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Uma corrida maluca para a lua

Várias equipes espalhadas pelo mundo lutam para vencer o Google Lunar XPrize e fazer o primeiro voo privado para a Lua. Mas será que alguém vai chegar lá?

Parece uma reedição modernizada da Corrida Maluca, o desenho: um punhado de equipes de entusiastas da exploração espacial espalhadas pelo mundo estão chegando à reta final de uma longa disputa: a batalha para pousar a primeira espaçonave privada na Lua e, de quebra, enviar de lá imagens em alta resolução.

Ao vencedor, caberá um prêmio de US$ 20 milhões, bancado pelo Google. Se houver um segundo colocado, ele leva para casa US$ 5 milhões. O prazo final para lançamento é 31 de dezembro de 2017 e, francamente, nem mesmo quem está na disputa tem convicção de que haverá um vencedor. Mas não será por falta de tentativas.

Os critérios para ganhar o prêmio são exigentes: a nave precisa ir até a Lua, pousar, se deslocar por pelo menos 500 metros na superfície e transmitir fotos e vídeos em HD direto do lar de São Jorge.

Pode parecer trivial, depois de nos acostumarmos a ver jipinhos da Nasa avançando sobre o terreno pedregoso de Marte, um mundo pelo menos 200 vezes mais distante que a Lua (a 80 milhões de quilômetros da Terra, contra “meros” 400 mil quilômetros da Lua). Mas com a grana da Nasa tudo fica mais fácil. O último rover marciano, o Curiosity, custou US$ 2,5 bilhões.

Vamos combinar que nem mesmo o Dick Vigarista acharia ok a ideia de gastar uma quantia bilionária para ganhar US$ 20 milhões. A chave do sucesso do Google Lunar XPrize é a busca por soluções baratas de acesso ao espaço. A questão é: estará a tecnologia suficientemente madura para permitir isso?

Criada em 2007, a premiação já nasceu otimista. Os organizadores tinham estabelecido como prazo original para as equipes o ano de 2012. Se passasse disso, o valor para o vencedor caía para US$ 15 milhões. Se ninguém colocasse um jipinho na Lua até 2014, ninguém vencia e zé fini. Mas, quando viram que não iria rolar, os membros da comissão julgadora resolveram estender os prazos. E 2017 foi escolhido como o ano final. Agora, ou vai ou racha.

Racha?

A empresa americana Astrobotic, uma das equipes que toparam a disputa, tem planos grandiosos para a Lua: seu objetivo é desenvolver um módulo de pouso lunar de baixo custo e então promover missões comerciais ao satélite natural, com os mais diversos objetivos – exploração científica, desenvolvimento tecnológico, mineração e entretenimento são algumas das possíveis aplicações para futuros clientes.

A companhia de Pittsburgh chegou a ganhar prêmios de ínterim da comissão do Lunar XPrize em 2015, no valor de US$ 1,75 milhão, por atingir certos marcos tecnológicos. Mas então veio uma bomba: a empresa anunciou em dezembro de 2016 que estava se retirando da competição.

“Não vamos assinar um contrato  com um fabricante de foguetes na correria para um lançamento em 2017 para satisfazer os requerimentos necessários. Por isso, a Astrobotic tem de anunciar sua separação do Google Lunar X Prize”, declarou John Thornton, executivo-chefe da companhia, em um artigo publicado na SpaceNews Magazine. Isso não significa que eles tenham desistido da Lua.  As Astrobotic pretende mandar um robô para a Lua de qualquer jeito,  com ou sem prêmio do Google, mas só em 2019.

Outras equipes também enfrentam dificuldades. Num movimento de última hora, quatro times  anunciaram unir forças com o Synergy Moon, uma equipe internacional.

Eles já têm até um foguete encomendado, o Neptune, fabricado pela empresa americana Interorbital Systems. Ou melhor, que SERÁ fabricado – porque até hoje o tal Neptune não realizou um voo de testes sequer.

