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Sonhos: como controlar os seus

Toda noite, você passa mais de uma hora mergulhado nas situações mais insólitas. Mas e se você pudesse despertar dentro delas e assumir o comando dos seus sonhos? Conheça a neurociência, e as técnicas, de uma das experiências mais radicais que existem: os sonhos lúcidos.

Os sonhos são a realização de desejos ocultos. Quem disse isso foi Freud, em 1899 (depois de um sonho no qual ele descobria como curar uma paciente). E você já deve ter percebido que, muitas vezes, é assim mesmo. Todo mundo já teve sonhos inesquecíveis, daqueles em que você mergulha em aventuras e romances, vive situações felizes e passa até por experiências surreais – como viajar no tempo, ganhar na loteria, reencontrar parentes falecidos, etc. Essas coisas acontecem com mais frequência do que se imagina: passamos 1h20 sonhando, em média, a cada noite. Só que esquecemos da maior parte. Mas e se você pudesse não apenas se lembrar dos seus sonhos, como também controlá-los? Essa é a proposta dos sonhos lúcidos, em que você fica consciente e pode fazer o que quiser.

A expressão “sonho lúcido” foi cunhada pelo psiquiatra holandês Frederik van Eeden, em 1913. Ele gostava de analisar os próprios sonhos, e ficava especialmente encantado com aqueles em que conseguia, em suas próprias palavras, “agir voluntariamente”. Mas o fenômeno só começou a ganhar a atenção da ciência no começo dos anos 1980, quando o psicólogo alemão Paul Tholey definiu as três condições que definem um sonho lúcido: ter a consciência de estar sonhando, poder tomar decisões nele e conseguir memorizar o que aconteceu. Começaram a surgir estudos sobre o tema e, nessa mesma época, o psicólogo Stephen LaBerge, da Universidade Stanford, desenvolveu as primeiras técnicas para estimular sonhos lúcidos. Ele escreveu um best-seller e começou a dar aulas sobre o tema, mas não abandonou a pesquisa científica. No ano 2000, publicou um estudo mostrando que as pessoas podiam se comunicar enquanto estavam sonhando. Os voluntários iam dormir e, assim que despertassem dentro de algum sonho, deveriam mexer os olhos para os lados, seguindo uma coreografia previamente definida. Incrivelmente, deu certo. Eles estavam mesmo dormindo e sonhando (o que foi constatado pelo monitoramento de suas ondas cerebrais). Mas, ao mesmo tempo, estavam acordados – dentro do sonho.

A ciência ainda não sabe como isso acontece, mas tem algumas pistas. Vamos imaginar a seguinte situação: você trabalhou o dia todo e só parou para almoçar (peixe frito com salada), mas ao voltar para casa cruzou, na rua, com um amigo que não encontrava havia vários anos. Essas experiências todas ativam determinados neurônios, que formam conexões semipermanentes entre si. Essas conexões são as suas memórias. Quando você dorme, o cérebro desfaz algumas delas, apagando as informações que ele considera menos relevantes (como o que você comeu no almoço) e mantendo apenas as coisas importantes, como o nome daquele amigo que você reencontrou. Esse processo de reorganização de memórias se chama homeostase sináptica – e acontece na terceira das quatro fases do sono, a que antecede os sonhos. Isso pode explicar por que as situações que vivemos durante o dia reaparecem, muitas vezes distorcidas, quando sonhamos.

Quando a pessoa fica consciente dentro de um sonho, a coisa vai um pouco além. Um estudo feito pela Universidade de Bonn, na Alemanha, constatou que durante os sonhos lúcidos o cérebro emite ondas elétricas de 40 Hertz, a mesma frequência de quando estamos acordados (os sonhos normais têm ondas mais lentas, de 6 a 10 Hz). Ou seja, o sonho lúcido é um estado intermediário entre dormir e estar acordado.

COMO TER SONHOS LÚCIDOS
Técnica deve ser praticada todo dia; resultados começam após uma ou duas semanas

1. Ao acordar, não abra os olhos nem pense. Só tente se lembrar do sonho que estava tendo. Lembrou? Anote tudo.

2. Durante o dia, mentalize a situação de você tendo um sonho lúcido. Imagine como aquilo seria legal, o que você faria, etc.

