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Galhos Frescos

Um conto inédito de Santiago Nazarian.

“Vá para casa”, o dono do bar lhe disse com responsabilidade depois que se esgotaram todas as notas, que o velho contou todas as moedas, que ainda conseguiu pendurar metade de uma dose de cachaça na conta do boteco. Só havia bebido demais depois que não havia mais com o que pagar. E com meia dose ainda no copo começou a acreditar que poderia mesmo ser o suficiente, por aquela noite. Ele poderia ir embora dormir.

Lembrou-se de pegar o chapéu e botá-lo na cabeça. Esforçou-se para caminhar firme e não conseguiu. Cambaleou porta afora ouvindo risadas por todos lá estarem no mesmo estado, como se todos lá não estivessem no mesmo estado. Risadas embriagadas. Significava que os outros ainda se encontravam num estado mais positivo; o velho já havia passado da dose comemorativa, mergulhava na depressão etílica, mas não faltava muito para se anestesiar de vez, pela noite, e deixar de se importar. Talvez a dose necessária já estivesse nele mesmo, só questão de tempo para ser absorvida pelo organismo, circular pelo sangue, chegar ao cérebro.

Caminhando pelo mangue, o passo era mais incerto. Ele conhecia aquelas trilhas como as linhas da mão: mal. Afinal as linhas da mão se expandiam e se contraíam, se apagavam e se multiplicavam em cicatrizes, como o mangue, que provavelmente se retraía ¿ dava espaço a novos empreendimentos imobiliários e se concentrava onde o velho pisava, se restringia. Se ele conhecia a trilha de volta para casa, o mangue o acompanhava e o distraía. Se ele não ia muito longe, o mangue era capaz de estar onde quer que ele pisasse.

E ele pisou em falso. Afundando um pé de sandália na lama, escorregando de seu próprio pé no mangue, buscando apoio num galho torto, enfiou uma mão no lodo, perdeu o equilíbrio, caiu para trás; sentiu algo mais sólido do que tudo bater-lhe a têmpora, algo mais sólido do que sua vida. Ficou caído de costas esperando que o mundo parasse de girar.

Fechou os olhos por um momento. Sentiu a natureza abraçá-lo. O frio da noite se convertia num calor úmido. Ele poderia fazer parte. Desejou se deixar ser preenchido pelo silêncio, pelo vazio, mas havia algo mais…

Lá ao longe ouvia: os cânticos evangélicos. Galhos secos de uma árvore qualquer penetravam o mangue de galhos frescos. Provavelmente a voz da irmã fazia parte do coro, no culto. Provavelmente a voz da mãe, ainda que estivesse morta… Se ainda estivesse morta, faria. O velho recebia as vozes como o chamado para fazê-lo levantar. “Levanta-te e anda.”

No silêncio do mangue, o bar silenciava, mas a igreja permanecia, universal. “Muito bem, vamos embora daqui.”

O velho se esforçou. O mangue tomava seus pés, a lama já atingia seu peito; ele ainda podia mover a cabeça e olhou ao redor, para constatar que estava preso. Por todos os lados, o mangue borbulhava, a vida efervescia, caranguejos estalavam as pinças num ritmo evangélico…

Poderia gritar, que ninguém ouviria. Os fiéis cantavam alto demais, iluminados demais, em luzes frias, para perceber o que acontecia ali. Poderia tentar escutar o que diziam; de repente seria de alguma ajuda. Se ele ficasse em silêncio, se ele prendesse a respiração, se não tivesse vontades, Deus poderia carregá-lo.

Então o velho o viu, com pés leves, pernas longas, passos largos, como Jesus caminhando como um lagarto sobre as águas. O menino. Ocre como a lama. Vasta cabeleira desgrenhada. Com um balde em mãos. Saltava catando os caranguejos. E virou-se para o velho exatamente quando ele balbuciava: “Ei, menino…”

O menino saltou até ele com uma curiosidade antilópica. Abaixou-se de cócoras para ouvi-lo.

“Er, oi… Acho que estou preso aqui.”

Com um graveto em mãos, o menino revirou o lodo ao redor da cabeça do velho.

“Acho que preciso de ajuda”, o velho elaborou, ao mesmo tempo que aproveitava o agasalho quente e úmido do mangue para aliviar a bexiga.

“O que aconteceu com o senhor?”, perguntou o menino.

O velho sentiu-se um pouco envergonhado de o menino usar o tratamento cerimonioso naquela situação, então sentiu um beliscão e percebeu que um caranguejo insistia em sua orelha. O menino pescou o caranguejo e o examinou a caminho de jogar no balde: “pequeno”, jogou fora.

 (Wagner Willian/Superinteressante)

O velho o examinava: delgado, insubstancial, seminu, com uma bermuda que tomava a mesma cor da lama, a mesma cor do menino.

O que poderia fazer por ele? Em braços finos, galhos secos, esfacelaria ao simples toque. Não poderia puxá-lo para fora, não poderia nem afundá-lo mais. “Pode buscar ajuda para mim?”

