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Do alto do Everest, 40 anos de expedições – e lixos – nos contemplam

Desde que o neozelandês Edmund Hillary chegou ao pico da montanha mais alta da Terra, milhares de expedicionários tentaram imitá-lo. Poucos conseguiram¿ e quase todos contribuíram para transformar a legendária montanha num depósito de lixo.

Há quarenta anos, exatamente no dia 29 de maio de 1953, dois integrantes da Expedição Britânica John Hunt, Edmund Percival Hillary e seu guia sherpa, o nepalês Tenzing Norgay, tornaram-se os primeiros homens a atingir o pico do Monte Everest, a mais alta montanha da Terra, com 8 848 metros, na Cordilheira do Himalaia, na fronteira do Nepal com o Tibete (China). Desde então, algumas centenas de alpinistas sucederam-se na tentativa de atingir o pico mais alto do mundo, utilizando diferentes caminhos. Em 1978, Reinhold Messner e Peter Habeler foram os primeiros a chegar lá sem auxílio de bombas de oxigênio; em 1980, o mesmo Messner tornou-se o primeiro a subir sozinho. Mas pelo menos 130 montanhistas e 41 guias sherpas morreram em outras tentativas de domar a Rainha Mãe do Mundo — tradução literal do nome sherpa da montanha, Chomolungma.

A luta para chegar ao topo do Everest começou em 1920. Sete expedições subiram pelo lado noroeste, entre 1921 e 1938; outras três foram pelo lado sudeste. Todas fracassaram por causa do ar gelado e rarefeito, dos ventos fortes e das dificuldades do terreno. Em 1953, finalmente, uma expedição patrocinada pela Sociedade Geográfica Real e pelo Comitê Himalaio do Clube Alpino, duas entidades inglesas, chegou ao alto, graças ao uso de roupas e botas aquecidas, sistemas portáteis de oxigênio e aparelhos de rádio para comunicação. A expedição demarcou oito campos em sua rota, subindo até o Desfiladeiro do Sul, um enorme parapeito de pedra a 8 646 metros de altura. Dali, no dia 29 de maio, o neozelandês Edmund (dois meses mais tarde Sir Edmund) Percival Hillary e o sherpa Tenzing Norgay escalaram o Cume do Sudeste, passaram pelo Pico do Sul e chegaram ao alto do Everest .

Aos 33 anos, Hillary estava no auge de uma exemplar vida de aventureiro. Começou a praticar o montanhismo em seu próprio país, mas logo estava envolvido em expedições para levantamento da Cordilheira do Himalaia. Ajudou no reconhecimento do lado sul do Everest, antes de empreender a sua conquista, dois anos mais tarde. Tornou-se, a partir daí, um benemérito da região, onde ajudou a construir escolas, hospitais e aeroportos. Em 1955 transferiu seu interesse para a Antártida, tendo chegado ao Pólo Sul em 4 de janeiro de 1958. Em outra expedição, esta em 1967, praticou seu esporte predileto — o montanhismo — escalando pela primeira vez o gelado Monte Herschel, de modestos 3 600 metros. Tudo isso ficou elegantemente registrado em vários livros, o último dos quais uma autobiografia de 1975, que parecia ser o discreto anúncio da aposentadoria de um herói. Mas ainda haveria uma aventura final: em 1977, Hillary subiu o Rio Ganges, na Índia, até atingir suas nascentes na Cordilheira do Himalaia.

A cordilheira formou-se durante o período Miocênico, entre 26 e 7 milhões de anos atrás, pela compressão de suas bases sedimentárias, com a convergência do subcontinente indiano e o planalto tibetano. O Monte Everest apareceu bem mais tarde, durante o Pleistoceno, há 2,5 milhões de anos. A subida até o seu cume significa atravessar dois terços da atmosfera terrestre, chegando a uma altitude onde o ar é extremamente rarefeito, com muito pouco oxigênio. Isso torna ainda mais admirável o feito dos que conseguem fazer a subida sem o auxílio de equipamentos especiais: o guia sherpa Ang Rita, ainda em atividade — serviu até a uma expedição brasileira —, já praticou essa proeza sete vezes.

