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Máquinas do crime

Para psicopatas que viram criminosos, as únicas leis são as suas próprias. A crueldade e o poder sobre as pessoas lhes dão prazer. E não há castigo que os impeça de agir de novo

Por Redação Superinteressante Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 fev 2011, 22h00 • Atualizado em 31 out 2016, 18h53
  • Texto Eduardo Szklarz

    Nem todos os criminosos são psicopatas, e nem todos os psicopatas são criminosos. No entanto, a prevalência deles dentro da população carcerária é enorme: na cadeia eles são 20% – e esses 20% são responsáveis por mais de 50% dos delitos graves cometidos por presidiários. Sabe aqueles crimes com requintes de crueldade que chocam todo mundo na televisão? Provavelmente existe um psicopata por trás deles.

    Afinal, por que psicopatas escolhem o crime? Eis a primeira pista: eles pensam e sentem de um jeito diferente do das outras pessoas – e por isso agem de forma distinta. “O psicopata tem uma falha de consciência moral. A ele não interess­a o que diz a lei. Ele a entende, mas tem suas próprias leis. Faz o que quer sem se importar com as consequên­cias”, diz o psiquiatra argentino Luis Alberto Kvitko, professor de medicina legal da Universidade de Buenos Aires. “Isso não quer dizer que seja inconsciente. Ao contrário: tem plena consciência de seus atos.”

    Como o psicopata só respeita a própria lei, ele tem uma liberdade interior mais ampla que a dos demais. Enquanto a maioria das pessoas se sente inibida na hora de cometer delitos, o psicopata avança sem freio.

    Para ele, violência e ameaça são boas ferramentas para quando se sentir desafiado ou frustrado. E ele quase não liga para a dor sentida pelas vítimas. Usa a violência para satisfazer uma necessidade imediata, como o sexo. E, depois do ato, costuma sentir indiferença, prazer ou poder em vez de remorso.

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    Isso porque ele enxerga as pessoas ao seu redor como objetos para satisfazer seus propósitos. Essa lógica impede que ele se coloque no lugar dos outros ou que sinta remorso pelos danos que lhes causa. Quem vai sentir remorso por fazer mal a um objeto?

    Fórmula para o mal

    Falha moral, ausência de culpa, necessidade de poder e liberdade interior sem limite. Taí o perfil ideal para um delinquente. O psicopata naturalmente desliza rumo ao papel de criminoso. Sua prontidão para tirar vantagem de qualquer situação, combinada com sua falta de controle interno, cria uma fórmula potente para o crime.

    Essa fórmula faz do psicopata um criminoso diferente. Muitos criminosos são produto do ciclo da violência. Foram maltratados na infância e viraram agressores, por exemplo. Outros roubam para bancar o vício das drogas. Ou porque são loucos. E há também os que fazem da bandidagem uma profissão – o típico vagabundo, que rouba porque é mais fácil do que trabalhar.

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    Mas o psicopata não. Ele comete o crime porque acha mais estimulante exercer o poder sobre as pessoas por meio do abuso que do mérito. Ele não é moldado somente pelo ambiente social, mas, sim, pela incapacidade de se prender a normas sociais.

    “O criminoso comum tem um trans­torno de caráter, mas não chega à característica de crueldade do criminoso psicopata”, diz Hilda Morana, presidente do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileira de Psiquiatria. Ela cita o exemplo do bandido comum que sequestra o filho do empresário, mantém-no em cativeiro e negocia com a família. Para descolar a grana fácil, ele ameaça cortar um pedaço da orelha do garoto – mas não chega a tanto. Já o psicopata corta, por uma crueldade fortuita. “O psicopata comete 4 vezes mais crimes violentos que o criminoso comum. Faz maldades que não precisaria para conseguir dinheiro fácil”, diz Morana.

    Portanto, o crime de um psicopata é diferente de um crime passional. Esqueça o marido que agride a mulher após um ataque de ciúme ou uma tensão emocional. “O psicopata não reage a estímulos que despertam descarga agressiva. Não precisa deles para agir”, diz Kvitko. Sim, o psicopata consegue manejar bem o estresse. Inclusive não sofre de estresse pós-traumático.

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    Em geral, esse tipo de criminoso acaba preso. Com sua capacidade de simular arrependimento, tem chances 2,5 vezes maiores de conseguir liberdade condicional, segundo estudo canadense. Mas o tempo na prisão não muda seu comportamento quando retorna à sociedade. Sua personalidade o compele a novos crimes: sua taxa de reincidência chega a 70%, e apenas a metade deles reduz a atividade criminosa após os 40 anos de idade.

    “A psicopatia é um dos prognósticos mais poderosos de reincidência de crimes”, diz o psicólogo forense Stephen Porter, que realiza pesquisas com psicopatas em prisões do Canadá. Segundo ele, o criminoso psicopata comete mais crimes, com uma maior variedade e com mais violência que os criminosos comuns.

    E é consenso que não adianta tentar tratar um psicopata adulto. “Quando é forçado a passar por terapia, em geral ele fica pior, pois aprende como usar a psicologia para manipular ainda mais as pessoas”, diz a enfermeira psiquiátrica americana Pamela Kulbarsh, de uma equipe de emergência psiquiátrica em San Diego, EUA. “A terapia tradicional pode fazer com que o psicopata cometa mais crimes e com mais maldade.”

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