O menino continuou revirando a lama, e nela encontrou uma moeda. “Claro, o que o senhor quer, cerveja, cachaça?”

O velho pensou um pouco. “Hum, acho que só uma mão, uma força…”

“Da sua casa ou do bar?”

“O quê…? Não, ouça, esse hino é da congregação logo atrás; minha irmã deve estar lá… Bem, deve haver muita gente lá. Avise que estou preso aqui no mangue, que alguém deve vir me ajudar.”

O menino sacudiu a cabeça. “Ah, sinto muito, não posso ir lá… ainda mais nesse estado”, abriu os braços indicando a lama que o cobria.

“Entendo…”, disse o velho.

E de fato ele entendia. Quantas vezes deixou de ir ao culto por se sentir assim?

“O senhor é um homem religioso?”

“Não… não particularmente… Acho que da forma inevitável ou obrigatória daqui.”

“Então por que não relaxa e pega mais uma cerveja?”

“Hum… Cachaça, cachaça, pode ser…?”

O menino assentiu e saltou de pé, afastando-se com suas largas passadas. O velho permaneceu.

Aproveitou para descansar, fechar os olhos, pensar em outros tempos, tantos tempos em que ele mesmo correra por aquele mangue, com pés ligeiros, a caminho da escola, fugindo da escola, voltando para casa, quantas vezes passara por lá sem escorregar. Agora já estava na idade em que um passo em falso poderia ser fatal.

Abrindo os olhos, o menino estava de volta. Não trazia um copo, uma latinha, trazia uma garrafa. Bom menino. O velho tentou esticar-se para pegá-la e percebeu que seus braços também já estavam completamente imobilizados.

“Espere, aqui; deixe que eu ajudo o senhor”, o menino levou a garrafa até os lábios do velho e o ajudou a beber. Parte escorreu pelo queixo, mas o velho conseguiu um bom gole; assentiu agradecendo enquanto o menino tirava seu chapéu e o colocava sobre a própria cabeça, a cabeleira, o chapéu não assentava.

“Você me lembra alguém… é filho de quem?”, o velho perguntou, observando o rosto do menino com mais cuidado. O menino apenas deu de ombros, sentado à sua frente.

O velho seguiu aqueles traços, os olhos amendoados, com uma iminência que chegava a ser íntima. Ele tinha certeza. Conhecia aqueles traços desde a infância, ou conhecera aqueles traços só na infância. Ficaram por lá, esquecidos, como o melhor amigo da pré-escola, o filho do padeiro do bairro, o vizinho da casa de trás, o apresentador mirim de um programa dominical de que ele mal conseguia assistir à abertura, tendo de desligar a TV para ir à missa. Não, o velho se lembrou: “Acho que você me lembra de mim mesmo…”

O menino torceu a boca para um lado e a sobrancelha para outro. “Hum? Não, não, acho que não pareço nada com o senhor…”

“Sim, parece sim. Quando eu era mais novo, é claro, quando tinha a sua idade, nossa, éramos bem parecidos, ou eu era bem parecido. Você não existia.”

O menino voltou as atenções ao balde de caranguejos, descrente ou desinteressado. Impressionante. Era ele sim, esculpido e encarnado, cuspido e escarrado, coberto de lama, bem mais novo. Só que agora só o velho seria capaz de lembrar. Só o velho seria capaz de resgatar naquele menino algo que ele mesmo fora.

Pensando nisso, o velho começou novamente a bater pestanas…

“O senhor está com sono?”

Na menção de responder, o velho deixou escapar um bocejo.

“Quer que eu conte uma história?”

“É…”, o velho suspirou, ainda no bocejo prolongado.

“Então… Um Empresário, um Bispo e um Carrasco chegaram ao Céu…”

“Ahhh”, o velho diz, já fechando os olhos, “não sei se um carrasco chegaria ao Céu…”

“Bem, se o Empresário e o Bispo chegarem antes…”

“Hum, tá. Continue…”

“Hahaha, é só isso. Era uma piada…”

“Hum…”, o velho diz, abandonando de vez os sentidos.

E no sonho ele é o menino novamente, de pés descalços, sentado na lama, sem peso nem preocupações para fazê-lo afundar. Ele é o menino observando o velho afundando na lama, sem a menor consciência do que irá encontrar. Quando abrir os olhos novamente, poderia estar no Céu, se tivesse feito tudo certo, mas se tivesse feito tudo certo, jamais morreria. Quando abrir os olhos novamente, poderia estar no Inferno. Mas, oh, jamais imaginaria que abriria os olhos para encontrar um solo salgado, lodoso, rico em nutrientes e matéria orgânica em decomposição que ele mesmo ajudaria a formar. Um solo rico em decomposição que o impediria de inspirar qualquer coisa mais. Um fim tão previsível, tão natural, ele saberia, se não tivesse perdido o caminho da escola anos atrás.

 

Santiago Nazarian é escritor, autor de diversas obras, entre elas Mastigando Humanos e Biofobia; seu projeto literário mescla cultura pop, horror e existencialismo, no que ele chama de “existencialismo bizarro”.