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O lado bom do ciúme

Ele é o irmão gêmeo do amor. E ajuda a fortalecer os laços de um relacionamento

Primeiro, a realidade começa a ser deturpada pelas desconfianças do outro. Por que saiu com essas roupas se só vai trabalhar? Para que ir à academia usando um perfume que só passava para sair à noite? Por que está saindo tão tarde do trabalho? De quem são essas ligações no celular? Por que ainda mantém contato com o ex? Por que não está querendo transar? Depois vêm as desconfianças de si próprio. Sabemos que há outras pessoas melhores na cama. Mais bonitas. Mais bem-sucedidas. E diante de tantas dúvidas, só resta uma coisa: apertar o cerco. A cada suspiro que a outra pessoa toma, cada passo que ela dá, você estará à espreita. O ciúme é o inferno dos amantes.

Por que sofremos assim? Roberto Carlos sabe dizer melhor: “Entenda que no meu coração tem amor demais, meu bem, e essa é a razão do meu ciúme, ciúme de você.” Traduzindo para as palavras do Rei para a linguagem científica, é basicamente o seguinte: a mente cultiva relações humanas à base de recompensa e castigo – de um lado, o afeto; de outro, o ciúme. Vivemos rodeados por candidatos com características físicas e condições materiais mais desejáveis do que nosso parceiro titular. Claro, é muito mais fácil perceber isso quando estamos na pista, observando as qualidades das pessoas que eventualmente possam dar mole por aí. Mas, apesar de toda essa tentação, buscamos ainda assim continuar com nosso parceiro titular por um motivo principal: o afeto. Lembra dele? É a emoção que leva pessoas a adotarem estratégias altruístas com o outro. Se gostamos de alguém, evitamos sacaneá-lo. Passamos a notar menos as meninas ou os rapazes à nossa volta. Deixamos de lado seus pequenos defeitos, aumentamos suas qualidades e, quando bate uma vontade de flexibilizar a cerca, lá vem a culpa para nos frear.

Mas o que dizer da outra pessoa? Que garantia pode haver de que ela não pulará a cerca? Olha, você sabe por conta própria o quão difícil é manter a fidelidade. Assim como você, seu par está rodeado por outras pessoas aptas a conquistá-lo. E a concorrência é sempre difícil. Você sabe muito bem quais são as suas fraquezas, e sempre haverá alguém em algum ponto melhor do que você. Sempre alguém será algo que você não é ou terá algo que você não tem. É duro, mas você tem de se conformar com isso. E é aí nessa insegurança que entra o ciúme.

Antes do mais, o ciúme é uma variação da ansiedade, que abordaremos no próximo capítulo. Tal como a ansiedade, ele faz com que nos antecipemos a possíveis situações de perdas e danos – reais ou imaginárias. É uma estratégia preventiva. E, tal como a ansiedade, o ciúme causa sofrimento e traz o risco de agir de forma desnecessária.

O ciúme também é uma emoção parecida com a inveja: as duas dizem respeito a querer ter alguma coisa. A diferença é que você sente ciúmes de algo que é seu ou que está com você, enquanto sente inveja de algo que você quer ter. Isso vale para o carro que o pai não quer emprestar para o filho, para a guitarra que é guardada cuidadosamente num case a prova de trombadas, para roupas que uma irmã não quer emprestar de forma nenhuma para outra. Mas, claro, a história fica quente mesmo quando o que está em questão são as relações humanas. De cara já sentimos ciúme de nossos pais quando nasce um irmãozinho. Mais tarde, surge o ciúme de nossos amigos. Até que encaramos o mais forte de todos – ciúme de nossos parceiros afetivos. Você pode até querer levar uma vida moderninha, não ser machista, não bancar o possessivo, ser mais seguro e não ser tão impulsivo. Mas você se morderá de ciúme (e não é de surpreender que, ao lado das canções de amor, haja tantas letras sobre ciúme).

A boa notícia? Assim como a inveja, o ciúme tem tanto um lado destrutivo quanto outro construtivo. Ao mesmo tempo em que motiva a agressividade e o controle (histórias amedrontadoras de perseguição e de crime passional não faltam; o ciúme corrói casamentos, enfraquece a autoestima e alimenta a violência doméstica), também incentiva a fortalecer os laços do relacionamento. A questão é, como sempre, de proporcionalidade.

Ciumentos e ciumentas

O psicólogo evolucionista David Buss, da Universidade do Texas, buscou avaliar se homens e mulheres sentem o mesmo tipo de ciúme. Para isso, perguntou a 1.220 estudantes o que lhes incomodaria mais: imaginar seu parceiro tendo uma relação emocional profunda com alguém, sem que haja sexo, ou imaginá-lo fazendo sexo com alguém, sem que haja relação emocional. Homens se mostraram mais incomodados com a traição sexual, enquanto mulheres, mais com a traição emocional. Estudos feitos na Alemanha, na China, na Coreia do Sul, na Holanda, no Japão e na Suécia chegaram às mesmas conclusões.

