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Menino ou menina? Meus filhos dirão

Um casal de Portland, EUA, escolheu criar seus filhos sem nenhuma distinção de gênero. Assim, espera que estereótipos não limitem seu desenvolvimento.

Arwyn Daemyir*

“Azul para meninos, rosa para meninas. Carrinhos pra eles, bonecas pra elas.” É assim que a maioria educa seus filhos. Lá em casa é diferente. A ideia da criação sem diferenciação de gênero é oferecer às crianças um arco-íris de opções e permitir que usem, vistam e brinquem com o que quiserem – não com o que “deveriam” querer.

O problema de educar dando ênfase nas divisões de gêneros é que não sabemos realmente qual o gênero de nossos filhos até que eles mesmos nos digam. Cerca de 1% das crianças são transgêneros ou não se encaixam nas classificações tradicionais de menino ou menina. Ser criado “como menina” é prejudicial e doloroso para meninas que se veem como meninos, e vice-versa.

A educação tradicional também limita o que as crianças podem fazer e se tornar. Isso vem das expectativas da sociedade sobre o que significa ser “menino” ou “menina”. Nos EUA, por exemplo, espera-se que meninas sejam atraentes, mas também estudiosas (embora ruins em ciências). Elas devem gostar de bonecas, de se vestir e de decorar a casa. Já garotos escutam desde cedo que são barulhentos e violentos, e que têm de ser poderosos e bem-sucedidos no futuro.

Nenhum desses estereótipos é completamente ruim nem falso: muitas garotas de fato gostam se arrumar, assim como muitos garotos adoram praticar esportes – e não há nada de errado com eles. No entanto, também existem meninas que gostam de esportes e meninos que gostam de se vestir – e não há nada de errado com eles.

Como esse tipo de criação funciona na prática? Oferecendo escolhas. Tenho dois filhos, que no meu blog são chamados de Boychick [“Garotogarota”], de 5 anos, e Vulva Baby [“Bebê-Vagina”], que tem quase 1 ano. Boychick cresceu com uma variedade de roupas e brinquedos. Nunca cortamos seu cabelo, embora lhe déssemos essa opção. Por volta dos 3 anos e meio, começou a dizer que era um garoto. Suas cores favoritas são o rosa e o vermelho brilhante. Com seu cabelo longo e seus sapatos roxos, ele é muitas vezes chamado de menina na rua. Mas ele não está nada confuso sobre seu gênero: sabe que é um garoto, não importa a cor que vista nem seus brinquedos preferidos.

Já Vulva Baby ainda não tem senso de gênero. Pelo menos nenhum que ela ainda possa dizer. Como aconteceu com Boychick, achamos que é menina, mas não saberemos até que ela nos diga.

Eu e meu parceiro temos a sorte de viver em Portland, onde esse estilo de educação não é totalmente estranho. Mas é claro que me preocupo: à medida que meus filhos crescem, há mais oportunidades para que pessoas sejam rudes com eles. Se quiser, Boychick é livre para cortar o cabelo e usar roupas diferentes. Eu espero, contudo, que ele seja verdadeiro consigo mesmo diante da adversidade.

Criar assim não é fazer lavagem cerebral nos filhos nem tentar eliminar os gêneros. É dar às crianças a chance de pensar sobre o que o gênero significa para elas. E apoiá-las a se tornar o que querem ser.

*Arwyn Daemyir é autora do blog Raising My Boychick.