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O ano em que eu morri

Aos 38 anos, a bióloga Rikke Schmidt teve uma infecção grave. Foi parar na UTI, entrou em coma, e acordou presa dentro do próprio corpo. Os médicos queriam desligar os aparelhos. Mas, contrariando todos os prognósticos, ela se recuperou. E conta como foi.

 (Estevan Silveira/Superinteressante)

Minha morte aconteceu de repente. Nós recebemos convidados para a festa de Ano-Novo, e passamos a noite conversando, cantando, ouvindo música e comendo. Brindamos o ano de 2013 em volta da TV, vendo a contagem regressiva para a meia-noite. Eu amei aquele momento mágico, entre o último segundo do ano velho e o primeiro do novo: a pausa microscópica entre o passado e o futuro, as promessas e expectativas. Mais tarde fui deitar, cheia de celebração e alegria.

Na manhã seguinte, o clima ainda era festivo. O dia estava bonito. Era inverno, com um pouco de neve. Fomos dar uma volta pelo rio, perto de casa. Nós morávamos numa grande cidade dinamarquesa, um lugar legal. Tínhamos comprado a casa alguns anos antes, logo antes do nascimento do nosso primeiro filho, Daniel. Queríamos mais espaço e um quintal.

Enquanto estávamos andando na margem do rio, eu senti muito frio. Meus braços e pernas ficaram dormentes e pesados. Fui ficando para trás e tentei alcançar minha família, mas não consegui. Tentei chamar Peter, meu marido, mas senti que não tinha fôlego. Mesmo assim, não dei importância. Todo mundo fica meio cansado no dia seguinte ao Réveillon.

Voltamos para casa, e continuei sentindo frio. Fui direto tomar um banho quente de banheira. Mas não conseguia me aquecer. Saí do banho tremendo. Deitei na cama e chamei o Peter.

“Pode pegar uns cobertores, por favor?”

“Tudo bem com você?”

Eu não respondi. Peter fez uma cara preocupada enquanto me cobria. “Continuo morrendo de frio”, eu disse. Meus dentes batiam, e meus braços e pernas tremiam. Pedi que Peter apagasse a luz. Minha temperatura continuou a cair conforme as horas, que pareciam dias, iam passando. Mas aí a febre bateu. Fiquei deitada ali, tremendo de frio e de calor. Meus pensamentos começaram a ficar confusos. Será que amanhã era dia de escola? Eu queria levantar e fazer o lanche das crianças. Comecei a vomitar muito.

“Rikke, eu vou chamar o médico”, Peter disse. O médico veio até nossa casa. “É a gripe. Todo mundo está pegando. Você vai ficar bem”, ele me disse. “Vou dar uma receita de Tamiflu” [antiviral usado em casos graves de gripe].

O Tamiflu não fez nenhuma diferença. Pela manhã, meu vômito ficou escuro e viscoso.

Eu não conseguia mexer a cabeça até o balde. Alguns minutos depois, duas ambulâncias chegaram. Paramédicos corriam pela casa, gritando, empurrando móveis, estavam aqui para salvar uma vida. Eu não os senti transportando meu corpo. Eu estava indo embora. Meu coração desacelerou. Até que ele parou.

Eu estava clinicamente morta.

Não vi nada. Nada de luz no fim do túnel, anjos, harpas. Nada de Paraíso, nem Inferno. Nada. Estar morto é exatamente isso. Você some. É simples e assustador assim.

***

Me colocaram numa cama da UTI, isolada de todos os outros pacientes. Meus pais, minha irmã, Peter e os pais dele estavam lá. Um médico foi falar com eles. Minha irmã, Peter me contou depois, foi a primeira a falar. “Eu só quero saber uma coisa. Ela ainda vai estar aqui amanhã?” “Nós não sabemos”, respondeu o médico.

Meu corpo estava em choque séptico, e tinha começado a se autodestruir. Vários coágulos de sangue estavam explodindo dentro de mim, como pequenos fogos de artifício, e as veias menores começaram a vazar. Meu corpo estava inchado, com quase 20 quilos a mais; minhas mãos, pés e nariz estavam ficando pretos. Meu rosto e o resto do corpo estavam roxos, azuis, vermelho-escuro, como num mosaico. Eu estava em coma profundo.