3. Também de dia, faça “checagens de realidade”. Pare tudo e pergunte a si mesmo: “esta situação é real, ou estou sonhando?”

4. Eventualmente, a pergunta “estou sonhando?” aparecerá num sonho. Você irá respondê-la – e, ao fazer isso, ficará consciente dentro do sonho.

E esse estado é produzido por duas regiões cerebrais: o córtex frontopolar e o hipocampo, que ficam mais ativos. Foi essa a descoberta de cientistas do Instituto Max Planck, em Berlim, após analisar os cérebros de 31 pessoas que frequentemente têm sonhos lúcidos. O córtex frontopolar e o hipocampo são regiões cerebrais relacionadas à “metacognição”: a capacidade que toda pessoa tem de observar e controlar os próprios pensamentos. Sabe quando você está preocupado ou ansioso, por exemplo, e faz um esforço consciente para controlar os seus pensamentos e se acalmar? O sonho lúcido é uma ação similar; só que executada durante o sono.

E ele é muito mais comum do que se imagina. Um questionário online elaborado pelo Instituto do Cérebro da UFRN, que foi respondido por mais de 3 mil pessoas, revela que 77,2% dos brasileiros já tiveram um sonho lúcido. Um fenômeno surpreendentemente comum, mas ao mesmo tempo raro: a grande maioria dessas pessoas teve pouquíssimos sonhos lúcidos, de um a dez, ao longo da vida inteira. Tudo indica que, nesses casos, aconteceu sem querer. “Os sonhos lúcidos podem ser involuntários ou voluntários”, explica o neurocientista Sérgio Arthuro Mota-Rolim, autor da pesquisa.

Existem várias técnicas para induzir os sonhos lúcidos, mas elas podem ser resumidas em instruções bem simples. Elas realmente funcionam, com uma ressalva: “Não dá para escolher o que você irá sonhar”, afirma Mota-Rolim, da UFRN. Ao despertar dentro de um sonho, a pessoa se vê dentro de uma situação que já está acontecendo. Você fica consciente, decide como vai reagir e o que vai fazer a partir dali, mas o contexto do sonho já está determinado quando ele começa. Se você costuma sonhar que está voando, por exemplo, poderá assumir o controle do voo. Mas, se nunca sonhou com essa situação, não adianta tentar forçá-la.

Por isso, há quem acredite que o melhor a se fazer é acompanhar o fluxo do sonho, tentar entender seu significado e só então interferir com ele. “Eu não gosto da noção de ‘controle’ dos sonhos. Gosto da possibilidade de ter escolhas conscientes dentro de uma narrativa. Pode ser muito libertador”, diz a austríaca Brigitte Holzinger, diretora do Instituto de Pesquisas da Consciência e dos Sonhos, em Viena.

Como você não escolhe o enredo dos sonhos lúcidos, é bom saber do outro lado da moeda: eles podem facilmente se transformar em pesadelos lúcidos [leia no texto ao lado]. Por isso, é aconselhável encarar a prática com cautela. “Ninguém precisa ter sonhos lúcidos toda noite”, diz Holzinger. “E, ao tê-los, você precisa saber que aquele é o seu mundo psicológico. Não o mundo real.”

Eu aprendi a despertar nos sonhos

Não costumo nem me lembrar do que sonhei. Mas decidi passar um mês tentando aprender a controlar meus sonhos. Consegui, e isso me surpreendeu bastante. O desfecho, mais ainda. A seguir, acompanhe os momentos mais importantes. (Bruno Garattoni)

 (Matheus Bitencourt /Superinteressante)

5º DIA
Depois de quatro dias aplicando as técnicas para ter sonhos lúcidos, me lembro detalhadamente de um sonho pela primeira vez. Nele, acabei de comprar um apartamento. Abro a porta e vejo que os cômodos ficam dispostos de um jeito bizarro: a sala tem o formato de círculo, e metade dela é descoberta. Mesmo assim, minha esposa e eu ficamos superfelizes. Depois de algum tempo, acontece um terremoto e o prédio desaba. Conseguimos sair, mas perdemos tudo – e pensamos em como recomeçar. Também tenho outro sonho, menos traumático: encontro o diretor da firma num evento de trabalho, que se passa num híbrido de estádio de futebol com shopping (as lojas ficam nas bordas do campo).

