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El General: o rapper de 21 anos que derruba ditadores

Como um rapper que mora com os pais derrubou dois regimes totalitários e deixou o mundo árabe em ebulição

Vinícius Cherobino e Alexandre Versignassi

Cante com a gente: Aux aaaarmes, citoyens. Formez vos bataillons. Marchons… Marchons… Qu´un sang impur, abreuve nos sillons! Quando multidões cantavam em Paris para que os cidadãos pegassem em armas, formassem seus batallhões, marchassem, marchassem… e que de sangue impuro nossa terra se saciasse, a Revolução Francesa, que começou em 1789 e durou 10 anos, incendiava. Tanto que a própria música, A Marselhesa, viraria o hino nacional lá.

As revoluções do Oriente Médio também tiveram a sua Marselhesa: um rap. Um rap que embalou a multidão a pegar em armas, formar batalhões e derrubar governos. A obra é de um tunisiano de 21 anos, o rapper Hamada Ben-Armor – codinome El General (já que todo rapper tem nome de guerra: Mano Brown, Tupac, Jay Z, Notorious B.I.G…).

A música é uma carta aberta contra o regime de Zine El Abidine Ben Ali, ditador da Tunísia havia 23 anos (ele tinha sido reeleito em 2009 com 90% dos “votos”). O nome dela é Rais Le Bled (Presidente, o seu País). E diz em alto e bom árabe, numa torrente verborrágica que lembra o Eminem de Lose Yourself: “Sr. Presidente, seu povo está comendo lixo/Tem gente sem ter onde dormir/Ninguém ouve a voz deles/Venha para a rua para ver/Cadê meu direito de falar?” (o link para o vídeo do rapper está lá no Para Saber Mais).

El General também fala na letra das retaliações das quais temia ser vítima por causa do que escreveu. Tinha razão. No auge das manifestações na Tunísia, o rapaz foi preso e torturado por 3 dias. Mas isso só tornou a música mais famosa. E mesmo com a forte repressão do governo, que deixou 223 pessoas mortas, a população tunisiana seguiu demandando a troca do regime com ocupações em ruas e em praças públicas. Com a pressão popular local e da opinião pública internacional, e sem o apoio do exército para reprimir os manifestantes, Ben Ali não resistiu, caiu e deixou o país rumo ao exílio, na Arábia Saudita.

Esses ventos de mudança chegaram ao Egito à velocidade do som. Do som de El General. E o rap virou a grande trilha sonora da praça Tahrir, no Cairo, o centro nervoso da revolução egípcia. Mais sangue rolou (440 mortos), mas Hosni Mubarack também resistiu pouco. Com dois ditadores derrubados na conta, o rap continuou cruzando fronteiras e ajudou a inflamar mais protestos, principalmente na Argélia e no Bahrein. Nada mal para um músico sem gravadora, que divulga suas músicas no Facebook e no MySpace e mora com os pais em Sfax, uma pequena cidade litorânea ao sul da capital Túnis – a mãe é dona de uma livraria e o pai trabalha em um hospital.

Na verdade, ele era praticamente um desconhecido mesmo entre os rappers da Tunísia (os mais famosos no país eram Lak3y e Psyco M). Mas depois de mirar o seu microfone diretamente no regime corrupto de Ben Ali, essa história mudou. Publicada no Facebook em 7 de novembro, Presidente, o seu País fazia a crítica mais dura até então contra o regime. Em pouco tempo, a música ganhou o país. A resposta do público foi tamanha que o governo tirou do ar as páginas no Facebook e no MySpace, além de mantê-lo preso por 3 dias. Mas a carona da imprensa internacional transformou El General em uma figura central da revolução – ele até quis se apresentar no Egito depois de ter virado celebridade por lá. Mas não pôde porque não tem passaporte.

Alá-lá-yo!
O próprio rap não é exatamente uma novidade naquela parte do mundo. Em árabe ou em seus dialetos, além de inglês e francês, o gênero está se popularizando lentamente no Norte da África e Oriente Médio. Ele começou por lá nos anos 90, principalmente na Palestina e nas duas grandes ex-colônias francesas do mundo árabe: Marrocos e Argélia. Os grupos de rap começaram a ganhar público misturando hip-hop, reggae e batidas tradicionais da África islâmica – como a rai, um estilo da Argélia que pastores beduínos criaram há séculos.

