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Política: Guerra contra a ciência

Os cientistas correm perigo. Em nome de valores conservadores, Bush e seu Partido Republicano estão bombardeando o avanço científico nos EUA

Thiago Ianelli Soeiro

O presidente americano George W. Bush e o seu Partido Republicano são famosos por seu conservadorismo e pelas suas guerras. No entanto, há uma batalha sendo travada em pleno solo americano onde a artilharia republicana anda tão ocupada quanto a dos soldados no deserto. É o ataque de batalhões de políticos sedentos por impor sua visão sobre o progresso científico.

Basta verificar os números para se entender o tamanho do estrago: as agências federais americanas que trabalham com pesquisa científica tiveram seus orçamentos reajustados abaixo da inflação, frente a uma média anterior de 15% de aumento por ano. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA – entidade que estuda a poluição no oceano e na atmosfera) teve um corte de 33% em seu orçamento. Até a Nasa, um dos pilares da ciência nos EUA, foi vítima da sanha de Bush: o reajuste dos programas que monitoram a Terra foram reduzidos de US$ 480 milhões, em 2001, para os atuais US$ 370 milhões. O governo também bloqueou US$ 1 bilhão que seria destinado aos consertos do telescópio espacial Hubble. Sem essa reforma, o Hubble está aos poucos se transformando numa sucata espacial, com falhas em vários de seus sistemas. Mas essa batalha vai muito além dos números.

Células da discórdia

Os problemas entre o presidente americano e os cientistas datam da campanha eleitoral de 2000, quando Bush foi a público dizendo-se contra a pesquisa científica com células-tronco retiradas de embriões humanos. As declarações do então candidato à Presidência causaram alvoroço na comunidade científica e geraram um intenso debate sobre a ética da pesquisa, já que o processo de obtenção das células-tronco destrói os embriões.

Depois de meses de discussão, o agora presidente Bush decidiu que o governo federal dos EUA iria custear pesquisas na área, desde que elas envolvessem populações de células que tiveram sua criação iniciada até agosto de 2001. Nos EUA, o número de famílias de células que se encaixam nesse pré-requisito é de apenas 30, o que deixou muitos cientistas furiosos. A maior parte da comunidade científica acredita que a diversidade no número de células é fundamental, por exemplo, para o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer. A limitação a 30 populações impossibilita na prática o desenvolvimento eficaz das pesquisas.

Outro problema é que boa parte dessas células foi desenvolvida por empresas privadas, que protegem suas pesquisas com verdadeiras muralhas de patentes, o que torna o acesso a esse material extremamente caro para as universidades. Michael Stebbins, biólogo e autor do livro Sex, Drugs and DNA, diz que essa medida do governo é ruim para o desenvolvimento tecnológico. “É a primeira vez na história que o progresso científico é retardado por políticas restritivas. Muitos cientistas que estariam trabalhando nos EUA estão realizando pesquisas no exterior, e o país está sendo deixado para trás no desenvolvimento dessa nova tecnologia.”

As preocupações dos cientistas só vieram a piorar este ano. No início de setembro, Bush usou seu poder de veto sobre uma lei que permitiria o financiamento de pesquisas com células-tronco fora das limitações que foram estabelecidas pelo governo. A justificativa do presidente foi dizer que a lei “cruza uma fronteira moral que não deveria ser ignorada”. Bush acrescentou ainda: “Essa lei aprovaria que vidas inocentes fossem tiradas para o benefício médico de outros”, referindo-se mais uma vez à destruição dos embriões usados para coletar as linhas de células-tronco.

Criação ou evolução?

A mentalidade do governo Bush não atingiu apenas a pesquisa científica, ela também tem marcado a forma como a ciência é ensinada nas escolas americanas e até mesmo nas do Brasil (veja o quadro na página ao lado). A luta começou quando o presidente disse que apoiava o ensino do criacionismo nas escolas públicas. O criacionismo é uma teoria religiosa que diz que o Universo é complexo demais para ter sido gerado do acaso e que os seres humanos são criaturas muito bem “planejadas” para que tenham sido obra da evolução. Segundo os criacionistas, todas essas “evidências” apontam para um Universo criado por uma inteligência superior, ou seja, Deus. Não é à toa que essa teoria tem forte apoio de alguns grupos religiosos nos EUA, bem como no Partido Republicano. Já a Teoria da Evolução, iniciada pelo trabalho de Charles Darwin, em 1859, sustenta que o homem – assim como toda a vida na Terra – é produto da evolução contínua de bilhões de anos a partir do surgimento dos primeiros organismos unicelulares. A evolução é uma teoria aceita por praticamente todos os cientistas do mundo, porque é comprovada em testes, estudos e pela observação da natureza.

