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Saber mais de um idioma pode ajudar crianças autistas

Ser bilíngue pode melhorar o desenvolvimento cognitivo de crianças com Transtorno do Espectro Autista

A rotina é a melhor amiga das pessoas autistas – cumprir sempre a mesma ordem nas atividades diárias é um caminho seguro para fugir dos imprevistos e lidar melhor com as tarefas do cotidiano.

Digamos que uma criança com espectro autista tenha o hábito de tirar seus materiais escolares da mochila e organizá-los na mesa antes de qualquer outra atividade em sala. Mas se em um determinado dia, seus professores sugerirem que a turma tenha uma aula ao ar livre, sem cadernos ou lápis, é provável que essa criança se sinta perdida, frustrada ou ache difícil prestar atenção na lição porque as coisas não saíram conforme ela tinha previsto.

Essa dificuldade de passar de uma atividade a outra sem perder a concentração é comum entre pessoas autistas. Mas um novo estudo, publicado no periódico científico Child Development, demostrou que se a criança souber um idioma além da sua língua mãe, essa leve mudança na rotina que é a troca de atividades pode ser menos drástica – e acontecer mais naturalmente.

O Transtorno de Espectro Autista (TEA) é uma condição que altera o desenvolvimento neurológico. As principais funções afetadas são: comunicação e interação social; criação de padrões de restrição e repetição de comportamento, interesses e atividades. Os sintomas podem aparecer logo nos primeiros meses de vida. Por ser um distúrbio crônico e não necessariamente uma doença, não existe cura nem tratamento padrão para a condição. Cada pessoa diagnosticada com TEA precisa de acompanhamento individualizado para que possa se adaptar ao convívio social e desenvolver melhor suas habilidades.

A pesquisa realizada pela Universidade McGil, no Canadá, demonstrou que crianças autistas bilíngues aumentaram a flexibilidade cognitiva, se comparado àquelas que sabiam falar apenas um idioma. Em comunicado, a autora do estudo Aparna Nadig disse que nos últimos 15 anos existe um debate significativo sobre as vantagens do bilinguismo para o desenvolvimento das funções executivas. “Alguns pesquisadores defendem que ser bilíngue e passar de um idioma ao outro inconscientemente, durante a comunicação, aumenta a flexibilidade cognitiva. Até agora, ninguém tinha publicado uma pesquisa que demonstrasse que essa vantagem também se estende às crianças com espectro autista. Por isso, a descoberta é tão emocionante”.

Para chegar a esses resultados, a equipe de Aparna Nadig comparou 40 crianças de seis a nove anos. Eles foram divididos em quatro grupos: 20 eram bilíngues, sendo 10 deles autistas; os outros 20 falavam apenas um idioma, e metade deles também era autista. Os pesquisadores pediram para que cada um classificasse por cor coelhos azuis e barcos vermelhos que apareciam na tela de um computador. Em seguida, pediram para repetir a tarefa – mas usar o formato dos objetos como critério para agrupá-los (barcos vermelhos e azuis – coelhos vermelhos e azuis ao invés de barcos e coelhos azuis – barcos e coelhos vermelhos).

As crianças bilíngues com TEA tiveram um desempenho melhor na segunda etapa do teste, considerada mais complexa, se comparado aos colegas que falavam apenas uma língua. O fato do grupo bilíngue e autista ter ido bem nessa atividade significa que eles conseguiram manter a atenção entre uma tarefa e outra. Apesar da pequena amostra de participantes no estudo, os cientistas acham que a “vantagem bilíngue” vista no estudo é bastante relevante e deve continuar sendo estudada.

A conclusão dos canadenses pode mudar a forma como as escolas e famílias de crianças autistas tratam o ensino de línguas estrangeiras. Até então, os pedagogos não incentivavam autistas a aprenderem um segundo idioma, porque poderia atrapalhar o aprendizado da língua nativa e atrapalhar o desenvolvimento da comunicação.

“Mas há um número crescente de famílias com crianças com TEA que valorizam o uso de duas ou mais línguas e, como sabemos, em sociedades bilíngues como a nossa em Montreal, falar apenas uma língua pode ser um grande obstáculo na idade adulta para oportunidades de emprego, educação e socialização “, disse a coautora da pesquisa, Ana Maria Gonzalez-Barrero.

Quem sabe, a partir de agora mais pais e profissionais de educação encarem o conhecimento de uma nova língua não só como uma maneira para amenizar os sintomas do autismo, mas como uma ferramenta para que a criança possa ser mais autônoma e independente – seja no Canadá ou aqui.