O grupo mais famoso é o DAM. Formado em 1999, o grupo palestino já fez turnês pelos EUA e Europa. As suas letras falam de pobreza e das dificuldades de ser um cidadão de segunda classe na Palestina ocupada. Mas a cena do rap vai além dos grupos que moram na região. Vários rappers e grupos da diáspora árabe ficaram famosos. Nascidos ou com família na região, eles foram criados em outros países, como Austrália, Canadá e Estados Unidos, e conquistaram fama internacional. Nizar Wattad (americano palestino), Shadia Mansour (britânica de origem palestina), Narcicyst (iraquiano que mora no Canadá) e Omar Offendum (sírio que mora nos EUA) são alguns deles. Os dois últimos, inclusive, lançaram uma canção-tributo sobre a revolução no Egito chamada #Jan25 Egypt que virou um sucesso na internet.

Enquanto nos EUA os rappers hoje ganham dinheiro fazendo músicas sobre o dinheiro que ganham, o rap do Oriente Médio tem como inspiração os artistas clássicos do gênero, com suas letras mais focadas em problemas sociais, violência na periferia e mazelas em geral – como Public Enemy, KRS 1 e Tupac Shakur (o favorito de El General).

O potencial da música de protesto nesses lugares, porém, é maior do que jamais foi nos EUA, na Europa, no Brasil ou em qualquer outro lugar. É que o mundo árabe é um mundo de jovens. No Oriente Médio e no norte da África, 60% das pessoas têm menos de 30 anos. Na Tunísia, a parcela da população entre 15 e 25 anos é de 42%. No Egito, 52%. Para ter uma ideia melhor do que isso significa, saiba que no Brasil são só 17%. Só dá molecada por lá.

Por isso mesmo, os governos locais classificaram os movimentos como uma “baderna de jovens” no começo. “São um bando de ineptos sem consciência”, disse um ministro de Mubarack antes do naufrágio do governo. Muammar Kadafi, com a carranca de sempre, deu uma de síndico de prédio caduco: os responsáveis pela guerra civil que tomou conta da Líbia depois da queda dos ditadores da Tunísia e do Egito seriam garotos viciados em “pílulas alucinógenas”. Mas talvez os governantes não tenham sido os únicos que não entenderam bem a situação. O Ocidente também. O Facebook e o Twitter foram tratados como os grandes protagonistas das revoluções. Não há dúvida de que as redes sociais foram importantes na hora de organizar protestos e divulgá-los. Mas uma forma de mídia mais tradicional, a TV, teve um papel tão relevante quanto. Mais especificamente, uma emissora: a Al Jazeera.

Quem sabe faz ao vivo
A rede com sede no Qatar transmitiu os protestos da Tunísia para o resto do mundo árabe – via satélite, longe do controle das ditaduras. E isso, mais do que qualquer outra coisa, foi o estopim para a internacionalização dos protestos. E o hino de Ben-Armor pegou carona. Miséria, truculência das autoridades, corrupção desenfreada e falta de comida, afinal, não eram problemas só da Tunísia – a estimativa é que a taxa de desemprego entre os jovens do norte da África seja de 40%. Ver ao vivo na TV que os tunisianos estavam caminhando, cantando e descendo o porrete para mudar as coisas começou o efeito dominó. “Pela primeira vez, as pessoas acharam que a mudança não estava sendo imposta por algum interesse estrangeiro, mas vinha de dentro. Era parte da cultura árabe e ao mesmo tempo conectada ao globo, tolerante e moderna”, disse Wadah Khanfar, diretor geral da emissora, em uma palestra recente, na Califórnia.

Issandr El Amrani, autor do The arabist.net, um blog influente no mundo árabe, tem uma visão menos otimista: nada ainda garante que a saída de ditadores culmine com o fim do autoritarismo. Natural: vários opressores de hoje foram os revolucionários de ontem. Mas é indiscutível que as revoluções árabes representam uma vitória da organização popular sobre a letargia. E, de quebra, uma vitória da música sobre o silêncio passivo. Aux armes, citoyens.

Trechos

Presidente, o seu país

Sr. Presidente, tem gente morrendo de fome. Pessoas viraram animais. Vejo a polícia vindo, com os cassetetes. A Constituição foi dissolvida em água. Então beba. Ouço acusações inventadas. Os lacaios do governo sabem a verdade. Vejo a serpente que ataca as mulheres. Você aceitaria isso se fosse a sua filha?

Você me disse para falar sem medo, mas sei que vou apanhar por isso.
Até quando a Tunísia vai viver no mundo dos sonhos?