Os médicos suspeitavam que eu tivesse uma infecção bacteriana, mas era apenas um palpite. Eu podia ter um vírus, um parasita raro ou um fungo maligno. Fui colocada em quarentena, o que obrigava médicos e visitantes a usar máscaras e seguir um complexo procedimento de descontaminação.

Os médicos disseram a Peter para não se afastar muito do hospital, e estar sempre pronto para chegar em poucos minutos. Ele foi orientado a conversar com um psicólogo, e ouviu que devia se preparar para a minha morte. Uma enfermeira disse a ele para pensar em desligar os aparelhos que me mantinham viva. Ele planejou meu funeral. Minhas cinzas seriam espalhadas em Cambridge, na Inglaterra, onde nós dois havíamos passado alguns de nossos anos mais felizes – ele como pesquisador, e eu como pós-doutoranda.

Conforme os dias passavam e eu continuava em coma, várias possíveis causas para a minha doença foram sendo eliminadas. Fui diagnosticada com meningite pneumocócica, causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae. É um tipo especial de bactéria, que tem uma carapaça feita de açúcar e se comporta como um pequeno tanque, destruindo tudo o que encontra. Na maioria dos casos, ela é capturada pelo baço e causa sintomas leves. Mas, em mim, a bactéria parecia não ter limites, espalhando toxinas por todo o corpo, incluindo bem no meio do meu cérebro, onde vários coágulos se formaram e explodiram.

***

 (Estevan Silveira/Superinteressante)

Eu abri os olhos com muita dificuldade.

Estava tudo enevoado, não havia quase nenhuma luz. Tentei mantê-los abertos, mas era difícil e doía. Onde eu estava? O que tinha acontecido comigo? Tentei gritar, suspirar, acenar. Mas estava tudo travado dentro de mim. Comecei a ficar muito assustada.

“Rikke, você está no hospital, na UTI”, disse Peter.

Do que ele estava falando?

“Você teve uma infecção e ficou em coma. Mas agora você voltou”, ele disse.

O significado das palavras se dissipou. Lentamente, eu fui embora.

Não sei por quanto tempo apaguei. Quando meus olhos voltaram a abrir, a luz parecia feita de cacos de vidro, que atravessavam meus olhos e penetravam fundo no meu cérebro. A dor era quase insuportável. Eu queria que eles fechassem. Eu só queria paz.

Despertar de um coma não é como nos filmes. Você imagina alguém acordando e perguntando “o que aconteceu?”, “o que eu perdi?”, “o que estou fazendo aqui?”. Mas, na vida real, despertar é um processo, um mosaico fragmentado de impressões, luzes e sons. É barulhento e doloroso. Você não quer acordar, você preferiria desligar tudo e voltar a dormir. Você entra e sai da consciência, e não consegue controlar isso.

Coisas que antes eu fazia em segundos agora podiam levar um dia inteiro. Tentar lembrar do meu próprio nome, por exemplo, mesmo que eu tivesse acabado de ouvi-lo; ou tentar lembrar de alguma coisa que tinham acabado de me contar. Eram desafios imensos, que consumiam toda a minha energia, me fazendo cair em sono profundo. Meus olhos eram pequenas frestas, que só apontavam para baixo e me deixavam espiar um mundo do qual eu havia estado ausente por dez dias.

Os médicos disseram para Peter não criar expectativas. Eu poderia ter algum tipo de consciência, mas provavelmente nunca mais seria capaz de falar, me alimentar sozinha ou reconhecer meu esposo e filhos. E mesmo se eu acordasse disso, se reconhecesse minha família, se eu começasse a falar, eu provavelmente me tornaria outra pessoa. Os danos ao meu cérebro estavam diretamente ligados à personalidade. Eu poderia me tornar agressiva. Poderia gritar e chorar, sem saber o porquê. Eu provavelmente não reconheceria nem sequer a mim mesma. E isso na melhor das hipóteses.

Doze dias depois, eu ainda não respondia. De tempos em tempos, meus olhos abriam ou fechavam, e só. Cada vez mais desesperado, Peter perguntou aos médicos se uma grande amiga minha poderia me visitar. Eu e ela trabalhávamos juntas e trocávamos confidências, incluindo coisas que não contaríamos a mais ninguém. Tirando os médicos e minha família, ela foi a primeira pessoa a me visitar. Ela achou que estava preparada, mas ficou em choque ao ver meu corpo destroçado, e todas as máquinas que me mantinham viva.

