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Vestibular: Prova de fogo

Toda virada de ano é tempo de guerra para muitas centenas de milhares de jovens brasileiros. O alvo é um lugar na faculdade, e o campo de batalha, o temido vestibular - motivo de mudança de hábitos, de tensão e angústia que as pressões familiares apenas conseguem agravar.

Maria Inês Zanchetta

Dezembro e janeiro são meses de vestibular. Este ano, algo como 1,9 milhão de jovens estão na briga pelas cerca de 440 mil vagas existentes nas faculdades brasileiras. O exame vestibular é a culminação de meses de esforço, angústia e rotinas alteradas – um processo massacrante, desgastante, sofrido, na opinião quase unânime de educadores, psicólogos e estudantes. Mas como selecionar entre tantos candidatos os mais bem preparados, se as vagas são necessariamente menores?

A relação este ano é de aproximadamente quatro candidatos para cada vaga. Há um decênio a proporção era menor. Em 1976, por exemplo, apenas 2,47 candidatos disputavam uma vaga. Quatro por um é a média nacional. Nos cursos mais concorridos, como Medicina, os números são mais ásperos. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro a proporção é de 21 candidatos para cada vaga, e na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas nada menos que oitenta jovens competem por uma única vaga.

Supõe-se que os vencedores dessa guerra sejam os melhores – mas nem sempre é assim. Vera Guimarães, psicóloga do Curso Objetivo de São Paulo, observa: “Existem alunos preparados que não entram na primeira vez, às vezes nem na segunda, ou porque tiveram um ‘branco’ na hora ou porque no fundo estão indecisos sobre a carreira a seguir”. É sabido que a influência que a família busca exercer nessa escolha mexe bastante com as emoções dos jovens – não raro de forma negativa.

O caso de Judite Jeng, 20 anos, é um bom exemplo: “Meus pais queriam que eu fizesse Medicina e não admitiam de jeito nenhum que eu estudasse Jornalismo, como pretendia”, ela relata. “Então, no terceiro colegial, optei por Computação, porque não era nem Medicina nem Jornalismo. Apesar de me considerar bem preparada, não consegui entrar. Enquanto isso, minha irmã mais nova passou direto do colegial para a faculdade de Medicina, e minha situação ficou muito incômoda.”

Judite conta que o período em que ficou esperando pelos resultados foi o de maior agonia. “Eu nem dormia mais à espera de novas listas. Pensava em como encarar a família; parecia que eu era a pessoa mais burra do mundo”, diz ela. Reprovada, resolveu fazer o que queria de fato: Jornalismo. Passou um ano fazendo cursinho, mas nem assim entrou na Universidade de São Paulo. “Doeu muito”, lembra Judite, agora aluna de uma faculdade particular.

Na escolha da carreira, a opinião dos pais sempre pesa. Célia Horie Putini, 17 anos, que estuda em média oito horas por dia para entrar em Medicina, conta que os pais tentam tranqüilizá-la, dizendo que se não entrar não tem importância, pois a carreira que escolheu é difícil. “Mesmo assim”, diz ela, “acho que eles têm 90 por cento de expectativa de que eu passe.” No entanto, as expectativas não são exclusividade familiar e dos próprios estudantes. Célia observa que “a cobrança começa na escola: quando se é boa aluna, os professores vivem dizendo que vamos entrar. Todo mundo fica esperando por isso”.

É comum os pais prometerem recompensas aos filhos pelo esforço de passar nos exames. A jovem E.G., 19 anos, que também pretende entrar na faculdade de Medicina e prefere não se identificar, conta que o pai lhe prometeu um carro. Mas isso, para ela, não representa um estímulo, e sim uma cobrança. “Estou estudando porque quero fazer Medicina, não para ganhar um carro”, diz. Além de complicações de ordem psicológica, o vestibular também obriga o jovem a mudar de hábitos em função das horas de estudo redobradas. Paula Negreiros Abbud, 18 anos, candidata a uma vaga no curso de Arquitetura, começou no segundo semestre a fazer cursinho juntamente com o terceiro colegial. Nessa época, ela já havia deixado o curso de jazz, que lhe exigia tempo, e passou a fazer apenas ginástica.

