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Mangue Beat: Um passeio pelo mundo livre

Texto Luciano Marsiglia

Depois de descer até o “Sul Maravilha”, Chico Science & Nação Zumbi sonharam com travessias mais audaciosas. Os caranguejos com cérebro vislumbraram exportar o mangue beat de uma cosmopolita Recife para os ouvidos espantados do Velho Mundo

Pouco mais de um ano depois de lançar Da Lama ao Caos, Chico Science & Nação Zumbi chegavam a Nova York para tocar no Central Park Summer Festival. Era julho de 1995 e iniciava-se uma turnê que passaria pelo JVC Jazz Festival, pela lendária CBGB’s e voaria até a Europa, culminando na apresentação no Festival de Montreux, na Suíça. A travessia internacional dos mangueboys justificava a aptidão para o tráfego de referências sonoras, fossem nacionais ou importadas, de que não se cansavam de falar. A face estrangeira da carreira dos pernambucanos prometia ser prodigiosa, ainda mais se considerando que tudo aconteceu entre meados de 1994 e fevereiro de 1997 – pouco mais de dois anos que projetaram o baque do maracatu pernambucano até mesmo sobre terras holandesas, numa deliciosa inversão de invasão. A empreitada também se diferenciou de outros giros de artistas pelo exterior, marcados por cumplicidade com a platéia conterrânea. “Frustrávamos os brasileiros que viviam na Europa”, afirma Paulo André, empresário do grupo na época e organizador do festival Abril Pro Rock. “Eles não conheciam o som da banda e não encontravam as características que procuravam, aquele sambinha…”

A receptividade entusiasmada do estrangeiro, quer de gente como David Byrne, quer de jornalistas da Rolling Stone, fez Chico Science se esforçar mais para participar de eventos internacionais, desde que longe das tradicionais “noites brasileiras”. Ao ser contratado pela Sony Music, ele já havia assumido a responsabilidade de corresponder à expectativa de uma companhia multinacional. Agora, sua Nação Zumbi pretendia entrar no mercado exterior pela porta da frente, como um agrupamento pop sem bandeira – as letras em inglês de Afrociberdelia (1996) confirmariam a intenção. “Quando ouvimos pela primeira vez Chico Science, tornou-se claro o alcance internacional do som e do conceito”, afirma o jornalista Renato L., um dos ideólogos do mangue beat.

Organizando as idéias

Assim que as cabeças do movimento se prepararam para fincar as parabólicas na lama, ainda no início de 1991, a espontaneidade teve de ceder espaço. A organização (para desorganizar, como Chico gostava de dizer) se fazia necessária para colocar no papel as idéias que fermentavam no calor do Recife. O Sudeste do país, mais especificamente São Paulo e Rio de Janeiro, era o alvo dos pernambucanos em princípio, por razões óbvias. Ali estava o mercado para a música pop – a chamada grande imprensa e as gravadoras multinacionais.

Antes, porém, era preciso mudar a própria capital pernambucana. Chico Science, depois de unir uma batida de rap com o som dos tambores do maracatu, jogou a bola para o alto, acima das cervejas tomadas antes do almoço que ocupavam a mesa no bar Cantinho das Graças. Presentes, Fred Zero Quatro e Renato L. mataram a idéia no peito, já quente pelo tradicional caldinho de feijão da casa. “Talvez pelo período em que foi colonizado pelos holandeses, o Recife sempre foi muito aberto à cultura estrangeira”, pondera Renato, que foi alçado ao posto de “ministro da informação do movimento”.

Se Chico tinha conexões com o hip hop e o funk, Fred Zero Quatro vinha da experiência punk no grupo Trapaça e nutria uma admiração febril por Jorge Ben desde a infância. O resultado formal de reunião tão informal foi o manifesto “Caranguejos com Cérebro”, na verdade um release escrito por Fred para explicar aos jornalistas quem eram aqueles malungos que desembarcariam no Sudeste. Dado à estratégia do trio, o texto incluía uma citação de Malcolm McLaren, o “criador” do Sex Pistols. Poderia bem ser o capítulo “Como Fabricar um Movimento”, do famigerado filme The Great Rock’n’Roll Swindle, sobre os Pistols, se a intenção não fosse tão nobre. Mas a única polêmica (não intencional) envolvendo o mangue beat foi o confronto com Ariano Suassuna, cujo movimento Armorial, lançado em outubro de 1970, pretendia “realizar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares”. Apesar de ambos valorizarem a cultura local, o modo de operar divergia completamente. Suassuna mantinha uma postura intransigente em relação à assimilação de elementos da cultura norte-americana, qualificava a música da Nação Zumbi de “quarta categoria” e só falaria com os mangueboys se Chico tirasse o “Science” do nome.