Minha amiga e Peter ficaram em pé, ao lado da minha cama, conversando entre si. Não tive nenhuma reação, nenhum movimento. Eles falaram sobre todas as cartas e as flores que eu recebera, o que as pessoas no meu trabalho estavam comentando, como todos haviam ficado chocados com o que tinha acontecido. Entretidos na conversa, os dois não prestavam mais tanta atenção em mim.

E foi aí que aconteceu.

Eu abri os olhos e olhei para eles.

Peter agarrou o braço da minha amiga e, olhando fixamente para mim, fez o aceno de “sim” com a cabeça. Os dois me olharam intensamente, como se tivessem acabado de ver um milagre. Meu olhar, até então perdido e apontado para baixo, havia mudado.

“Rikke! Você consegue nos ver?”, disse Peter, quase sem respirar.

Depois do que pareceu uma eternidade, eu pisquei.

“Amor! Você entende o que eu estou dizendo?”

Pisquei de novo.

“Você viu quem está aqui comigo?”

Reconheci os dois. Entendi o que eles estavam dizendo, e consegui responder perguntas piscando. Ninguém esperava uma reviravolta tão dramática. O momento mágico durou apenas alguns minutos, e eu voltei para a minha escuridão particular.

Durante a semana seguinte, minha mente oscilou entre a consciência e um estado de delírio. Me contaram, inúmeras vezes, o que tinha acontecido comigo. A cada vez, eu ficava surpresa, confusa, chocada, apavorada e entristecida. Minha memória de curto prazo havia sido completamente destruída. Toda vez que eu acordava, tinham que me contar tudo de novo. As únicas coisas que eu reconhecia eram os sons de máquinas, enfermeiras e médicos. Eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo ali. Meu corpo era minha prisão, e minha mente não servia para nada. Tudo o que eu podia fazer era deitar ali, totalmente imóvel, indefesa, enquanto meus pensamentos me consumiam.

Eu estava presa dentro do meu próprio corpo, e tinha que aceitar aquela vida. Passava meus dias dormindo e pensando, as duas únicas coisas que ainda conseguia fazer sozinha. Eu pensei muito. Não coisas profundas, filosóficas, sobre o sentido da vida. Era fragmentado e pessoal – flashes de memórias, sentimentos, passagens da minha vida.

Fora dormir e pensar, a única coisa que eu conseguia fazer era piscar. Uma enfermeira sugeriu usar isso para me comunicar. O código era simples; até eu conseguia lembrar dele. Uma piscada significava “não”, e duas “sim”. Isso mudou tudo para mim. Eu não conseguia começar uma conversa, nem fazer perguntas. Mas podia participar. Foi aí que a tábua de soletrar entrou na minha vida. Era bem simples, só o alfabeto impresso num pedaço de papelão. Mas era exatamente o que eu precisava.

Usar a tábua não era fácil. Primeiro, eu tinha que atrair a atenção de quem estivesse no quarto. Como você faz isso usando só os olhos? Eu olhava para a tábua. Quando alguém finalmente a pegava, eu tinha que seguir o dedo da pessoa passando pelas letras, e só piscar quando ela chegasse na que eu queria. Mas mesmo se a pessoa fosse bem devagar, frequentemente era rápido demais para mim. Eu errava muitas vezes. Mas como você avisa que errou, se só pode se comunicar piscando? A resposta é: não dá. Nós tínhamos que começar tudo de novo.

Aos poucos, comecei a fazer pequenos progressos na parte física. Comecei a sentir dor em todo o corpo. Meu nariz coçava, ou meu braço doía por ficar numa posição ruim, às vezes por horas sem que ninguém percebesse. Meus lábios ficavam ressecados e ardiam. Usei toda a minha força e, após vários dias, consegui mexê-los um pouquinho. Era o suficiente para balbuciar, sem som, as palavras “sim”, “não” e “oi”.

Mas meu corpo ainda estava num estado terrível.

“Nós vamos esperar até eles caírem sozinhos”, disse, alguns dias depois, uma médica. “A gangrena vai estabilizar, os seus dedos vão secar e cair.”

