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Como Steve Jobs matou os nerds

O Jobs dos anos 1970 foi decisivo para a invenção da cultura geek. Três décadas depois, de volta à Apple, o co-fundador da empresa acabaria com ela de uma vez por todas. E sem dó

Alexandre Versignassi e Tiago Cordeiro

Steve Jobs tinha 12 anos e um problema: queria montar um frequenciômetro – aparelho essencial quando você precisa construir seu próprio circuito em casa. O menino não tinha todas as peças de que precisava, então decidiu telefonar para alguém que certamente tinha: Bill Hewlett, dono e fundador da HP. Era a maior empresa da região onde Jobs morava, naquele ano de 1967.

Jobs pegou a lista telefônica, encontrou um “William Hewlett” ali e ligou:

– “Alô, é o Bill Hewlett, da HP?”

– “Eu mesmo”

– “Meu nome é Steven Paul Jobs e…”

Os dois conversaram por 20 minutos. Jobs conseguiu tudo o que precisava para montar seu frequenciômetro. E aí não pararia mais. Em 1976, ele e Steve Wozniack lançaram o primeiro computador pessoal da dupla, batizado de Apple I – a máquina vinha na forma de kit e não tinha certos luxos, como teclado, tela e caixa. Quem quisesse que arranjasse o resto por conta própria.

Em 1977, Steve Jobs lançaria seu primeiro computador completo, com tela (e até tomada), o Apple II. No final dos anos 70, começo dos 80, a coisa explodiu. As letras verdes sobre as telas de fundo preto estavam em todo lugar. A cultura nerd foi para a casa das pessoas, inclusive. Aprender a operar um Apple II era algo que exigia alguma dedicação (menos do que para construir um, mas exigia). Mas todo mundo achava natural. Fazia parte do processo de incorporar aquelas máquinas incríveis à própria rotina. E quanto mais conhecimento técnico você tivesse, mas benefícios essas máquinas traziam. Aqueles eram tempos nerds. Não os nossos. A cultura nerd está morta.

E o assassino foi Steve Jobs. O nerdicídio começou ainda em 1984, quando a Apple lançou o Macintosh, o primeiro computador que qualquer criança podia usar. Ainda assim a cultura nerd resistiria firme: por duas décadas memória RAM, placas de vídeo e a frequência em hertz dos microprocessadores continuaram sendo assunto de mesa de bar – não de qualquer bar, mas… Bom, agora isso acabou. Você sabe a memória RAM do celular que usa pra entrar no Twitter? Eu não. E não sei por um motivo simples: isso deixou de ser importante. A gente não tem como trocar a memória do iPhone ou do iPad. Eles são o que são. O iPhone e o iPad tornaram a nerdice desnecessária.

Fidel Castro, quando tinha 12 anos, mandou uma carta para o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, pedindo uma nota de dólar – pois “nunca tinha visto uma”. E depois fez o que fez em Cuba. A história de Jobs, que começou aos 12 anos, com aquele telefonema para o fundador da HP em 1967, é irônicamente parecida. Com a grande diferença de que a revolução iniciada por Jobs foi global. E para sempre.