Por quê? A resposta está no nosso ancestral da savana africana. Quando ele tinha um relacionamento, podia fazer duas coisas: ou acreditar que seu parceiro era 100% fiel quando na verdade ele o traía, ou acreditar que seu parceiro o traía quando na verdade ele era fiel. É verdade que o custo de procurar pelo em ovo era considerável – estresse, brigas e possivelmente um fim de relacionamento. Mas o de se deixar trair era muito maior. Só que as consequências mudavam dependendo de ser homem ou mulher.

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Antes de seguirmos adiante, temos de lembrar de uma coisa. Sim, é verdade que os papéis de homens e mulheres mudaram com o tempo, de acordo com cada cultura. Mas essas mudanças culturais são muitíssimo recentes para que possam ter relevância em nossos genes. Por mais que a expressão de comportamentos aos quais somos predispostos geneticamente dependa do nosso ambiente, ao longo da evolução homens e mulheres tiveram desafios distintos na busca por parceiros sexuais e na manutenção dos relacionamentos. No caso das mulheres, o ciúme foi moldado pela busca de um apoio contínuo e incondicional para se reproduzir e criar os filhos até que as crianças se tornassem autossuficientes. No caso do homem, o ciúme foi moldado pelo medo de que investisse recursos na criação de filhos de um outro homem.

Vamos ao caso feminino. A mulher tem um gasto de energia e tempo na reprodução e criação muito maior do que o homem. Gesta por nove meses um serzinho que sequestra sua energia e nutrientes, sofre um parto extremamente traumático por conta da cabeça superdesenvolvida dos humanos, nutre a criança meses a fio com o leite produzido pelo seu próprio corpo. E, em sociedades nômades, precisava cuidar dos filhos até pelo menos o sétimo ano de idade, quando a criança começava a se socializar e a se virar de forma minimamente autônoma na savana. É verdade que, na maioria das sociedades atuais, a mulher alcançou grande autonomia econômica, além de ter apoio da família estendida, de sua rede de amigos e do Estado, em variados graus. Mas, ao longo da evolução, esse papel provedor foi do macho da espécie.

É por isso que o receio de ser abandonada emocional e financeiramente é maior do que o de ser traída fisicamente. Era importante que a fonte de dedicação afetiva e material não se desviasse para outra mulher. Foi uma adaptação a essa situação, o ciúme que ela sente diante do risco de seu parceiro começar a sentir afeto por outra mulher.

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Agora, o homem. Ele também tem grandes motivos para sentir ciúme. É que, ao longo da evolução, a mulher teve dois motivos bem complexos para trair – ambos diferentes das razões masculinas. O primeiro motivo é a diferença entre o melhor reprodutor e o melhor provedor. O interesse da nossa mulher ancestral, diferentemente do que ocorre com o homem ancestral, não é buscar o maior número de parceiros sexuais. Afinal, ela tem apenas um óvulo fecundado por vez. Por isso, não há uma vantagem aumentada em procurar o máximo de parceiros possíveis. A melhor estratégia, então, é escolher o homem com a melhor qualidade genética, e não a maior quantidade de homens.

Mas a melhor genética não é o único interesse dessa mulher. Como já vimos, ela terá melhores condições de se reproduzir – e seus filhos, de sobreviver – se ela se relacionar de forma estável e exclusiva com o melhor provedor possível.

Qual a melhor estratégia, então, para os seus genes? Estabelecer-se com um bom provedor, e, enquanto isso, buscar um parceiro sexual mais forte e mais saudável do que seu parceiro. Ou seja, casar-se com o Mauricinho e ter um caso com o Ricardão. Se ela engravidar do mais forte e ter esse filho criado pelo mais afetuoso, terá o melhor dos mundos.

Por outro lado, criar o filho do sr. Ricardo seria uma tragédia evolutiva para o homem – ele gastaria recursos para propagar os genes de outro, sem saber. Por isso o ciúme masculino está mais ligado à traição física que à traição emocional.

A segunda razão evolutiva para a mulher da savana querer trair seria adquirir um “seguro-homem” para o caso de seu titular morrer numa caça ou luta, ou a abandonar. Isso pode não ser importante em sociedades com expectativa de vida masculina alta, mas era uma grande vantagem num ambiente em que a sobrevivência era precária.

Ou seja, tanto o homem quanto a mulher têm incentivos para trair, embora por motivos diferentes, e os dois têm motivos claros para não quererem ser traídos. Enquanto o amor incentiva a pessoa a se manter num relacionamento estável, ele não impede totalmente a traição. E o papel positivo do ciúme é exatamente o de tentar impedir essa traição. Ele pode não ser o melhor mecanismo anti-chifre do mundo. Mas é o que temos.

Para saber mais

O Lado Bom dos Seus Problemas
Mauricio Horta, Superinteressante, 2013