9º DIA
No sonho de hoje, pessoas da minha família e do trabalho estão alvoroçadas por causa de duas baratas e uma aranha caranguejeira, que pedem para eu matar. Extermino as baratas com um chinelo, mas fico com medo da aranha. Depois de um tempo criando coragem, vou enfrentá-la e percebo que é apenas um simpático e inofensivo siri. Não me lembro de ter ficado consciente no sonho – mas lembro que tomei a decisão de não matar o siri.

14º DIA
Tenho dois sonhos. No primeiro, sou jornalista e tiro fotos exclusivas da assassina Suzane von Richthofen indo almoçar. No segundo sonho, estou num churrasco. Tem cerveja, tem carne, tem meus amigos. Mas me sinto meio desconfortável, e descubro o porquê: é dia de semana e estou faltando ao trabalho. Ora, meus amigos jamais fariam churrasco num dia útil… Isso me faz indagar se aquela situação é real ou uma ilusão – a pergunta mágica que, supostamente, faz a pessoa despertar dentro do sonho. Mas, antes que consiga responder, eu acordo.

 (Matheus Bitencourt /Superinteressante)

21º DIA
Estou numa cidade europeia. Uma multidão começa a correr e gritar. Acho que é um atentado, e começo a correr. Um tempo depois, paro e olho para o lado. Vejo outra pessoa, que também estava fugindo: o presidente russo, Vladimir Putin. Penso: isso é bizarro, não pode ser real. Nesse momento, desperto dentro do sonho. Eu sei que estou em casa, dormindo na cama, e aquilo é falso. Mas, ao mesmo tempo, é tão real quanto a própria vida. Fico perplexo – e eufórico. Essa consciência dura uns 10 segundos, e o sonho acaba.

22º DIA
Uma colega de trabalho vai se casar e quer que eu organize a cerimônia: alugue um local, contrate banda, etc. Não faz sentido: e, por isso, percebo que estou sonhando. Resolvo descer para o térreo. Um táxi para na porta, resolvo entrar. Ele não me pergunta onde quero ir. Pega a avenida 23 de Maio, em São Paulo, e tenta puxar conversa: “Estão exagerando no número de feriados, né?”. Concordo; e o sonho termina.

29º DIA
Estou num prédio enorme, que não tem elevador: só uma rede de escadas-rolantes com dezenas de andares. Chego ao trabalho, mas não reconheço o lugar. O escritório é sujo e bagunçado, com PCs velhos. Eu e um amigo somos os únicos brasileiros a trabalhar ali. Sento na minha mesa e começo a trabalhar – fazendo o quê, não sei. Desvio o olhar da tela e vejo que não estou mais com a roupa de trabalho: visto camiseta, bermuda e chinelo. Percebo que estou num sonho; e resolvo explorá-lo. Saio do prédio e pego um táxi. O carro bate e capota. Sinto todos os trancos, em câmera lenta. Eu sobrevivo, claro. Mas o motorista morre, e o cara do outro veículo também. Ninguém faz nada, parecem não ver. Sinto que morri e virei um espírito. Procuro me acalmar lembrando que nada daquilo é real, mas vou ficando angustiado. Pisco os olhos e estou em outro lugar, um consultório. Tento explicar ao médico o que está acontecendo. Indiferente, ele diz que aquilo não é sonho; é uma crise de pânico, e vai me dar um remédio. O sonho continua por horas intermináveis, durante as quais ninguém acredita em mim. Até que um policial aparece. Ele briga comigo, fica mais agressivo e ameaçador, até que assume um aspecto psicodélico e apavorante: quatro metros de altura, olhos e mãos gigantes. Nunca senti tanto medo. Preciso acordar. Noto que, se jogar minha cabeça para a frente, a imagem do sonho se desmancha. Jogo a cabeça para a frente com mais força até que, na terceira tentativa, o sonho desaparece – e me vejo sentado na cama. Acordei. Acabou. Ufa. Desde aquele dia, nunca mais tentei catalogar, ou controlar, meus sonhos. Hoje, quando acordo, não me lembro de praticamente nada. Dou graças a Deus – e aos misteriosos mecanismos do cérebro humano – por isso.

 (Matheus Bitencourt /Superinteressante)

Modelo Aline de Oliveira
Maquiagem Anderson Ayres
Assistente de maquiagem Marcio Garcete