Não consegui acreditar. Eu ia esperar meus dedos caírem? Naquele instante, percebi que era passageira na minha própria vida. Nunca mais iria passar os dedos no meu cabelo, estalá-los ao ouvir uma música, aprender a tocar piano ou desenhar.

Eu olhei para Peter e pisquei.

Uma vez.

***

 (Estevan Silveira/Superinteressante)

No dia em que fiquei sabendo que ia perder os dedos, os médicos tiraram meu ar. Eu estava respirando por meio de um aparelho. Mas a máquina estava começando a criar problemas. O tubo fez feridas na minha boca, e elas não cicatrizavam. Meus lábios tinham acumulado camadas de sangue coagulado, e estavam frágeis demais para limpar. Eu também não conseguia fechar a boca, o que expunha meus dentes.

Me levararam para a sala de cirurgia. As coisas aconteceram mais rápido do que eu esperava. Instalaram uma válvula de traqueostomia em mim. Basicamente, é uma torneirinha de plástico, com uma abertura para a minha traqueia. Em vez do tubo de ar entrar pela minha boca, agora entrava pela garganta.

Eu acordei no meio da noite, drogada, desorientada e com muita dor, todos os medos antigos inundando a minha cabeça. Eu tinha esquecido de tudo, e tudo me amedrontava. Tentei chamar o Peter, tentei levantar na cama. Mas não conseguia ouvir minha própria voz, nem mexer meu corpo. Eu achei que todo mundo tinha morrido, e eu era a última pessoa no planeta Terra, sem nada para fazer a não ser morrer.

As enfermeiras perceberam minha aflição, e correram para chamar Peter. “Oi, amor”, disse ele, tentando disfarçar a cara de preocupação. “Me disseram que tudo correu bem, e logo você vai sentir uma melhora.”

Eu me concentrei, coloquei toda a minha energia no meu rosto, e quase imperceptivelmente mexi meus lábios para a frente. Peter percebeu e, desviando de fios e tubos cheios de air, alimento, sangue e remédios, ele encontrou um caminho. Foi nosso primeiro beijo. Desconfortável, estranho, mas maravilhoso.

***

Alguns dias depois, os médicos decidiram me tirar do respirador artificial. Eu fiquei apavorada, tentando lembrar como respirar sozinha. Eu tinha aprendido isso em dez segundos, ao nascer, mas nunca tinha pensado a respeito.

“Ok, Rikke, vamos lá” – disse a enfermeira.

Não havia nenhum médico presente, o que me alarmou. Eu pisquei uma vez, mas a enfermeira me ignorou. Alguns segundos depois, eu estava sem o respirador. Eu gostaria de dizer que foi ótimo, mas a verdade é que eu achei que ia morrer. Eu estava sufocando, o meu corpo implodindo, eu queria gritar e pedir a máquina de volta. Não entrava ar, ele escapava todo pelo furo na minha garganta. Entrei em pânico. Depois do que pareceu um tempo interminável, reconectaram o respirador. Eu nunca mais queria ficar sem ele.

Mas eu sabia que tinha de insistir. No começo, eram só algumas tentativas rápidas por dia. Todas igualmente dolorosas e assustadoras. Quando finalmente consegui respirar sozinha, nem percebi. Era bizarro: eu estava sufocando, mas Peter e a enfermeira comemoraram. Por alguns instantes, eu tinha conseguido absorver oxigênio do quarto.

***

Eu só me comunicava piscando os olhos, ou tentando emitir algum som, e todo mundo estava acostumado com isso. Um dia, quando as crianças estavam comigo, senti uma coisa diferente. Senti controle. Estava pronta para tentar. Respirei algumas vezes, e fui com tudo. Minha primeira palavra saiu.

“Estranho.”

Todo mundo congelou e olhou para mim. Minha primeira palavra em quatro semanas de hospital. Era estranho falar. Estranho respirar. Estranho não poder me mexer. Estranho entender tudo o que tinha acontecido. Estranho. Minha família riu de alegria, como se mil bolhas de felicidade tivessem sido liberadas no quarto. Para eles, as coisas mudaram naquele dia. Uma certa leveza reentrou nas nossas vidas.