Com a eleição de Bush, aumentou a discussão sobre o ensino do criacionismo nas escolas. O argumento dos conservadores é que a evolução é apenas uma teoria entre muitas, e não uma verdade comprovada. No entanto, é aí que aparece uma contradição nesse discurso: se existem tantas teorias, porque justamente o criacionismo deveria ser escolhido para ser ensinado? Muita gente enxerga nisso uma tentativa de acabar com a separação entre Igreja e Estado, uma das principais bases da moderna democracia. Para piorar, o criacionismo foi repaginado para ganhar ares de “ciência” e passou a ser apresentado como Intelligent Design Theory (“Teoria do Design Inteligente”). “Foi como uma paulada na cabeça de todos os cientistas”, diz Phil Plait, astrônomo e editor do site Bad Astronomy, um dos mais engajados cientistas americanos. “O design inteligente não é uma teoria científica, ele é simplesmente errado. Isso significa ensinar lixo para as nossas crianças”, acrescenta.

Com o design inteligente sendo ensinada em algumas aulas de ciência, surgiu uma série de polêmicas. De um lado, professores reclamando que as aulas de religião seriam um lugar melhor para que esse tipo de idéia fosse exposto. Do outro lado, políticos conservadores e várias associações de pais católicos diziam que a evolução não deveria mais ser ensinada, já que não combina com a figura de um criador onipotente. O caso tomou grandes proporções e gerou uma série de disputas judiciais. A mais importante delas aconteceu em 2005, quando o magistrado John Jones decidiu que o design inteligente não deveria ser ensinado em uma escola pública do estado americano da Pensilvânia. A decisão foi crucial porque estabeleceu uma jurisprudência – o que significa que o resultado das guerras judiciais posteriores tendem a seguir esse primeiro. O resultado foi uma derrota para Bush. No entanto, vários grupos conservadores prometem recorrer à Suprema Corte. Essa batalha ainda não acabou.

Fraude no espaço

Nem a Nasa, a agência espacial americana, escapou do fogo cruzado entre os republicanos e a ciência. Desde que Bush assumiu o governo, existiam relatos de que cientistas da Nasa e de outra agências ligadas a ela vinham sendo censurados para que seus relatórios não mostrassem dados reais, especialmente no que diz respeito a pesquisas envolvendo aquecimento global. Uma série de relatórios sobre o tema, preparados entre 2001 e 2006, foi alterada para que números como os do Índice de Deterioração da Camada de Ozônio fossem mascarados. Segundo Paul Z. Myers, Ph.D. em biologia e professor da Universidade de Minnesota, esses relatórios eram alterados para favorecer setores industriais como o do petróleo, um grande contribuinte para a campanha de George W. Bush à Presidência.

O mais notório exemplo desse tipo de ação por parte da Casa Branca veio à tona no início do ano, quando o então assessor de imprensa da Nasa, George Deutsch, foi acusado não só de censurar cientistas e alterar documentos científicos, mas de também alterar a própria essência da Nasa, mudando o texto que define a missão da agência espacial. O texto original, inalterado desde a década de 1960, era: “Para entender e proteger nosso planeta; explorar o Universo em busca de vida; inspirar a próxima geração de exploradores… como só a Nasa pode”. Em fevereiro, o texto foi alterado (sem alardes, de forma quase secreta) para a versão republicana: “Ser pioneira no futuro da exploração espacial, descobertas científicas e desenvolvimento aeronáutico”. A Nasa justifica a mudança como o primeiro passo para que a agência espacial alinhe-se com o projeto de George W. Bush para levar o homem novamente à Lua e, posteriormente, a Marte. No entanto, a maioria dos cientistas explica de outro modo essa ação: já que a censura dos projetos causou problemas perante o público, o melhor mesmo é arrumar uma forma de acabar com eles. Uma vez retirada a passagem sobre “proteger o planeta”, a Nasa assume o papel apenas de uma grande fábrica de aviões e foguetes, abrindo as portas para que o monitoramento da incidência de CO2 (gás tido como o principal responsável pelo efeito estufa) na atmosfera seja descontinuado do dia para a noite, sob a alegação de não mais se encaixar nos objetivos da agência.

As razões de Bush

A pergunta que realmente fica no ar, com todas essas batalhas, é: afinal, qual o motivo de tudo isso? O que pode levar um governo a tais ações em pleno século 21? Conservadorismo religioso? Interesses políticos? Favorecimento a setores industriais? É difícil saber ao certo. Há aqueles que, no caso do criacionismo, dizem se tratar apenas de manobras para agradar ao eleitorado cristão e ganhar votos para o Partido Republicano. Já no caso das pesquisas alteradas e cientistas silenciados, seria uma forma de aumentar os lucros das grandes indústrias do petróleo e da área farmacêutica – colaboradoras das campanhas eleitorais republicanas. Sejam quais forem os motivos, o fato é que Bush e o Partido Republicano realmente declararam guerra à pesquisa científica. E esse conflito muito provavelmente demorará tanto quanto as batalhas do Iraque para terminar. É esperar para ver.