Quando chegaram a São Paulo, em 1992, Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, de Fred Zero Quatro, tinham todo o discurso na ponta da língua, som próprio e experiência de palco. Apesar de o Abril Pro Rock ainda não ter acontecido (ele teria início somente em abril de 1993), bares como o Soparia e centros culturais como o Arte Viva abrigavam as bandas, que chegaram ao Sudeste de chapéu de palha na cabeça e teclados de dígitos colados ao peito, prontos para o choque. Aliados, o intelectual Fred Zero Quatro e o intuitivo Chico Science faziam do mangue beat a proposta mais articulada do rock brasileiro desde o tropicalismo. Sob o enorme guarda-chuva chamado MPopB (que já havia revelado Skank e Raimundos), o mercado se interessou imediatamente pelo movimento. A Sony contratou a Nação Zumbi, enquanto o Banguela, selo “dos Titãs” ligado à Warner e comandado por Carlos Eduardo Miranda, ficou com o Mundo Livre. Contudo, mesmo após os discos Da Lama ao Caos e Samba Esquema Noise serem lançados (em 1994) e imensamente festejados pela imprensa, as idéias dos mangueboys ainda pareciam codificadas para os ouvintes do resto do país. “O Brasil em princípio, não entendeu”, conta Paulo André. “Tocamos no Faustão, no Jô Soares, mas a resposta não foi imediata.” Somente com Afrociberdelia, de dois anos depois, e a aprovação internacional, é que os grupos conseguiriam reconhecimento na própria terra.

Ecossistema

Confirmada a qualidade dos principais divulgadores do mangue beat, Recife tornou-se porto para fãs de música pop e jornalistas, que engrossavam a multidão que ia aos festivais Abril Pro Rock e Rec Beat (este surgido em 1995). Um passeio por Recife e Olinda renderia uma rica experiência musical. Começando pelo Alto José do Pinho, podia-se encontrar o Devotos do Ódio, grupo de caprichadas fitas demo e instrumentos no estilo faça-você-mesmo, que defendia a fúria e a contundência do hardcore. Seu primeiro álbum oficial, Agora Tá Valendo, flagrava em 1997 o esforço da gravadora BMG em estender seu braço aos manguezais. Na mesma comunidade, as rimas do Faces do Subúrbio promoviam o encontro entre a embolada e o rap. No álbum homônimo, de 1997 e relançado pelo selo MZA (com distribuição da Universal) um ano depois, o grupo dividia o microfone com a dupla de emboladores Caju & Castanha na faixa “Críticas e Críticas”. Mais à frente, seria possível ouvir o psicodelismo pauleira de Jorge Cabeleira e o Dia Que Seremos Todos Inúteis, banda cuja filiação com Alceu Valença e Zé Ramalho atualizava o rock nordestino e se tornou uma forte aposta da Sony Music depois de Chico Science & Nação Zumbi.

Havia ainda a produção de selos locais. O Mangroove revelou o setentista Cascabulho com o coco movido a guitarras do CD Fome Dá Dor De Cabeça, de 1998. O selo Rec Beat, anexo ao festival, deu guarida à farra acústica do Mestre Ambrósio, que foi parar na Sony Music com Fuá na Casa de Cabral (de 1998, dois anos depois da estréia independente, homônima). Em comum, essas (e outras) agremiações musicais ganharam trânsito livre depois de Chico e Zero Quatro refinarem o discurso apresentado nos primeiros discos. E asseguravam uma diversidade sonora tão rica quanto o ecossistema dos manguezais, o maior trunfo do mangue beat.

Um passo à frente

A velocidade da renovação musical em Pernambuco deve ter surpreendido até o mais otimista dos entusiastas do mangue beat. A chegada do novo século amplificou a riqueza musical de maracatus, xotes, repentes, cirandas. Expressões relevantes do novo milênio, como Sheik Tosado, DJ Dolores, Bonsucesso Samba Clube, Cordel do Fogo Encantado e Mombojó, tinham no retrovisor as profecias de Chico Science, Fred Zero Quatro e Renato L. Algumas são formadas por garotos de pouco mais de 20 anos, ou nem isso, elaborando experimentos sensoriais maduros, que levariam algumas primaveras para acontecer em qualquer outro lugar.