Aos poucos, comecei a sentir alguma conexão com meus braços e pernas. Duas semanas depois, uma fisioterapeuta disse: “Rikke, você está pronta. Você vai ficar de pé”. Contamos até três e, com a fisio e o Peter me segurando, eu fiquei de pé e senti o peso do meu próprio corpo. Eu estava de pé. Mas foi como voar.

Depois de um mês e meio, fui transferida da UTI para outra área do hospital. Não havia mais traços da bactéria no meu corpo, e as complicações da infecção estavam sob controle. O novo quarto ficava a apenas cinco minutos da UTI, mas foi como me mudar para outro país. Passei a receber visitas com mais frequência. O médico disse que podíamos tirar o tubo da minha garganta, e uma enfermeira fechou o buraco com fita adesiva.

Eu tinha ouvido os outros pacientes falando sobre ir para casa. Na minha situação, ir para casa era algo tão distante quanto ir a outro planeta, mas eu me permitia imaginar a cena.

Eu queria muito. Então, quando o médico sugeriu isso, eu mal acreditei. Alguns dias depois, eu estava numa cadeira de rodas, indo para casa.

***

Meus dedos, murchos e enegrecidos, eram um lembrete do que iria acontecer. Quanto mais ativa eu me tornava, mais eles atrapalhavam. Tinham me dito que a ideia era esperar até que eles caíssem sozinhos. Minhas mãos estavam com gangrena.

E aí a hora chegou. O cirurgião me explicou como iria extrair meus dedos. Deu tudo certo. Tomei uma anestesia geral, e nove dos meus dedos foram parciamente removidos. Agora não tinha mais volta. Minha vida nunca mais seria a mesma.

As cicatrizes foram mudando, aos poucos, a cada dia. Enrolando gaze nas pontas dos dedos, minhas mãos começaram a parecer surpreendentemente normais. Eu me acostumei com elas, e meus movimentos ficaram mais rápidos. Eu estava me sentindo melhor, quebrando barreiras a cada semana. Consegui andar alguns quarteirões, até uma loja, junto com minha fisioterapeuta. Era aniversário do Peter, comprei um bolo para ele.

Escrevi uma carta para todos os nossos amigos e parentes. Levou horas, eu tive que pensar em cada frase e só conseguia usar o polegar da mão esquerda.

“Depois de 153 dias, estou em casa!”, escrevi. Contei que eu tinha visitado o inferno, e que todas as cartas e emails deles me fizeram ver a luz no fim do túnel. Terminei a carta e sentei no quintal, sob o sol do final da tarde.

Não tive que pedir permissão. Não tive que avisar nenhuma enfermeira. Simplesmente fui.

Ganhei uma bolsa de pesquisas na universidade, e meu novo chefe me chamou para conversar. Eu não queria ir, estava com receio. Mas ele era a bondade em pessoa, disse que eu só precisava voltar quando estivesse pronta, e me mostrou meu novo escritório. Levei mais seis meses até conseguir voltar a trabalhar, meio período.

Uma noite, em casa, eu resolvi fazer o jantar. Tomate, alho, cebola, cogumelo, macarrão: a receita mais simples possível. Foi o que eu pensei. Mas demorou uma eternidade. Eu não tinha força nas mãos, não conseguia dobrar o que sobrou dos meus dedos. Fui ficando exausta de tanto tentar, e de quão injusto aquilo era. De como a minha vida tinha se tornado difícil. Eu não aguentava mais. Comecei a chorar, cansada de tudo.

Daí eu senti a mão dele. Meu filho Daniel olhou para mim, com aquela carinha que eu conhecia tão bem.

“Mãe. Você tem as mãos mais bonitas do mundo.”

Então eu senti que estava tudo bem. Naquele dia, eu me curei.

***

Rikke Schmidt Kjaergaard, 43, voltou a trabalhar como pesquisadora na Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Ela é autora de mais de 30 artigos e estudos científicos e do livro The Blink of An Eye (“um piscar de olhos”, ainda sem versão em português), no qual conta sua experiência no hospital. É casada com o biólogo Peter Kjaergaard e mãe de três filhos: Johan, Victoria e Daniel.

Comentários

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  1. Oy tudo bm😈😈😈😈😈😈😈😈

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