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Revistas mudam vidas

Editorial da edição de outubro da SUPER

Denis Russo Burgierman, diretor de redação

Senti um nó na garganta na primeira vez em que encontrei o Gil, há alguns meses. Ele parecia feliz e, salvo uma discreta rigidez na expressão, saudável. Pedimos café, ele acendeu um cigarro e contou que, se não fosse a SUPER, estaria morto.

Em 1999, Gil começou a sentir espasmos musculares e dores nos nervos. Foi a um médico e recebeu a notícia de que tinha esclerose múltipla, uma doença dolorosa, progressiva, incurável e letal. O médico olhou-o com frieza, avisou que não havia esperança de sobrevivência, disse que não fizesse planos para o futuro e que aproveitasse a vida que lhe restava, sem excessos, enquanto aguardava a inevitável progressão da doença, que logo lhe tiraria a capacidade de andar.

Gil ficou arrasado e se recolheu. Três anos depois, leu uma reportagem que publicamos na SUPER sobre maconha, que falava dos usos medicinais da droga, reconhecidos pela comunidade científica, mas proibidos no Brasil, por estarem em conflito com as leis antidrogas. Ficou sabendo na revista que a esclerose múltipla é uma das doenças que melhor respondem ao uso médico da cannabis. Gil não gostava de drogas, mas aprofundou sua pesquisa, iniciou um tratamento então absolutamente ilegal e resolveu enfrentar a doença. Daí para frente, ouviu muitos médicos dizerem-lhe para perder as esperanças e muitos amigos criticarem seu hábito ilícito. Guardou a revista por anos, para mostrar a quem o criticasse.

Com ajuda do remédio ilícito, Gil foi aprendendo a manter a doença sob controle. Sobreviveu. E vive bem. Desobedeceu os médicos e arrumou um emprego. Encontrei-o no café num intervalo do trabalho.

Doze anos atrás, quando publicamos a matéria, tivemos muita dor de cabeça. O Ministério Público nos investigou por apologia às drogas, meu chefe teve de dar depoimento na delegacia, muita gente cancelou a assinatura ou escreveu para nos acusar de irresponsabilidade. Fomos muito questionados. Estava certo falarmos abertamente de assuntos tão delicados? Será mesmo conveniente fornecer informação sobre temas tabu?

Nossa resposta sempre foi “sim”. Nossa missão na SUPER é reunir e disseminar informação séria e profunda de um jeito leve e divertido. Histórias com a de Gil, assim como tantas outras – meninos que escolheram a carreira por causa de algo que leram na revista, ou que passaram no vestibular por algo que aprenderam aqui, ou que reataram com alguém amado por causa de uma dica de uma reportagem de comportamento – nos lembram quase todos os dias que informação muda o mundo. Revistas mudam vidas, de um jeito imprevisível e maravilhoso.
Aliás, Gil está estudando para o vestibular. Quer estudar design a partir do ano que vem e tem muitos planos para o futuro.