de fazer isso.

LUÇÃO ATÔMICA
Caso o tempo de aviso seja curto (menos de 1 ano antes do impacto), a única solução possível seria usar nossos mísseis para tentar desviá-lo com detonação de bombas atômicas. Esse método “força bruta” não é dos melhores porque pode resultar apenas na quebra do asteroide em 2 ou 3 pedaços maiores, todos ainda em rota de colisão.

DESCE E EMPURRA, AÊ
Com dezenas de anos de aviso prévio, o leque de alternativas cresce. Uma possibilidade, levantada por Clark Chapman e Daniel Durda, do Southwest Research Institute, nos Estados Unidos, seria simplesmente instalar um motor no asteroide para que ele o empurrasse em outra direção. Parece maluco, mas eles fizeram as contas e constaram que dá para desviar um asteroide de 1 km de diâmetro com um motor similar ao do ônibus espacial – mas também seriam precisos 30 anos de aviso prévio.

CHAMA O PINTOR
Uma estratégia sutil, sugerida por Joseph Spitale, da Universidade do Arizona em Tucson, seria simplesmente pintar o bólido espacial de branco. Com a cor mais clara, apenas a luz do Sol refletida com mais intensidade daria conta de desviá-lo do curso, contanto que houvesse décadas entre a última demão e o impacto.

3. Monte uma colônia em Marte

As armas nucleares já ameaçam a civilização. Novos perigos tecnológicos estão à espreita. Um grupo terrorista pode muito bem desenvolver um vírus fatal e matar bilhões de pessoas – possivelmente todas (inclusive seus criadores). Como escapar disso? O físico britânico Stephen Hawking tem a resposta: estabelecendo colônias independentes em outros planetas, como Marte. Verdade, é um lugar desagradável, um deserto gélido. Mas, com estufas e ambientes fechados, dá para viver lá. Então, se alguma tragédia se abater sobre a Terra, não será o fim da humanidade. Poderíamos até mesmo repovoar nosso próprio planeta depois que as coisas se acalmassem por aqui.

4. Fuja para longe do sol

Sabemos que o Sol está ficando cada vez mais quente. Em coisa de 1 bilhão de anos, chegará a tal ponto que começará a tornar a Terra inabitável, levando os oceanos a entrar em ebulição. A única solução seria empurrar a Terra para mais longe dele. Fim de jogo? Nada disso. Com criatividade, dá para resolver. Segundo Gregory Laughlin, cientista do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, basta desviar um cometa na direção da Terra a cada 6 mil anos. Não para bater com ela, claro. Mas, passando apenas de raspão, o efeito gravitacional que ele exerceria sobre o planeta faria com que sua órbita aumentasse ligeiramente. Se formos fazendo isso uma vez a cada 6 milênios (sem errar a mira!), podemos manter a Terra simpática e hospitaleira até o final da vida do Sol.

5. Quanto tempo – Apagam-se as luzes no Sistema Solar

Empurrando a Terra para longe, o planeta sobreviverá à fase final de vida do Sol, em que a estrela se tornará uma gigante vermelha e engolirá Mercúrio e Vênus. Entretanto, depois que passar essa etapa, só restará o núcleo solar em processo de resfriamento – cadáver estelar conhecido como “anã branca”. O ambiente terrestre ficará mais gelado que Plutão. A essa altura, teremos de nos mudar de planeta. Será preciso desenvolver colônias ao redor de outras estrelas, com naves espaciais capazes de cruzar as distâncias interestelares. Não há nada no Universo que proíba essas viagens, exceto o tempo de duração. Com a tecnologia atual, chegar a Alfa Centauri, sistema mais próximo de nós, levaria 300 mil anos. Mas também convenhamos: em mais 5 bilhões de anos, já devemos ter tecnologias melhores que essa.

6. Se aqueça num buraco negro

Mesmo que fiquemos pulando de estrela em estrela, todas elas tendem a morrer um dia. Só restarão seus cadáveres, que por fim serão engolidos por buracos negros. No fim, só restarão eles. Alguns cientistas especulam que poderíamos “montar acampamento” na borda de um deles e obter energia da sutil radiação que eles emitem para nos manter vivos. Imagine o tédio de um Cosmo escuro. E o pior: se os buracos negros realmente irradiam energia, isso também significa que tudo que há dentro deles está “vazando” na forma de radiação. Uma hora eles vão evaporar e sumir. E aí?

7. Construa seu próprio Universo

Quando tudo mais falhar, a única opção será criar um Universo novo para morarmos. Ok, é a versão “ultimate” do popular jogo de brincar de Deus. Mas, para uma civilização que sobreviveu trilhões de anos depois da morte de seu planeta natal, povoou diversos sistemas planetários espalhados pelo Cosmo e se alimentou de energia de buraco negro quando não havia mais nada, não parece tão absurdo. Aliás, convém lembrar que o Big Bang, grande explosão que deu origem ao nosso Universo, é suspeitamente parecido com as singularidades que se escondem no interior dos buracos negros.

Poderia haver um Universo inteiro dentro de um buraco negro? Como a própria definição desses objetos, pela relatividade, sugere que eles estão fora do nosso espaço-tempo, não chega a ser um disparate. Poderíamos, portanto, usar esse processo para criar nosso próprio Universo e, depois, ir morar nele. Claro, exigiria a manipulação de energias muito distantes do que somos capazes de controlar. Mas teremos tempo de sobra para aprender.

Buraco negro

O físico Lee Smolin defende a teoria de que o nosso Universo é apenas um de uma longa linhagem de Universos. Cada um deles nasce no interior de um buraco negro. Ele acredita que os primeiros se formaram com leis físicas aleatórias, mas aos poucos a “evolução” fez com que nascessem preferencialmente universos capazes de produzir muitos buracos negros – muitos filhos, por assim dizer. É por essa razão, segundo ele, que o nosso Universo tem as leis que tem: para propiciar grande produção dessas criaturas bizarras do zoológico cósmico. E você que achava que era para abrigar uma espécie primata do terceiro planeta ao redor do Sol…