Mas até isso ela teve de abandonar. Por achar que o cursinho não estava ajudando muito, decidiu com uma amiga estudar para valer, todos os dias, menos nos fins de semana, invariavelmente das 14 às 20 horas. “O vestibular é a pior coisa que já passei na vida”, resume Paula. “Se você se deixar levar pela neura do vestibular, vai acabar se perdendo dentro de si mesma.” Ricardo Lombardi, 17 anos, deixou de praticar esportes, ouvir discos com calma e até mesmo ler um livro durante uma tarde inteira, por causa do vestibular de Direito.

Ele assiste às aulas praticamente o dia inteiro: de manhã no colégio, à tarde no cursinho. “À noite, quando chego em casa”, diz, “dou uma olhada na matéria do cursinho e estudo mesmo para as provas do colégio.” Em sua opinião, não é tão difícil entrar na faculdade de Direito. Mas, se não conseguir este ano, “a vida não vai acabar”. Uma coisa é certa: sejam quais forem as carreiras escolhidas – menos ou mais concorridas -, os nervos dos candidatos passam por uma dura prova. Ricardo reconhece: “Qualquer coisa me irrita”. Paula Abbud concorda: “A gente fica confusa e se zanga com muita facilidade”. Para Célia Putini, “a responsabilidade é muito grande e por isso a gente renuncia até aos amigos; no vestibular você está decidindo a sua vida”, acha ela.

Invenção chinesa, os exames surgiram por volta do século X, quando imperadores da dinastia Sung idealizaram um sistema para selecionar futuros funcionários, sem os costumeiros apadrinhamentos. Pela primeira vez, o candidato era submetido a rigorosas provas, com critérios de correção igualmente severos para evitar qualquer tipo de fraude. Foram precisos oito séculos e uma revolução – a francesa – para que o sistema de seleção por mérito chegasse à Europa. No Brasil, os exames para selecionar candidatos às faculdades surgiram em 1911. Ao longo dos anos, esses concursos, como eram chamados, foram se modificando.

A professora Irene de Arruda Cardoso, que leciona Sociologia da Educação na Universidade de São Paulo, recorda que “até os anos 60 cada curso elaborava seu próprio vestibular”. Além das provas dissertativas, havia também um exame oral. “Eram formas melhores de avaliação”, acredita Irene. Na década de 70, os vestibulares foram unificados – ou seja, passaram a ser elaborados por um único órgão criado para isso. Pretendia-se, assim, evitar que um candidato disputasse mais de uma vaga no mesmo ano. Recentemente, algumas universidades, como a Estadual de Campinas e a Federal do Rio de Janeiro, decidiram elaborar seus próprios vestibulares, abandonando o sistema unificado.

Há vinte anos dirigindo vestibulares, o professor Carlos Alberto Serpa de Oliveira, presidente da Fundação Cesgranrio – que realiza os vestibulares unificados do Rio de Janeiro -, se declara contra qualquer tipo de vestibular, dissertativo ou por testes de múltipla escolha: “Os exames são feitos nas piores condições psicológicas, em três, quatro dias, com um vastíssimo programa que pretende avaliar onze anos de estudo como forma de predizer o sucesso na universidade”.

Por isso, há dois anos Serpa vem propondo uma alternativa, que de início seria aplicada em caráter experimental. Durante os três anos do segundo grau, os alunos seriam submetidos a provas semestrais, que cobririam o programa dado naquele período. Ao final do curso, todos teriam então uma nota média e em seguida fariam testes de aptidão – verbal, numérica e abstrata -, que não dependeriam de conhecimentos adquiridos na escola. Eles teriam peso pelo menos igual ao da média obtida nas avaliações semestrais. E o problema da proporção entre candidatos e vagas? Serpa lembra, a propósito, que praticamente em nenhum país do mundo a universidade está aberta para todos.

De fato, ninguém escapa ao vestibular. Nos Estados Unidos, por exemplo, a seleção se faz por meio das notas obtidas no colegial, mais um teste de aptidão e outro de conhecimentos. Já os jovens alemães são avaliados pelo abitur, como é chamado ali o rigoroso exame. Se não passarem no primeiro vestibular, no segundo só poderão concorrer à metade das vagas. Se derem o azar de não passar de novo, nunca mais poderão disputar uma vaga na universidade. No extremo oposto está a Argentina, onde o governo do presidente Raul Alfonsín acabou com os vestibulares tradicionais. Assim, qualquer estudante que tenha concluído o segundo grau pode entrar no chamado ciclo comum básico da universidade. É aí que a seleção se realiza de fato, pois nele todas as provas são eliminatórias.