Os shows da Nação Zumbi pela Europa e pelos Estados Unidos serviram de farol para os novos nomes da cena pernambucana. Ao abandonar a constante e ingrata manutenção dos canais com a mídia do Sudeste, os novos grupos dirigiram sua música para o mercado internacional. “Com a internet e a economia globalizada, certos artistas têm a carreira centrada no exterior”, nota Renato L. “Esteticamente, a dependência do eixo Rio–São Paulo é nenhuma. Economicamente é menos acentuada do que em outros tempos.”

O mangue não apresentou nenhum sinal de lentidão em seu trânsito de idéias, e lá se vai uma década. Talvez por isso, no dia 2 de fevereiro de 1997, Ariano Suassuna não tenha contido as lágrimas. Em meio aos 10 mil presentes no velório de Chico Science, ele também lamentava o mangueboy ter chocado seu carro contra um poste. Com maior sorte nas curvas, Science iria muito mais longe. “Um passo à frente/ e você não está mais no mesmo lugar”, já havia profetizado.

O guitarrista: Lúcio Maia

Não faltaram criatividade e disposição entre os mangueboys para roubar a cena como guitarrista mais interessante do mangue beat. Neilton (Devotos do Ódio), se não tinha técnica exuberante, chamava atenção por construir seus próprios instrumentos a partir de sucata. Fred Zero Quatro (Mundo Livre S/A) alternava uma tradicional Fender Stratocaster com um cavaquinho envenenado. Mas foi mesmo Lúcio Maia quem se destacou entre seus pares. Utilizando modelos SG, os preferidos de gente como Tony Iommi (Black Sabbath) e Angus Young (AC/DC), e inspiração pura, conseguiu chegar a uma sonoridade particular aliando células rítmicas de funk e ataques pesados de metal – ele nunca escondeu a admiração por Max Cavalera, com quem gravou no grupo Soulfly.

Maia já era parceiro de Chico Science desde os tempos do Loustal. Quando o grupo se fundiu ao Lamento Negro, gerando a Nação Zumbi, adaptou-se sem problemas ao som grave dos tambores de maracatu. O suingue de “A Praieira”, o riff cheio de “Da Lama ao Caos” e o psicodelismo hendrixiano de “Manguetown” são tão simbólicos do som do grupo quanto as letras de Science. No disco mais recente da Nação Zumbi, ele mostrou que ainda tem grandes idéias para aumentar seu legado.

Tesouros perdidos do mangue beat

Devotos do Ódio

Vida de Ferreiro (independente, 1995)

Fita demo embalada em caprichada caixinha de papelão mostrava que o faça-você- mesmo não precisava ser mal feito.

Eddie

Sonic Mambo (Roadrunner, 1998)

Este poderia ter sido o início de uma segunda onda do indie brasileiro. Mas o Sudeste não ouviu/aprovou. Boas letras em português, guitarras ruidosas e um quase-hit, “Buraco de Bala”.

Selma do Coco

Minha História (Paradoxx, 1998)

A aparição no Abril Pro Rock, em 1996, colocou a matreira “A Rolinha”, incluída nesse álbum, na boca do povo.

Sheik Tosado

Som de Caráter Urbano e de Salão (Trama, 2000)

Antes de se lançar como artista-solo de bossa moderna, China sintetizou urgência e baques soltos. Em alto e bom som, bradava que “o hardcore brasileiro é o frevo”.

DJ Dolores & Orchestra Santa Massa

Contraditório? (Candeeiro/ Trama, 2002)

Rabecas e carrapetas, armorial e mangue beat operados por Helder Aragão, o DJ Dolores. Parcerias com cobras de Pernambuco: Maciel Salustiano, Fábio Trummer (Eddie), Lúcio Maia e Pupilo (Nação Zumbi).

Jorge Cabeleira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis

Alugam-se Asas para o Carnaval (Manguenitude, 2001)

A maior aposta da Sony após Chico Science não vingou, e o som psicodélico-roqueiro-nordestino se recuperou da frustração somente com esse lançamento independente, que poucos ouviram.