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Primeira mulher do continente: Genes anunciam a Eva americana

Estudo mostra que a primeira mulher chegou à América do Norte nada menos que 20 mil anos antes do que se pensava.

Durante muitas décadas prevaleceu a idéia de que os índios não vivem na América há muito tempo. Pré-históricos, mas relativamente desenvolvidos, os primeiros índios seriam migrantes asiáticos numa época em que as tribos podiam cruzar o mar junto ao Alasca, sobre o leito raso do Estreito de Bering. Um período glacial havia retirado água dos oceanos, ao transformá-la em gelo, e fez com que o fundo do Estreito viesse à tona. E natural, portanto, a agitação causada pela notícia de que a primeira mulher chegou à América nada menos de 20 000 anos antes do que se pensava.

Mais do que isso: os pioneiros não estacionaram nos locais mais próximos à sua entrada, no Canadá ou norte dos Estados Unidos. Em vez disso, diante de um vasto continente vazio, eles se espalharam de imediato e alcançaram rapidamente a América do Sul. Tanto que as ancestrais das mulheres ianomâmis, na Amazônia, estariam entre as tataravós de todos os grupos indígenas da América. É o que mostram fragmentos de genes extraídos de mulheres em 24 grupos humanos – “populações encontradas desde o Alasca até a Argentina”, gaba-se um dos autores da pesquisa, o geneticista Antônio Torroni, da Universidade Emory, nos Estados Unidos.

O impacto dos novos dados promete causar surpresa equivalente ao da descoberta, há alguns anos, de que a primeira mulher da espécie humana provavelmente era negra e viveu na África. Talvez a celeuma seja até maior, pois o debate na América é acirrado, diz o arqueólogo David Meltzer, da Universidade Metodista do Sul, na Califórnia, Estados Unidos. “Não há nenhum acordo entre os cientistas.”

O limite tradicional para a entrada do homem na América são 12000 anos – data bombardeada, nos últimos anos, pelo achado de antiquíssimos fósseis e instrumentos. A datação mais antiga, feita no Piauí, em São Raimundo Nonato, supera os 40 000 anos, de acordo com a arqueóloga brasileira Niéde Guidón, da Universidade de São Paulo. A esses petardos juntam-se os novos dados genéticos, de efeito arrasador. Basta ver os números estimados por Douglas Wallace, chefe da equipe integrada por Torroni e também da Universidade Emory.

Para ele, os primeiros índios chegaram ao continente entre 21 000 e 42 000 anos – ou seja, pelo menos o dobro do limite tradicional e em boa concordância com os achados arqueológicos recentes. É possível que já então o leito do Estreito de Bering estivesse à tona. Wallace não sabe descrever o povo pioneiro, mas acredita que sejam ancestrais das tribos do tronco lingüístico denominado ameríndio (veja o gráfico) ao qual pertencem os ianomâmis, os pimas do Peru e os maias do México. Isso exclui os povos de fala naDene, como os navajos, e de fala eskaleut, como os esquimós, que teriam chegado depois dos ameríndios. A título de comparação, a equipe de Wallace investigou dez tribos asiáticas cujas mulheres portam quatro fragmentos genéticos raros, que não existem nas européias ou africanas. Mas toda índia americana traz pelo menos um desses fragmentos em suas células. As de fala ameríndia têm todos os quatro fragmentos, uma indicação de sua maior antigüidade.