Por sua vez, os jovens franceses interessados em entrar nas procuradíssimas Grandes Écoles enfrentam provas severas. Quem preferir a Université, que oferece todo o tipo de formação, deverá ter concluído o baccalaurèat, o exame final dos estudos secundários. Nesse sistema, os que se inscrevem primeiro conseguem candidatar-se às melhores faculdades. Mas, na verdade, a maioria das escolas mais procuradas na França faz seleção disfarçada, escolhendo os estudantes que apresentarem os melhores currículos escolares.

No Brasil, um sistema de avaliação como esse não seria possível, observa Waltemir Miguel Loureiro, diretor pedagógico do Colégio Palmares, em São Paulo, “porque existem diferenças muito grandes de programas ministrados nas escolas de segundo grau, tanto nas particulares quanto nas públicas”. Assim, o jeito é enfrentar a fera. Para tentar amenizar as tensões e angústias que cercam o vestibular, um grupo de psicólogas criou em 1986, em São Paulo, um programa muito especial: o S vestibulando.

“São moças e rapazes que nos procuram, principalmente em novembro e dezembro, com uma ansiedade generalizada que se manifesta em sintomas físicos como insônia, gastrite, falta de apetite, taquicardia e pânico, vontade de largar tudo”, descreve Maria Cristina de Carvalho, uma das coordenadoras da clínica. O programa é uma terapia à base de sessões de psicodrama e não precisa necessariamente ter continuidade. Maria Cristina explica que o jovem enfrenta o dilema de ter de conciliar seu desejo de auto-realização com as realidades do mercado de trabalho e a busca de uma boa situação financeira.

Mas em meio a tantos conflitos também existem exceções. Fábio Silveira, 17 anos, candidato a uma vaga na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, não tem dúvidas quanto ao que quer: “Se eu conseguir entrar este ano, melhor. Se não, depois eu tento novamente”. Em sua opinião, “as pessoas não deveriam enfrentar um vestibular no fim do colegial, se ainda não têm certeza do que querem realmente”. Afinal, diz ele, “é difícil decidir aos 17 anos o que você quer fazer pelo resto da vida”.

Para saber mais:

Anos rebeldes

(SUPER número 11, ano 6)

Palmeiras Verdinho Não Resiste ao Timão

(SUPER número 11, ano 10)

“A gente tem medo”.

Fã de Tom Jobim, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, o paulista Nilo de Medina Coeli Neto, 17 anos, preparou-se o ano inteiro para disputar uma das concorridas vagas do curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas, ou uma das não menos procuradas vagas do curso de Economia da Universidade de São Paulo. Por isso, abandonou as aulas de violão de que tanto gostava e o vôlei na praia nos fins de semana. Como ele diz, “acho que não consigo me dedicar a nada que não seja o vestibular”.

Aluno do terceiro ano colegial, Nilo acorda às 6h30 todas as manhãs, toma um café reforçado e chega ao colégio às 7h20. Duas vezes por semana, tem aulas à tarde também. Outras duas tardes são ocupadas com aulas de inglês. Nesses dias, almoça no colégio. Com tantas aulas e por freqüentar uma escola considerada “puxada”, Nilo resolveu não fazer cursinho. A escolha da carreira não foi fácil, mas de uma coisa ele tinha certeza: não queria Exatas (Engenharia, Física, por exemplo) nem Biológicas (Medicina, Odontologia, entre outras). Ouviu então o pai e o avô, que o aconselharam a escolher algo de que gostasse e que tivesse ao mesmo tempo uma aplicação prática.

Assim, optou por Administração curso pelo qual afirma ter bastante interesse: “Pretendo um dia ter meu próprio negócio”. Nilo garante que os pais nunca o pressionaram para que estudasse isso ou aquilo: o pai só reclamava quando tirava notas “vermelhas”. Nilo não difere muito de outros vestibulandos nas reações à tensão que cerca o vestibular: “A gente tem medo de não entrar, de perder o ano, de ter que fazer tudo de novo”.