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Tempo livre é bom – mas tempo livre demais diminui seu bem-estar

Não adianta ter 5 horas de ócio e gastá-las em frente às telas. De acordo com estudo, pessoas que utilizam a folga de maneira produtiva são mais saudáveis psicologicamente.

Por Carolina Fioratti 10 set 2021, 16h55

Em meio a uma rotina agitada, é comum que as pessoas se sintam soterradas por tarefas e sem tempo livre para curtir a família ou sua própria companhia. Essa situação pode desencadear quadros de estresse e ansiedade, levando a crer que o ócio absuluto seria a melhor opção. Mas a história não é bem essa: um estudo publicado no periódico científico Journal of Personality and Social Psychology mostra que o tempo livre em excesso pode diminuir a sensação de bem-estar do indivíduo.

Vamos entender essa história. Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, resolveram revisitar dois estudos antigos para estudar as relações entre tempo livre e bem-estar. Afinal, um descanso de uma hora parece mais satisfatório do que o mesmo tempo no escritório. Eles começaram por um relatório retirado do American Time Use Survey (“pesquisa americana de uso do tempo”), que somava dados de 21 mil participantes.

Eles relataram suas atividades a cientistas entre 2012 e 2013, contando sobre sobre o que haviam feito nas últimas 24 horas antes da entrevista, o tempo gasto em cada tarefa e também sobre como estavam se sentindo. 

Os pesquisadores também utilizaram o Estudo Nacional da Mudança da Força de Trabalho dos EUA, que continha dados de 13 mil participantes coletados entre 1992 e 2008. Neste formulário, havia questões referentes ao tempo livre de que cada um dispunha e como estava a satisfação dos voluntários com suas próprias vidas – eles respondiam usando uma escala de 1 a 4, que ia de muito satisfeito até muito insatisfeito.

No final, os pesquisadores constataram que o período diário de 2 horas de lazer parecia ser benéfico aos indivíduos, mas os benefícios paravam quando o tempo de ócio ultrapassava as 5 horas. De acordo com os cientistas, a queda do bem-estar em pessoas com muito tempo livre ocorria devido à falta de senso de produtividade e propósito. 

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Este sentimento abre espaço para um porém: as horas livres podem ser mais positivas quando utilizadas de maneira produtiva. Essa observação foi reforçada por dois experimentos online feitos pelos pesquisadores, que reuniram dados de mais de seis mil voluntários. No primeiro, os participantes “ganhavam” um tempo extra imaginário, que poderia ser de 15 minutos (baixo), 3,5 horas (moderado) ou 7 horas (alto). Este tempo poderia ser utilizado todos os dias nos seis meses subsequentes. Após fantasiar com estes cenários, os participantes deveriam relatar até que ponto sentiram felicidade e satisfação com a rotina dos sonhos.

  • Com este primeiro teste, os pesquisadores concluíram que os participantes dos grupos baixo e alto relataram uma sensação de bem-estar inferior àqueles do grupo moderado. Então, entraram na questão da produtividade com o segundo experimento: agora, as pessoas só teriam 3,5 horas (moderado) ou 7 horas (alto) de ócio por dia. Além da divisão por tempo, também era atribuído aleatoriamente aos voluntários se passariam o tempo de forma produtiva (malhando ou tricotando, por exemplo) ou usariam o período de forma improdutiva (assistindo televisão e usando o computador). 

    Os participantes que receberam as 7 horas diárias para serem gastas em tempo improdutivo relataram um baixo nível de bem-estar. Por outro lado, as pessoas com mais tempo livre que se engajaram em atividades produtivas tinham sentimentos semelhantes àquelas que receberam tempo livre moderado. Nada como um tempo bem gasto.

    Vale alertar para alguns pontos: os dados mais recentes retirados das pesquisas anteriores eram de 2013, oito anos atrás. As redes sociais já existiam, mas não eram utilizadas nas mesmas proporções de hoje. Em resumo, elas podem não ter sido tão consideradas na rotina das pessoas como seriam atualmente. Além disso, as experiências online feitas posteriormente apenas levavam os voluntários a imaginar cenários, e não vivê-los. As informações foram retiradas a partir do que as pessoas acham, o que pode ou não refletir a realidade. 

    Os pesquisadores também não conseguiram definir o tempo livre exato para garantir o bem estar. Duas horas parece bom, mais que cinco já era exagero. O período entre um e outro não apresentou vantagens extras. De toda forma, os cientistas reforçam a importância de manter o equilíbrio: além do trabalho, tente adicionar atividades físicas ou mentalmente envolventes na rotina, como o estudo de um instrumento musical ou algumas horinhas na cozinha. Usar o tempo em atividades sociais, envolvendo família e amigos, também foi visto como vantajoso.

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