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Panela velha não faz comida boa

A experiência é um dos atributos mais valorizados em qualquer atividade. Mas a ciência mostra que ela talvez não seja tão importante quanto você imagina

Você está na UTI, numa corda bamba entre a vida e a morte. O chefe do hospital entra e diz: “Temos dois grupos de enfermeiros aqui que podem cuidar de você. Um já está com a gente há anos, sabe tudo. Uma beleza. O outro pessoal é novato, ainda está aprendendo. Mas seria bacana eles pegarem um paciente terminal, tipo você, para ganhar experiência. Qual dos dois você prefere?”

Já decidiu? Bom, antes de mandar esse insano para onde ele merece, saiba que você fez a escolha errada. Alguns estudos recentes mostram que a experiência não é tão importante quanto todo mundo acha. Mais: ela pode até atrapalhar o desempenho, pelo menos diante de situações novas. E isso vale para qualquer profissão que envolva imprevistos – seja enfermagem, diplomacia, skatismo ou presidência de repúblicas. Sim, Lula, sim, Obama, agora vocês já podem usar a ciência (e a SUPER!) para retrucar quem dizia que vocês, que nunca tinham ocupado cargos executivos antes de ganhar suas respectivas eleições, careciam de experiência para assumir cargos tão altos.

De volta ao hospital: uma das pesquisas mais instigantes sobre o assunto, feita por neurocientistas da Universidade da Flórida, envolvia justamente enfermeiras novatas e veteranas lidando com um paciente à beira da morte. Na verdade, era um robô programado para alternar sintomas como pressão alta, baixa e taquicardia – e para morrer se tomasse o remédio errado na hora errada. Um caso capaz de tirar até o Dr. House do sério. E foi o que aconteceu com as enfermeiras: TODAS deixaram o paciente virtual morrer. Mas essa não foi a surpresa. E sim esta aqui: algumas novatas conseguiram manter o boneco vivo por mais tempo que as experientes. Por quê? Simples: as veteranas confiavam no instinto, menosprezando informações básicas sobre as mudanças no estado do paciente – e, apesar de agir com mais rapidez que as novas, erravam mais rápido também. A autoconfiança só atrapalhava. Sabe quando falam que a maioria dos afogados é de gente que sabe nadar? Então.

Na hora de dirigir um carro é a mesma coisa. Um estudo britânico concluiu que os motoristas com mais de 20 anos de experiência costumam olhar o retrovisor de vez em nunca e pisam no freio mais em cima do carro da frente. Depois de anos de volante, os motoristas em geral dão de ombros para os riscos.

Mas e quando o assunto é uma atividade complexa, que exige mais poder da massa cinzenta? Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia mostraram que elas também entram nesse barco. Os cientistas colocaram especialistas em política internacional para analisar situações hipotéticas, como disputas de fronteira, e dizer como elas terminariam.

Tudo pegadinha: os conflitos eram versões disfarçadas de coisas que aconteceram na vida real, como uma pendenga por território entre o Iraque e a Síria nos anos 70. Então os cientistas sabiam que havia respostas certas e erradas para cada análise. Resultado: os experts com menos de 5 anos de experiência tiveram um nível de acerto de 36%, enquanto os veteranos, mais acostumados aos enroscos diplomáticos, só acertaram 29%.

Experiência, então, é uma coisa ruim? Obviamente não. Olhe para os jogadores de xadrez, por exemplo. Mestres internacionais do tabuleiro conseguem lembrar a posição de mais ou menos 25 peças de uma partida que ele acabou de jogar – os jogadores iniciantes, só 4. E esse tipo de vantagem a favor dos experientes aparece em qualquer profissão. O problema é quando surge um imprevisto – se você colocar peças aleatoriamente num tabuleiro, os mestres ficam quase tão “burros” quanto os iniciantes na hora de lembrar a posição delas. O caso das enfermeiras veteranas do estudo da Universidade da Flórida também ilustra isso. O que aconteceu ali não foi só excesso de autoconfiança, mas a falta de habilidade delas para lidar com o imprevisto. O conhecimento das veteranas, que era de fato maior que o das novatas, se mostrou pouco útil na hora de lidar com um paciente mais problemático que a média (o robô).

Isso vale para todo mundo. Presidentes da República, inclusive. O homem mais experiente no cargo nos últimos tempos foi João Goulart (não estamos falando de idade, mas de vida pública). Antes de ocupar a Presidência, ele tinha sido ministro de Getúlio Vargas e vice de Juscelino e de Jânio. E nem por isso soube lidar com um grande imprevisto: o golpe militar de 1964, que o depôs e o mandou para o exílio. Nos EUA, um dos que tinham acumulado mais experiência política antes de virar presidente foi Richard Nixon, que acabou impichado.

Claro que, se experiência não vale tanto assim, não é a falta dela que vai garantir alguma coisa (certo, Obama?). O fato é que agora a experiência é no mundo real: quem está na UTI é o planeta. O enfermeiro mais importante é pouco rodado. E nós não somos robôs. Boa sorte, novato.