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Efeito estufa turbinado

Na quantidade certa, ele é essencial à vida, preservando o planeta de grandes variações de temperatura. Mas nada impede que ele transforme um mundo num forno escaldante

Hemerson Brandão

Você já deve ter reparado num ponto brilhante no céu durante o entardecer. Alguns a chamam de Estrela d’Alva, mas, você sabe, ela é um planeta: Vênus. Depois do Sol, Vênus é o astro mais brilhante do céu noturno, visível até mesmo durante o dia em algumas ocasiões.

Tanto brilho vem das nuvens que recobrem o planeta. Não é à toa que ele recebeu o nome da deusa mitológica do amor. Mas a beleza de Vênus acaba por aí. Sob essas nuvens, existe um mundo infernal, onde você não gostaria de morar. Vênus é assolado por um efeito estufa global extremo, com ventos e temperaturas altíssimas. Um potencial vislumbre do futuro da Terra, se nossas providências para reduzir o aquecimento global falharem.

A atmosfera de Vênus é formada principalmente por dióxido de carbono. Esse gás tem a capacidade de aprisionar o calor do Sol, elevando a temperatura global na superfície para escaldantes 480 0C. Isso tanto de dia como de noite, o suficiente para derreter chumbo. O efeito estufa em Vênus já chegou a um ponto sem conserto.

Atualmente, experimentamos um aumento significativo no efeito estufa na Terra. Previsões alarmistas para o próximo século dizem em 3 ou 4 0C de elevação da temperatura global. Parece pouco. Bem longe dos 480 0C de Vênus. Mas até quando?

Quando se apresenta na quantidade certa, o efeito estufa é importante para a vida na Terra. Sem ele, nosso planeta sofreria com alterações bruscas de temperatura entre o dia e a noite. Em contrapartida, se vier em excesso, torna a Terra uma sauna insuportável.

O uso intensivo de combustíveis fósseis e a derrubada de florestas são grandes vilões dessa história. Quanto mais dióxido de carbono e metano são lançados na atmosfera, mais calor ficará preso nela, aumentando a temperatura global. E aí mais vegetação morre e mais energia consumimos, o que inevitavelmente libera mais gases de efeito estufa na atmosfera, elevando ainda mais a temperatura. Uma conta que se multiplica a cada dia.

“Pelo menos nos últimos 650 mil anos, nunca houve uma concentração de dióxido de carbono tão grande na atmosfera como agora”, é o que afirma a ambientalista Fátima Cardoso, no livro Efeito Estufa: Por que a Terra Morre de Calor. Ela aponta que durante os últimos 650 mil anos o nível de dióxido de carbono na atmosfera se manteve estável. Somente nos últimos 100 anos, essa quantidade aumentou quase 30%.

O problema é que ninguém sabe até que ponto pode-se elevar o efeito estufa na Terra antes que ele se torne extremo e irreversível. Não pelo gás carbônico que nós conseguimos emitir sozinhos, que ainda será bem inferior ao que há em Vênus, mas porque o processo empurra o planeta na direção de outro estado de equilíbrio. As geleiras derretem, menos calor é rebatido para o espaço, mais gases são liberados pelos oceanos aquecidos, mais vapor d¿água se concentra no ar, e tudo isso aumenta o efeito estufa. É um efeito dominó que pode se tornar impossível de conter.

Por isso, se os 3 ou 4 0C a mais em 2100 não chegam a assustar os mais céticos, convém lembrar que a coisa que pode ficar muito pior mais adiante. Vênus que o diga.