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Criatividade se aprende na escola

Instalada há doze anos num prédio do centro histórico de Roma, a S3 Studium ensina seus alunos a serem criativos e os prepara para enfrentar, com sucesso, as necessidades de um mercado de trabalho cada vez mais exigente.

Monica Falcone

Imagine uma escola onde doze estudantes bem vestidos sentam-se em torno de uma antiga e longa mesa oval de nogueira. Todos falam: ali não existe a divisão tradicional entre professor e aluno. No roteiro da aula—se é que existe algum roteiro—há uma constante mistura de realidades diferentes. Ouvem-se belíssimas citações do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986)—”O paraíso existe e está aqui na Terra, o inferno existe e consiste em não saber que aqui é o paraíso”— entremeadas a afirmações peremptórias do industrial Henry Ford (18631947)—”Os americanos podem escolher todas as cores de carro que quiserem, desde que escolham o preto”.

É assim que funciona, em Roma, capital da Itália, a S3 Studium, uma escola —vá lá o nome convencional—que se propõe a ensinar criatividade a seus alunos: executivos que trabalham na indústria, na administração pública, na direção de grandes hospitais, empresas de comunicação ou complexos Turísticos. E eles não têm do que se queixar quanto à eficiência do curso. Paolo Vaselli. sociólogo recém-formado, fez uma espécie de pós-graduação na S3 e logo tornou-se um dos profissionais mais disputados da Itália na área de treinamento de executivos. Outro recém-formado, Raffaelo Merli, estava desempregado ao se matricular no curso. Atualmente, executivo da ENI (Ente Nazionale Idrocarburi), a similar italiana da Petrobrás, fareja e pesquisa novidades e avanços na área da tecnologia de combustíveis para serem eventualmente aplicados na empresa. 

Hoje, quem procura um emprego bem remunerado em empresas de sucesso, em qualquer ramo e profissão, tem de ser, antes de mais nada, criativo. Sem dúvida, um desafio, pois não se aprende criatividade na escola regular e, quase sempre, se é desencorajado a ousar nas primeiras experiências profissionais. Para suprir essa falha é que o sociólogo Domenico De Masi, catedrático de Sociologia do Trabalho da Universidade de Roma, fundou há doze anos a S3 Studium. Juntamente com o sociólogo francês Alain Touraine e os sociólogos americanos Daniel Bell e Alvin Toffler (autor do best seller A Terceira Onda). De Masi não só identificou o início de uma época pós-industrial como também antecipou muitas das características da organização da indústria e da sociedade em que estamos vivendo.

Nessa nova sociedade dominada pela Informática e na qual as necessidades antes supérfluas como a televisão, o esporte e a moda passaram a ser essenciais, a criatividade é uma matéria-prima preciosa. De Masi acredita que para responder à voraz demanda de novos produtos e modelos do mercado atual, cada vez mais exigente e sensível à moda, é preciso ser criativo-seja para inventar mecanismos de marketing alternativos ou métodos de produção rápidos e econômicos. Quem realizar essa tarefa no menor espaço de tempo, vence o duelo. muitas vezes mortal, com a concorrência.

O professor gosta de ressaltar a importância da criatividade na indústria automobilística; para lançar um novo modelo de carro, as montadoras européias gastam oito anos em preparativos; já os japoneses, trabalhando em grupo e eliminando a tradicional divisão do trabalho, precisam de apenas três. Na tentativa de remediar esta e outras desvantagens do mesmo gênero, os europeus procuram deter a invasão dos carros japoneses, criando obstáculos nas fronteiras.

Na S3 Studium começa-se a aprender criatividade ao atravessar a soleira da porta principal. Os móveis e quadros. por exemplo, foram herdados de cenários dos filmes de Lina Wertmüller, magníficos exemplares de Jugendstil, estilo que vigorava na Alemanha, no final do século passado. É que o apartamento onde a escola funciona pertence ao cenógrafo Enrico Jobi, marido de Lina, amigo de De Masi e responsável pela decoração. Nesse ambiente de bom gosto, profissionais de diversas áreas se encontram durante três anos —tempo de duração do curso de pós graduação, denominado Ciências Organizativas. As aulas, concentradas em um só dia da semana, começam às 9 horas e terminam às 17. E a pontualidade é uma das poucas regras da escola. Quem chega atrasado, certamente ouve uma reprimenda.

