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Os falsários

Sem assumir os sacrifícios para exercer uma profissão de prestígio, psicopatas estelionatários colhem honorários de clientes, pagamentos de pacientes e até dízimo de fiéis

Texto Eduardo Szklarz

O americano Anthony Owens é um homem de palavra. Em 2002, após conhecer Gwen Robinson no Texas e lhe propor casamento, ele viajou ao Mississippi para pedir sua mão ao futuro sogro. A família da noiva se encantou com o homem de voz suave e sorriso confiante que se apresentou como pastor, um “homem de Deus”. Meses depois da festa, Gwen descobriu que An­thony era casado com outras 7 mulheres, sem se divorciar de nenhuma. Ele as seduzia para depois deixá-las sem um tostão. Uma delas perdeu 5 carros e 1 casa. Outra teve problemas na Justiça por causa de cheques sem fundo que ele emitiu em seu nome.

Mentir é uma habilidade de todo psicopata, mas falsários como An­tho­ny Owens têm um talento especial. Dis­farçados de profissionais como pastores, advogados e médicos, enganam as pessoas para conseguir vantagens econômicas ilicitamente. E fazem da mentira uma ferramenta de trabalho tão importante quanto o terno ou o guarda-pó que vestem para realizar seus golpes.

“O psicopata se vê como autor, diretor e protagonista da encenação que é a sua vida. As outras pessoas só existem para atuar nos papéis de apoio que escolhe para elas”, diz o psicólogo americano Paul Babiak no livro Snake in Suits – When Psychopaths Go to Work (“Cobras de Terno – Quando Psicopatas Vão Trabalhar”). Nesse drama teatral, são dois os papéis que os psicopatas farsantes podem escolher para você: o de avalista ou o de vítima da fraude.


No hospital

Poucos neurologistas argentinos tiveram tanta reputação como Guillermo Assaneo. Ele publicou estudos, organizou congressos e chegou a exercer cargos de chefia no Hospital Rivadavia, em Buenos Aires. Detalhe: só estudou algumas matérias na faculdade. Dava receitas sem nome nem número de matrícula. Em 1998, após fingir ser médico por 17 anos, foi preso por exercício ilegal da medicina. “Era brilhante”, disseram pessoas que o conheceram. “Parecia ser realmente um médico.”

Não é surpresa. Esses psicopatas do­minam o jargão da carreira que escolhem a ponto de convencer a todos. Assaneo dissertava sobre neurônios com a mesma desenvoltura com que o brasileiro Alessandro Marques Gon­çal­ves falava de articulações. Formado em direito, Gonçalves clonou documentos de um médico verdadeiro e trabalhou como ortopedista em ao menos 10 hospitais de MG e SP. Dei­xou mais de 20 aleijados até ser desmascarado em 2006.

Naquele ano, 30 falsos doutores foram flagrados atuando no estado de São Paulo, quase o dobro que em 2005. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) declarou que havia uma verdadeira “epidemia” de falsos médicos. Hoje, o site do Conselho mostra o nome, o CRM e a foto do profissional para facilitar sua identificação pelos pacientes. Segundo o Cremesp, essas medidas reduziram muito o número de fraudadores.

Colarinho vermelho

O americano John Grambling Jr. se apoderou de mais de US$ 20 milhões de bancos nos anos 80 sem apontar o revólver para ninguém. É preciso muita ingenuidade para emprestar milhões sem exigir garantias, mas os gerentes se convenceram de que o refinado cliente era um homem de confiança. Ele os enganou com charme e falsas declarações de bens, pagando um empréstimo enquanto fazia outros. Até persuadiu o diretor de uma firma a dar recursos para uma obra de caridade que não existia. Só foi desmascarado quando já era tarde.

Faz sentido: os psicopatas de colarinho-branco são difíceis de detectar, pois costumam agir com o sinal verde da sociedade. Gerentes de bancos disputam para conquistar clientes vip. Organizações financeiras muitas vezes os contratam e fomentam suas habilidades lucrativas – até perceberem a cilada em que elas caíram.

A hora da verdade

Psicopatas impostores não vivem no mundo da fantasia. Quando desmascarados, abandonam seu papel e admitem quem são com naturalidade. Gonçalves, o falso ortopedista, até chegou a justificar seus atos dizendo que fazia um bem aos pacientes.

Ao contrário dos estelionatários comuns, a manipulação e os golpes dessas pessoas não se limitam ao objetivo de fazer dinheiro. Permeiam suas relações com todo mundo, incluindo família, amigos e o sistema judiciário. É por isso que a Justiça tem dificuldade para avaliar o estrago que esses psicopatas causam na vida das pessoas. Como seu crime não envolve violência física direta, eles geralmente se livram da prisão por falta de provas. Mesmo quando são condenados, recebem uma pena leve e logo saem em liberdade – para recomeçar do ponto onde pararam.

Que o diga Anthony Owens. Preso por bigamia em 2003, saiu da cadeia pouco depois e voltou a botar em prática o conto-do-vigário – ou melhor, do pastor. Em apenas 18 meses, pediu outras 4 mulheres em casamento.