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Elas brigam. Você ganha

O iPad da Amazon, a Amazon do Facebook, o Facebook da Microsoft... E o caso Google Maps. Começou a guerra nuclear entre as gigantes da tecnologia. E que a paz nunca chegue: veja como esse quebra-pau é bom para você

Alexandre Versignassi

Steve Jobs morreu dizendo que começaria uma “guerra termonuclear” contra o Google. O fundador da Apple nunca engoliu o fato de a empresa ter criado o Android. Ele também se sentia traído. É que antes do Android as duas empresas namoravam firme: Eric Schmidt, CEO do Google até 2011, também era diretor da Apple – ele acumulou os dois cargos entre 2006 e 2009. Por essas, o próprio iPhone chegou ao mercado com vários genes do Google: buscador do Google, programa de mapas do Google, iconizinho do Youtube (que é do Google…).

Era praticamente um híbrido, com uma parte do DNA feita em Cupertino, onde fica a sede da Apple, e outra em Mountain View, a casa do Google. Mas uma hora o casamento degringolou.

O Google teve um caso fora do casamento. Um não: vários. Do ponto de vista do marido traído Jobs, a empresa de Mountain View tinha virado uma puladora de cerca serial, uma Dama do Lotação. O Google, afinal, desenvolveu o Android à imagem e semelhança do sistema operacional da Apple e aí… deu pra todo mundo. Sem cobrar nada.

Isso permitiu que qualquer fabricante com algum grau de competência conseguisse fabricar smart-phones tão sexies quanto os da Apple. O esquentado Steve Jobs, então, decidiu lavar a honra à moda antiga. Declarou guerra. Mas perdeu a saúde e a vida antes que pudesse lançar suas primeiras bombas atômicas. Coube a Tim Cook apertar o botão vermelho: o sucessor de Jobs tirou o Google Maps do iPhone. No lugar entrou um aplicativo de mapas da Apple. E a bomba caiu foi no colo dos usuários. Quem tem um iPhone sabe: é melhor parar no posto e perguntar pro frentista do que confiar no programa de mapas da Apple.

Foi um bafafá. A Apple preferiu tornar o iPhone um produto pior do que manter um software da concorrente “dentro de casa”. Bom, mas rusgas à parte, a decisão segue uma tendência que já se espalhou por todas as gigantes da tecnologia: desenvolver por conta própria todo um “ecossistema” particular, às vezes com o pacote completo: hardware, software de mapas, rede social…

É o caso do Google. Eles já têm um tablet feito em casa (o Nexus) e uma rede social (o Google +). E agora acabaram de lançar uma loja de livros eletrônicos, para concorrer com a Amazon – e com a Apple, que também tem a dela. A Microsoft também começou a atirar para todos os lados. O disparo mais recente foi criar um concorrente para o Facebook: o Socl (pronuncia-se “sôuxial”, segundo eles). O Facebook também não está parado. Por um lado concorre com o Google, já que faz dinheiro usando a mesma arma do buscador: “anúncios dirigidos”. Usa inteligência artificial para mandar as “propagandas certas para as pessoas certas” – tipo a de uma loja de vestidos de noiva para uma usuária que mudou de status para “noiva” ou qualquer coisa nessa linha. Em outro front de batalha, o Face dá seus primeiros passos para virar uma loja virtual, nos moldes da Amazon. E a maior livraria online é outro nas trincheiras: já entrou com tudo no mercado de tablets, com o Kindle Fire, e, segundo rumores da indústria, está desenvolvendo um smartphone. Ou seja: cada companhia tenta fazer o que a outra faz de melhor. A “guerra termonuclear” está generalizada.

Trata-se da maior concorrência entre gigantes na história do capitalismo – ou pelo menos desde as Grandes Navegações, quando os maiores países da Europa resolveram concorrer no mesmo mercado: o comércio de especiarias com o Oriente. As Grandes Navegações geraram toneladas de sangue derramado. Inglaterra, Espanha, Holanda e cia. passaram séculos em guerra buscando fatias maiores no mercado de pimenta, cravo, canela e noz moscada. Entre um quebra-pau e outro, porém, eles acabaram criando o comércio global. Uma guerra bem frutífera…

Hoje não é diferente. Por um lado, a guerra digital “derrama sangue” das empresas: o Google + virou um constrangimento para o Google, já que não pegou. O Facebook toma pau de todos os lados pelo excesso de anúncios. E o app de mapas da Apple, com seus mapas tortos e GPS de cachorro em dia de mudança, foi tão motivo de piada em 2012 quanto aquela restauração da velhinha no quadro de Jesus – algo inimaginável para uma marca que até outro dia era objeto de culto religioso.

Mas tem outro lado. E esse é o que interessa mesmo para nós, os usuários. Essa concorrência sem igual está fomentando uma evolução também sem igual – na tecnologia e na redução dos preços. O Kindle Fire, por exemplo, chegou custando três vezes menos que o iPad. E ajudou a pressionar por cortes de preço na concorrente – hoje dá para comprar um iPad 2 nos EUA pelo mesmo preço de um Fire: US$ 160. Bom negócio, já que mesmo essa versão defasada do tablet (que já está na quarta geração) continua sendo um produto de primeira linha. O Google Maps, depois de ser barrado do iPhone, reagiu e voltou em dezembro numa versão melhorada – com mapas mais bem acabados e GPS “de carro” (com o caminho em perspectiva e uma mocinha narrando).

Bom, se você comprar um iPhone hoje, ele vai vir sem o Google Maps. Agora você precisa baixar na Appstore. Mas é por isso mesmo que ele voltou melhor – precisa chamar mais a atenção para ter usuários. Na prática, a briga entre Apple e Google aumentou a qualidade do programa. Tá aí outra guerra bacana… Que a paz não chegue nunca.