A primeira lição que se aprende ao entrar na S3 é que o ambiente é fundamental para a criatividade: “Só os superficiais não acreditam na aparência”. ironiza De Masi, citando Oscar Wilde. Todo mundo é criativo pelo menos em algum campo. O importante é receber estímulos psicológicos e estéticos do ambiente”, assegura o professor, um jovial e bem-humorado cinqüentão, chamado carinhosamente pelo apelido de Mimo. De fato, o clima na escola é alegre, variado e quase festivo, contrastando com a realidade do cotidiano das empresas onde trabalham alguns dos trinta alunos matriculados nas três séries do curso: executivos da indústria ou da administração pública, profissionais recém-formados em Economia, Sociologia, Física e Engenharia.

Nem todos, no entanto, moram em Roma. O engenheiro Pier Luigi Bongiovanni, por exemplo, executivo de uma empresa que produz equipamentos industriais, mora em Bergamo e viaja 624 quilômetros toda semana para assistir às aulas. Alguns estrangeiros que trabalham em Roma também freqüentam o curso. A diversificação da formação acadêmica— que mistura engenheiros, físicos, economistas e sociólogos—é intencional e é um critério levado em conta nos exames de seleção. “A criatividade pode nascer da faísca entre duas culturas ou pontos de vista diferentes”, observa um dos trinta professores que acompanham individualmente, como tutores, a atividade de cada aluno.

Outra lição que o ambiente da S3 ensina é que as pessoas criativas sempre conseguem transformar os próprios limites em vantagens. As instalações da escola são pequenas, mas aconchegantes. Isso permite organizar os alunos em grupos reduzidos, o que aumenta a participação e conseqüentemente o rendimento de todos eles. O restante do programa é individual e estabelecido entre o aluno e seu tutor, que determina os livros a serem resenhados e os estágios a serem feitos. É o tutor quem acompanha também o desenvolvimento de uma pequena tese de pesquisa a ser apresentada no final do ano. A anuidade para os alunos do 1.° e 2.° ano é de 3 milhões de liras ( equivalentes a quase 900 000 cruzeiros) e para os do 3.° ano. 4 milhões (equivalentes a 1,2 milhão de cruzeiros). 

Como esse dinheiro mal paga as despesas, a escola recorre freqüentemente a patrocinadores escolhidos entre as empresas privadas e públicas, um dia comum de aula, em junho passado, De Masi precisou descrever uma empresa onde seu dono, geralmente o fundador, centraliza tudo. Criativo, valeu-se de uma frase do novelista francês Gustave Flaubert (1821-1880): “Madame Bovary c’est moi” (Madame Bovary sou eu). E assim ele prosseguiu a aula com os alunos descrevendo experiências de trabalho. As questões que eles tiveram de resolver se transformaram num exercício coletivo, para provar que um problema pode ter muitas soluções, umas mais criativas outras menos. Já a lição de De Masi sobre “A empresa criativa e a resistência às mudanças”, para os alunos do 2.° e 3.° ano, começou com a leitura de uma página do escritor italiano Italo Calvino.

É um trecho de uma conferência sobre os planos de realidade que convivem na literatura. Depois da leitura, cada aluno teve 15 minutos para escrever as questões ou dúvidas que a leitura suscitou em relação ao tema. A discussão dessas dúvidas forneceu material para compor o quadro das características da organização ou empresa onde existe muita criatividade. Descobriu-se, então, que essa empresa não tem a forma hierárquica tradicional de uma pirâmide, onde os quadros dirigentes se situam no topo. Conclusão: uma empresa criativa é estruturada como uma rede em que os pontos de intersecção dos fios, os nós, são os momentos de controle. Por exemplo, numa redação de jornal, um momento de controle seria a reunião de pauta da manhã.

Na empresa criativa os momentos de controle são tão necessários quanto a liberdade de improvisar. Para exemplificar esse conceito, De Masi analisa como são feitas as improvisações pelas bandas de jazz. Um dos pontos de referência fixos é a composição da música sempre em 32 compassos. A seguir cada músico improvisa, mantendo, porém, os 32 compassos como referência. Terminado o improviso, todos os músicos voltam ao ponto de referência fixo inicial e repetem a música em conjunto.

Aproveitando as dúvidas levantadas pelo aluno Antonio Zazzetta. executivo do Instituto Nacional de Previdência Social italiano, o professor explicou que, além da criatividade, as características da empresa pós-industrial são a intelectualização do trabalho, a primazia da estética, a ressurreição dos valores éticos, a feminilização, a valorização da afetividade, a possibilidade de trabalhar longe da sede e em horários diferentes, a importância da individualidade e da qualidade de vida. E exemplos não faltaram. É evidente, insiste o mestre, a intelectualização do trabalho nas empresas modernas. No século passado, o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) observou que para cada 100 operários de uma indústria existiam quatro funcionários de escritório, responsáveis pelo chamado trabalho intelectual. Hoje, dos 14 000 funcionários que a IBM tem na Itália, apenas 400 são operários, chamados de “empregados tecnológicos”.
 