Mas outras dificuldades devem ser vencidas pelos montanhistas, entre elas os ventos fortíssimos e a temperatura muito baixa, sobretudo nas partes mais altas, onde não sobrevivem nem plantas, nem animais. A identificação dessa montanha como o ponto mais alto da Terra foi feita em 1852, pelo governo da Índia. Chamava-se Pico XV até 1865, quando o governador geral do país, o imodesto oficial inglês Sir George Everest rebatizou-o com o próprio nome. Sua altura exata foi objeto de muita discussão até 1955, quando se estabeleceu definitivamente que ela é de 8 848 metros.

Pode-se dizer que a partir da conquista de Hillary e Norgay, o Everest foi perdendo muito de seu encanto. Todos os anos, quando chega o mês de maio, uma avalancha de alpinistas invade os bazares de Namche, a capital sherpa e última cidade antes do campo base, onde começa realmente a escalada. Ali, é possível fazer-se entender em praticamente todas as línguas do mundo e comprar sacos de dormir, fogões portáteis, garrafas de oxigênio, cereais — e toda sorte de souvenirs e presentes, como posters, capacetes, cartões-postais. Afinal, o Nepal também precisa viver.

Em média, 100 expedições aventuram-se todos os anos à conquista das 110 montanhas do Himalaia, na tentativa de chegar ao ponto culminante. Levam com elas, anualmente, de 3 a 5 toneladas de materiais diversos, que ficam pelo caminho, abandonados. A rota costuma estar tão congestionada que, em maio do ano passado, 55 montanhistas ficaram pacientemente estacionados no campo base uma semana inteira, à espera de sua vez de começar a subida. Estima-se que o caminho na montanha esteja coberto por 17 toneladas de lixo, acumuladas ano após ano.

Um inoportuno problema ecológico que o governo do Nepal enfrentou corajosamente: a partir de maio de 1993, somente 24 expedições serão autorizadas, cada ano, a tentar a escalada. Podem ter no máximo sete pessoas e deverão pagar 50 000 dólares pelo privilégio. O objetivo é espantar os amadores e, para piorar as regras, os expedicionários devem trazer de volta para Kathmandu todo o seu lixo — sacos plásticos, latas, garrafas de oxigênio etc. O único lixo que pode ser jogado no solo da montanha é o degradável: papel higiênico, comida e, conforme especifica a portaria ministerial, não sem uma ponta de humor negro, corpos humanos.

Se o objetivo era diminuir o número de pretendentes à conquista gloriosa, a diretiva do governo parece ter fracassado: as inscrições para as 24 vagas anuais na subida ao Everest estão completas até o longínquo ano 2003. Essa abundância de clientes afetou particularmente a convivência entre os sherpas, que se consideram hoje mercenários muito mal pagos. As tarifas de trabalho fixadas pela sua entidade de classe foram completamente abandonadas — qualquer um pode oferecer-se às expedições, como carregador ou cozinheiro, ganhando míseros 3 ou 4 dólares por dia.

Apesar disso, os sherpas mostram-se orgulhosos de sua parte de heroísmo na conquista do Everest. Começando, é claro, com Tenzing Norgay, um simples camponês que em uma noite tornou-se um verdadeiro herói nacional, tanto no Nepal, sua terra natal, quando na Índia, sua terra adotiva. Nos dois países ainda se suspeita ter sido ele o único a atingir o cume do Everest, em 29 de maio de 1953. A história, em todo caso, registra para a eternidade o momento de glória absoluta do neozelandês Hillary e seu guia sherpa, dominando o mundo do alto dos 8 848 metros de pedras e gelo da montanha legendária.

Para saber mais:

A vida sob pressão

(SUPER número 1, ano 6)

Computadores de pulso (SUPER número 12, ano 6)

Um corpo nas alturas

(SUPER número 10, ano 7)