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Uma central de operações desata os nós do trânsito

Como funciona a CET, Companhia de Engenharia de Tráfego, para que São Paulo não pare em imensos congestionamentos.

Por trás dos semáforos e das placas de sinalização, homens e computadores não deixam São Paulo parar.

Pelas ruas, alamedas e avenidas da cidade de São Paulo circulam diariamente 4,3 milhões de veículo: um quarto de toda a frota brasileira, concentrado apenas 1493 quilômetros quadrados. Uma quantidade dessas daria para formar uma fila indiana de veículos do Oiapoque ao Chuí. Desses, pelo menos dois milhões estão Cem constante vaivém, disputando com 8000 ônibus do transporte coletivo, 2800 quilômetros de vias pavimentadas. E a cada ano que passa a cidade recebe mais 300 000 veículos.

Para coordenas esse encrencado tráfego, um especializado trabalho de engenharia controla semáforos, placas e sinais de trânsito. Técnicos, engenheiros e modernos computadores se empenham todos os dias na batalha para prevenir o colapso de uma malha viária abarrotada. A primeira idéia que se tem desse complexo urbano é de que ele se assemelha a um organismo com hipertensão arterial, atrelado a tubos e sondas, dentro de uma UI hospitalar, onde dedicados médicos e enfermeiros estão envolvidos de uma forma ou de outra numa delicada missão de salvamento.

Na verdade, os médicos e enfermeiros são 2500 funcionários da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), auxiliados pó mais de 3500 policiais. Criada em 1976, pelo prefeito Olavo Setúbal, a CET tinha como tarefa desenvolver projetos para melhorar a estrutura viária de São Paulo. De lá pra cá muita coisa mudou: a cidade se expandiu, a população aumentou e o trânsito também. Cinco anos atrás, diante do já confuso tráfico paulistano, o então secretário municipal de Transportes, Roberto Scaringella, afirmava alarmado: “Para mudar esse quadro, são necessárias centenas de pequenas ações e algumas grandes obras”. Nos últimos dez anos, as grandes obras não saíram do papel. Já as pequenas ações são comandadas pela CET. Todos os dias e noites, num trabalho quase anônimo, 64 funcionários se revezam nos 47 postos de observação – os PACs, Postos Avançados de Campo – situados no alto de alguns edifícios estrategicamente distribuídos pela cidade. Dessa equipe, formada basicamente por estudantes de Engenharia e Arquitetura, 14 são mulheres. Para ser um agente de informação do PAC, como são chamados, não é necessário experiência anterior, basta ser maior de idade, ter o 2º Grau completo e ser aprovado em concurso público.

Munidos de Binóculos e aparelhos de radiocomunicação, esses agentes rastreiam permanentemente as ruas e avenidas. Marcelo Schmidt, 19 anos, é um deles. No ponto mais alto da Praça da Itália, no Jardim Paulistano, ele observa o movimento danas avenidas Rebouças, Faria Lima, Eusébio Matoso, Cidade Jardim e na Marginal Pinheiros. “Estou sempre atento, pronto a chamar uma viatura casa haja algum problema.” Marcelo lamenta apenas ter de trabalhar durante seis horas totalmente sozinho.

Não muito longe dali, Angelina Christe, 27 anos, vigia, do alto do Edifício Vila Rica, na Rua Santa Rosa Júnior, Jardim Everest, o que acontece nas avenidas Vital Brasil, Corifeu de Azevedo Marques, na Marginal Pinheiros e na Rodovia Raposo Tavares. “Há quatro anos aqui em cima, até já perdi o medo de tempestades e ventos fortes. Afasto a solidão lendo e estudando”. Como Marcelo, Angelina também estuda Engenharia. Tanto eles como todos os outros agentes dos PACs estão sempre em contato direto com a Central de Operações, instaladas na Rua Bela Cintra, bairro de Cerqueira César. Ali, modernos computadores, engenheiros e técnicos registram e combinam as informações que chegam de todos os pontos da cidade: tanto dos PACs quanto das viaturas de apoio e da própria população, que tem à disposição o telefone 194. Além disso, detectores instalados no asfalto dos cruzamentos mais movimentados fazer uma contagem magnética dos veículos que passam, por meio de um fio-cabo.

No quartel-general da Bela Cintra, que em seu interior mais parece uma nave espacial, um simples apertar de botão traz à tela de um vídeo a reprodução de um cruzamento qualquer e os vários índices sobre o fluxo de transito naquele momento: quantos veículos passam por hora, qual a diferença em relação ao normal etc. trata-se de um minucioso sistema que detecta o menos indício de um colapso – nem sempre o inevitável, principalmente quando chove na cidade na tentativa de disciplinar esse turbilhão de veículos, os funcionários da CET contam com 3600 semáforos para ajudá-los. Mas desses só 500 são computadorizados, o que representa 14% do total.

Um percentual baixo, se comparado ao das grandes metrópoles do Primeiro Mundo. Em Tóquio, por exemplo, 75% dos semáforos são computadorizados. As vantagens em relação aos faróis eletromecânicos são muitas: os computadorizados conseguem identificar e corrigir mais rapidamente os defeitos e dimensionam e sincronizam melhor o tempo de sinalização verde nos cruzamentos. A sincronização é feita pelos detectores no asfalto que medem o volume de tráfego nos cruzamentos. Porém, cerca de 60% desses detectores estão rompidos, lembra Irineu Gnecco Filho, gerente de Telecomunicações da CET. Para o próximo ano, a companhia pretende dobrar o número desses semáforos. Quando um deles quebra, muitas vezes o conserto é feito pelos computadores da própria central. Mas há pelo menos vinte casos diários – de lâmpadas queimadas, por exemplo – em que o quartel-general tem de acionar as equipes de manutenção.

Para isso, existe um contato permanente com as viaturas que estão na rua. Todas as informações sobre a situação do transito são imediatamente repassadas aos repórteres das emissoras de rádio que mantêm ali cabines exclusivas. Assim, a população é quase imediatamente avisada sobre as ruas a evitar e os melhores caminhos a seguir. Mas no futuro será praticamente impossível operar uma única central de trânsito. “Por isso, já se estuda a possibilidade de criar centrais regionais em bairros com tráfego intenso, que poderão ter seus próprios sistemas de semáforas computadorizados”, explica o responsável pelos PACs, Domingos Bispo de Oliveira. Formado em Matemática, Bispo está na CET há treze anos.

“O primeiro passo nesse sentido já foi dado e a cidade foi dividida em seis áreas”, conta o engenheiro civil Manoel Victor de Azevedo Neto, aos 39 anos já no cargo de superintendente da CET. A divisão acompanha os limites das divisões administrativas da Prefeitura. Cada uma dessas áreas realiza os serviços de implantação e manutenção de sinalização. Mas só o trabalho da CET não é suficiente. “È necessário dar mais atenção à educação. Nunca iremos conseguir um trânsito disciplinado se não educarmos as crianças e os estudantes, nossos futuros motoristas”, adverte Azevedo Neto. Por isso, a Prefeitura paulistana já tomou suas providências e implantou, no ano passado, o Espaço Vivencial de Transito. Ali, pedagogos e técnicos especialmente preparas para a tarefa preparam os alunos das escolas da cidade para serem bons e obedientes motoristas e pedestres.

Francisco de Assis Monteiro