É a estética que faz do célebre relógio suíço Swatch um best seller planetário, e não a precisão ou a durabilidade de seu mecanismo.O sucesso se deve também a uma estratégia de mercado inteligente que impediu a sua vulgarização. Outro bom exemplo é o da empresa Unilever, que conquistou o mercado de sorvetes populares na Itália, a pátria do sorvete, não com receitas particularmente saborosas, mas com a beleza das embalagens e com uma publicidade alegre, musical, que mirava diretamente o consumidor jovem. No Brasil, a Gessy Lever que produz os sorvetes da marca Gelatto, veiculou um anúncio do sorvete Cornetto, nesses moldes. Quem não se lembra do jovem que passeava de gôndola pelos canais de Veneza e ao cruzar com outra transportando uma mocinha roubava-lhe o sorvete ao som de uma nova versão de O sole mio? A redescoberta dos valores éticos no trabalho e nas empresas foi denunciada pelo faro cinema americano. Nos Estados Unidos, lembra De Masi, o cinema é um veículo importante de transmissão de valores. Filmes como Wall Street, Uma linda mulher, A secretária do futuro, A fogueira das vaidades, são bons exemplos de como voltou a ser fundamental um comportamento ético tanto da empresa quanto do profissional. 

Segundo De Masi, as empresas atuais estão totalmente despreparadas para enfrentar aspectos como a importância crescente da subjetividade, da afetividade e da feminilização do trabalho.Para o Professor o caso ocorrido com a missão conjunta inglesa e soviética no espaço, em maio passado, é sintomático. Os astronautas soviéticos não conseguiam trabalhar com a astronauta inglesa porque ela trocava de roupa com naturalidade no exíguo espaço da nave, e reclamaram ao comando da operação na Terra. “O problema é que ela se trocava na frente deles, mas não ia para a cama com eles. Eles também se trocavam diante dela, mas não aceitavam a recíproca.”Da mesma forma, a maior parte dos executivos não sabe como se comportar com uma colega de trabalho ou uma cliente”, constata De Masi Por fim, a última característica das empresas que o professor define como pós-industriais é a possibilidade que a Informática oferece de se trabalhar longe da sede e em outros horários. É o que ele chama de teletrabalho. Significa estar ligado com a empresa através de terminais de computadores e desenvolver suas tarefas em casa ou em escritórios pequenos, distantes da sede. 

Pode parecer ficção científica, mas 1,8 milhão de empregados da IBM em todo o mundo já trabalham assim. A Benetton, líder mundial na confecção de roupas esporte, conseguiu explorar bem as vantagens desse conceito: a maior parte da execução das roupas que comercializa é feita por 700 micro e pequenas empresas que realizam o trabalho em suas próprias dependências. Estudos realizados pelo próprio De Masi e alguns de seus alunos demonstraram que se 4% dos trabalhadores de Nápoles trabalhassem em casa, todos os problemas de trânsito da cidade estariam resolvidos e ainda se faria grande economia de combustível. Na Itália, Nápoles é o exemplo mais acabado de uma cidade à beira do caos, com trânsito praticamente bloqueado, serviços públicos inexistentes e níveis de poluição que já ultrapassaram o estado de alarme.

Para Linda Salerno, funcionária de uma empresa de consultoria e formação de executivos, que questionou o quadro ideal pintado por De Masi e a realidade que se encontra na maioria das empresas, a resposta foi a seguinte: Devemos explorar as potencialidades que conhecemos, responsáveis pela diferença das empresas de sucesso hoje e que serão essenciais para as empresas do futuro. O problema é dos que não querem aceitar a realidade. Com o computador pude reduzir muito as minhas horas de trabalho diárias e produzir mais. Neste caso é inevitável ser um pouco cínico e aproveitar pessoalmente o que se sabe”. Terminada a lição, o grupo de alunos e professor foi a pé até uma das melhores e mais antigas sorveterias da cidade, pouco distante da escola. Ali, entre um sorvete e outro, esteticamente perfeitos, continuaram as citações de Ford, provérbios populares, Borges, Jorge Amado Shakespeare e Fellini.