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Como o Bope virou uma máquina de guerra

O Bope saiu do anonimato para se tornar uma das siglas mais temidas do Brasil por causa de vários "Coronéis Nascimento" e de uma sucessão de equívocos que terminou em tragédia

Texto: Vinicius Cherobino

Promovido de patente e com escritório na Secretaria de Segurança Pública em Tropa 2, o Coronel Nascimento se gaba de ter transformado o Bope, o temido Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio, em uma máquina de matar bandidos e invadir favelas. Só que não foi bem assim. Vários “Nascimentos” transformaram o Bope. E a história começa quando Nascimento provavelmente era só uma criança.

Em 1978, a Polícia Militar do Rio criou um grupo para combater assaltos a bancos com 30 homens treinados pelo Exército. O objetivo era ter uma força especial chamada para atuar quando a polícia convencional não conseguisse resolver o problema. Mas, na prática, a função mudou. Por causa dos problemas do Rio, a unidade desenvolveu uma técnica de invasão de favelas baseada em equipes pequenas e organizadas, que sobem as vielas em silêncio. “Os governos transformaram o Bope em um batalhão de operações especiais em morros”, relata André Batista, que inspirou o personagem Andre Mathias no filme. Ex-major do Bope e co-autor dos livros Elite da Tropa 1 e 2, Batista chegou ao batalhão em 1996, quando a unidade contava com 180 homens. Com o sucesso nas favelas, o batalhão passou a atender a outras emergências. E um desses casos transformou o Bope.

No ano 2000, Sandro Barbosa do Nascimento – sobrevivente da chacina da Candelária, em que 8 crianças de rua foram mortas em 1993 – sequestrou o ônibus 174 e fez 10 reféns. O Bope foi chamado. Após quase 5 horas de negociação, o desfecho: Sandro desce do ônibus usando Geísa Firmo Gonçalves como escudo. Um soldado do Bope atira contra o sequestrador, mas acerta de raspão o queixo da refém. O criminoso dispara 3 tiros contra as costas de Geísa e a mata. Preso com vida, Sandro é levado em uma viatura e morto por asfixia. Levados a julgamento, os policiais militares acusados da morte de Sandro foram absolvidos em 2002.André Batista atuou como negociador do Bope no caso, mas não gosta de falar do tema e se resume a dizer que parte da responsabilidade pelo resultado foi do suca-teamento do batalhão. Os rifles de precisão, conta, tinham as miras mofadas. “É preciso que o material seja substituído, mas isso não aconteceu e culminou com a desgraça do 174”, lamenta.

A repercussão do caso pressionou o governo do estado e o Bope mudou. “O batalhão redefiniu as suas estruturas. Por exemplo, naquele caso, não havia uma equipe só de negociadores ou uma equipe só de atiradores de precisão”, conta Batista. Hoje, elas existem, e a eficiência do grupo aumentou. As mortes de reféns diminuíram e o Bope cresceu: atualmente, tem cerca de 400 homens, contratados entre os governos de Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho e Sérgio Cabral.

Apesar do progresso, o Bope continuou suas ações nas favelas – para o bem e para o mal. A socióloga Sandra Carvalho, diretora da Justiça Global, ong de direitos humanos, explica que há vários relatos de moradores que foram extorquidos ou tiveram seus bens roubados por policiais do Bope. “A imagem criada de incorruptível não é necessariamente verdadeira para os policiais que estão na ponta da ação”, afirma. Para Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro, a violência policial continua sendo um problema. Ele classifica as ações em favelas como uma estratégia “para controlar a pobreza” no que chama de “apartheid social sem muros”. Freixo ressalta, porém, que a violência e as mortes não são de responsabilidade do batalhão, mas uma responsabilidade da política de segurança pública. “A gente tem a polícia que mais mata no mundo, mas também a que mais morre. Em nome de quais interesses?”, acrescenta, em uma frase de fazer inveja ao desiludido Coronel Nascimento de Tropa 2. Procurado, o Bope preferiu não dar entrevista.

 

 

 

O bope é pop

O sucesso de Tropa de Elite transformou o Bope em um fenômeno pop. Frases como “pede para sair” se tornaram um bordão repetido à exaustão por meninos de escolas de classe média contra os colegas ou por narradores de futebol descontentes com o desempenho de algum jogador mediano.

O símbolo do batalhão virou camiseta. E o Caveirão virou brinquedo, um fenômeno bem parecido com os carros do Rambo – que fizeram sucesso nos anos 80. No Dia da Criança deste ano, por exemplo, diversas lojas na zona comercial do Rio de Janeiro venderam o blindado de plástico estampado com um simbolo que lembrava a faca na caveira do Bope. Por R$ 38, qualquer pai poderia colocar um caveirão em casa para divertir os filhos. A faca na caveira também ganhou uma versão agradável a pessoas que não se sentiriam muito à vontade com uma lâmina de verdade: uma com um sabre de luz (de Star Wars) no lugar da faca. Vendida na internet como estampa de camiseta, a imagem agradou em cheio aos fãs mais nerds, que puderam combater as forças do mal intergalácticas inspirados pela tropa de elite. Mas o pop, como já dizia Humberto Gessinger, não poupa ninguém. Ele cobra seu preço.

Ao relembrar as gravações feitas no Brasil do filme Os Mercenários, Sylvester Stallone criticou: “Os policiais de lá usam camisetas com uma caveira, duas armas e uma adaga cravada no centro. Já imaginou se os policiais de Los Angeles usassem isso? Já mostra o quão problemático é aquele lugar”, diz Stallone, cujo papel mais célebre, coincidentemente, é o de um homem comum transformado na maior máquina de matar da história. A diferença é que este homem, o Rambo, só existe na ficção. O Bope não.

 

 

Filme
Como o Coronel Nascimento, o delegado Alexandre Neto sobreviveu a um atentado executado por policiais corruptos. Em 2007, ele conseguiu escapar após ser baleado 5 vezes em Copacabana.