Não é preciso ser o novo Wernher von Braun para saber que é altamente improvável que um foguete de baixo custo que nunca voou vá conseguir realizar todos os testes e enviar com sucesso uma missão lunar até dezembro. Mas há grupos que, sim, têm uma chance real de chegar lá.

 (Guilherme Henrique/Superinteressante)

A SpaceIL, de Israel, foi a primeira a conseguir um contrato para voar, em outubro de 2015. Com lançamento marcado para o segundo semestre de 2017, ela voará num foguete Falcon 9, da SpaceX – a empresa do magnata Elon Musk, que promete baixar sensivelmente o custo de acesso ao espaço com seus foguetes reutilizáveis, já devidamente testados e aprovados.

O foguete é confiável, mas não basta chegar à Lua – o pequeno módulo de pouso do grupo israelense terá de pousar com sucesso. O projeto deles, curiosamente, não contempla um jipe lunar. Como eles pretendem ganhar o prêmio, então? Fazendo uma nova decolagem e um novo pouso, de modo a percorrer os 500 metros que o Google exige. Não que seja uma ideia desvairada, mas o fato é que nem a Nasa nos tempos de orçamento ilimitado fez dois pousos com uma mesma espaçonave na Lua.

Quem também espera conseguir uma carona num Falcon 9 é o grupo alemão Part-Time Scientists, que tem patrocínio da montadora Audi para levar seu jipe robótico ao solo lunar. A proposta do time é pousar seu rover próximo ao local de alunissagem da Apollo 17, a última das missões lunares tripuladas, de 1972, e registrar os artefatos que os últimos homens na Lua deixaram lá em cima. Trata-se de uma observação, além de fascinante, com alto valor científico: ninguém sabe o que acontece com objetos depois que eles passam décadas expostos ao vácuo inóspito da Lua.

O problema maior da equipe alemã é que seu contrato de voo com a SpaceX, embora já assinado, ainda não foi reconhecido pelo comitê julgador do XPrize. Talvez eles fiquem de fora da corrida por detalhes burocráticos, mas alegam que tentarão realizar a missão de todo modo.

Uma equipe que poderia ser considerada tão favorita quanto a desistente Astrobotic é a americana Moon Express – companhia que também recebeu prêmios de ínterim e realizou o teste bem-sucedido, na Terra, de seu módulo de pouso. Ela tem contrato para voar, mas com a empresa Rocket Lab, que, a exemplo da Interorbital, tem um foguete ainda não testado. O plano é realizar o voo-teste inaugural no primeiro semestre de 2017. Se tudo correr bem, talvez seja em tempo de ajudar a Moon Express a vencer.

Por fim, temos dois times voando juntos para a Lua – o indiano Team Indus e o japonês Hakuto. O contrato de voo foi obtido pelo primeiro e fará uso do foguete indiano PSLV, que já impulsionou com sucesso a sonda orbital Chandrayaan-1 à Lua em 2008. O módulo de pouso será da Team Indus, mas ele levará ao solo lunar, além de seu próprio minijipe, um do grupo japonês.

O lançamento da missão conjunta dos dois concorrentes está marcado para 28 de dezembro de 2017 – a apenas três dias do prazo final para que ela tenha direito ao Google Lunar XPrize.

O mais importante, contudo, não é nem se alguém vai ganhar, muito menos quem. O legado da competição é oferecer múltiplos desenvolvimentos em tecnologias espaciais de baixo custo. Cedo ou tarde, algumas delas serão empregadas comercialmente para permitir o avanço de empreendimentos comerciais rumo ao espaço.

No fundo, é o que aconteceu com a aviação. Há pouco mais de cem anos, tudo o que havia eram aventureiros magníficos com suas estranhas máquinas voadoras. Algum tempo depois, já tínhamos companhias aéreas, e milhões de viajantes cruzando os céus a quase mil quilômetros por hora todos os dias. O século 20, enfim, passou para a história como o início da Era Espacial, mas o 21, ao que parece, promete um salto ainda maior.
E esta corrida maluca para a Lua é um belo primeiro passo.