Houston, temos um problema

A Nasa admitiu, em fevereiro, que o assessor de imprensa da agência, George Deutsch, havia negado pedidos de vários jornais e redes de TV para realizarem entrevistas com o dr. James Hansen, um dos mais renomados pesquisadores na área de aquecimento global e também um dos maiores críticos das políticas anticiência da administração republicana. Deutsch, criacionista assumido, ocupava o cargo por indicação da Casa Branca. Além de negar entrevistas à imprensa, ele foi acusado de fazer o que a Nasa chamou de “edições inapropriadas” de material científico. Um dos exemplos mais notórios foi o fato de ter mandado acrescentar a palavra “teoria” todas às vezes em que o big-bang (a grande explosão que gerou o Universo) fosse mencionado no site da agência espacial. Depois desse episódio, Deutsch foi demitido sob a alegação de que havia falsificado seu currículo.

Deus na escola

A teoria do criacionismo diz que a vida na Terra é complexa demais para ser apenas uma obra do acaso. Os criacionistas acreditam que um poder maior temou parte na criação do Universo e do homem. A teoria bate de frente com a evolução (toda a vida na Terra teria evoluído de microorganismos, há bilhões de anos) e tem incomodado muito os cientistas, especialmente depois que George W. Bush afirmou, numa roda de jornalistas, achar que o criacionismo deveria ser ensinado em todas as escolas públicas dos EUA. A partir daí, surgiu um movimento no sistema educacional americano que vem inibindo o ensino da ciência e da Teoria da Evolução no país. No Brasil, o então governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, seguiu o exemplo de Bush e passou a apoiar o ensino do criacionismo nas escolas do estado, em 2002.

Vacina é pecado

A mais nova dos republicanos é a polêmica sobre uma possível vacina contra a aids. Tudo começou com o teste de uma outra vacina, a que previne o HPV (papiloma vírus humano) – uma doença sexualmente transmissível que pode causar infecção e câncer cervical em mulheres. Para os mais conservadores, a única forma real de manter-se livre de doenças como HPV e aids é através de um “comportamento sexual apropriado”, ou seja, a abstinência e a prática do sexo apenas depois do casamento. No meio da discussão entre salvar vidas e manter a moralidade, Reginald Finger, do Centro de Controle de Doenças dos EUA, declarou que “a aprovação de uma possível vacina contra a aids deve ser estudada com cuidado, pois traria consigo a desinibição sexual” – algo contrário aos princípios republicanos.

Céus limpos, jogos sujos & CO2

Desde 2001, George W. Bush é alertado por seus cientistas sobre as perigosas mudanças climáticas no planeta. Estas foram as ações adotadas pelo governo americano para “resolver” o problema:

– Rejeitou o Protocolo de Kyoto, que limita os níveis de emissão de gás carbônico na atmosfera.

– Alterou relatórios do Instituto Goddard de Estudos Espaciais para fazer a população acreditar que o problema não é tão sério quanto parece.

– Criou o programa Céus Limpos, em que indústrias limitam voluntariamente a intensidade de emissão de CO2. Em vezdo gás ser liberado de uma só vez, isso ocorre aos poucos. Com o começo do programa, a concentração de gás carbônico na atmosfera cresceu 12% nos últimos 4 anos.

– Financiou pesquisas de carros movidos a células de hidrogênio, “esquecendo-se” de que 80% do hidrogênio dos EUA é originário da queima de gás natural, uma ação que gera ainda mais CO2.

Outros casos de mau uso da ciência

– Bomba de hidrogênio: Quando os cientistas que trabalhavam nas pesquisas que geraram a bomba de hidrogênio disseram ao então presidente Harry Truman que a bomba era teoricamente possível, mas perigosa demais para ser montada, ele respondeu: “Monte-a”. A criação da bomba gerou o período da corrida armamentista entre a União Soviética e os EUA, que marcou as décadas de 1960 a 1980.

– Antraz: Em 1937, quando os EUA iniciaram o programa de armas biológicas, o presidente Franklin Roosevelt foi avisado de que os resultados poderiam ser perigosos , mas a pesquisa continuou. Hoje, estima-se que boa parte dos casos de ataques terroristas com antraz nos EUA utilize uma família da bactéria desenvolvida em solo americano.

Vivos ou não?

Outra batalha entre os republicanos e a ciência é a pesquisa para o uso de células-tronco na medicina. Uma célula-tronco é como um coringa, pois tem a capacidade de se transformar em um grande número de diferentes tipos de células. Isso possibilita que as células-tronco sejam usadas como uma espécie de sistema de reparos para o corpo, já que podem tomar o lugar de células danificadas. Hoje, é impossível iniciar uma linha de reprodução dessas células sem o uso de um embrião humano. Para a ciência, embriões não são considerados seres vivos. O problema é que, segundo o cristianismo, a vida se inicia no momento da fecundação, ou seja, destruir um embrião, na visão da Igreja, seria como matar um bebê. Assim, os republicanos são contra a pesquisa, pois a consideram “criminosa perante Deus”.

Vale a pena ler

The Republican War on Science, Chris Mooney, Basic Books, EUA, 2005

Sex, Drugs and DNA: Science Taboos Confronted, Michael Stebbins, MacMillan, EUA, 2006