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A descoberta do inconsciente

Uma investigação pioneira, e profunda, sobre o lado oculto da mente

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni) - Atualizado em 19 jun 2019, 16h09 - Publicado em 26 nov 2015, 16h15

Livro: A interpretação dos sonhos
Autor: Sigmund Freud
Ano: 1900
Por que ler? Para entender que o cérebro contém mais coisas do que a consciência consegue perceber.

Uma pista de que Sigmund Freud tinha perfeita noção da importância do que havia escrito está na data de publicação de A interpretação dos sonhos. Embora o livro tenha sido publicado em 1899, a data registrada pelo autor é 1900. Estudiosos interpretam que o pai da psicanálise sabia se tratar de um texto à frente do seu tempo. Nada mais justo que publicá-lo às portas do século 20. Outros apostam em uma estratégia mercadológica. Freud previa que o seu estudo fosse recebido com resistência à primeira vista. Portanto, quanto mais jovial fosse a data de publicação, melhor a chance de reconhecimento nos anos seguintes. E de fato o livro demorou para se tornar um best-seller. Na verdade, sequer era um seller. Recebido com desdém pela comunidade científica, 351 cópias foram comercializadas nos primeiros três anos – pouco mais da metade dos 600 exemplares da primeira edição. O livro só foi reconhecido a partir da segunda edição, nove anos depois.

Se a obra mais importante de Freud não fosse um calhamaço de mais de 700 páginas, e, sim, um breve tweet, @Real_SigFreud poderia resumi-la assim: o sonho é manifestado por sinais do aparelho psíquico e, uma vez interpretado, se revela a realização de um desejo inconsciente do sonhador. Para chegar a essa conclusão, Freud derrubou as duas formas como as nossas narrativas noturnas costumam ser interpretadas por leigos (ainda hoje, diga-se). A primeira delas, como uma premonição. Para Freud, o sonho seria mais um insight do que uma visão de futuro. Se o sujeito tem o sonho recorrente de que está cercado de pessoas de branco e, um belo dia, se torna médico, não é porque teve uma visão noturna de que seria médico, mas porque foi manifestado o desejo de exercer a profissão.

A segunda interpretação equivocada é a da simbologia, de que sonhar com algo significa alguma coisa específica. Jogue o primeiro cachimbo quem nunca abriu o Google e pesquisou algo como “sonhar com morcego”. O problema aqui não é o morcego, é o Google. Para Freud, cada pessoa precisaria de um site de pesquisas próprio no cérebro para interpretar o que o morcego simboliza. Se o sonhador é biólogo, significa uma coisa. Se é fã do Batman, outra completamente diferente.

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Como matéria-prima para a análise, Freud decidiu usar uma cobaia “mais ou menos normal”, de quem tinha material abundante. Ele próprio, no caso. E foi compartilhando inúmeros exemplos dessa autoanálise que Freud chega à conclusão de que os sonhos ocultam desejos. Alguns, particulares. Outros, de toda a humanidade. Por isso, alguns tipos de sonho são recorrentes a tantas pessoas: ficar pelado em público, sentir-se paralisado, perder um parente querido… Sonhos que, de acordo com o pensamento freudiano, na verdade são desejos reprimidos.

O sonho é a realização do desejo. No mesmo instante em que queremos nos alegrar com essa descoberta, somos assaltados por uma profusão de perguntas.

Mais de cem anos depois, pode parecer banal a descoberta de que sonhamos com o que desejamos. A própria palavra “sonho” ganhou a conotação de desejo intenso graças ao barbudão austríaco. O interesse de Freud, primordialmente, era aproveitar essa rara janela noturna do inconsciente para descortinar traumas de infância e, assim, livrar seus pacientes de problemas. Mas à medida que a existência de um inconsciente com vontade própria, um outro eu dentro de cada um, ganhou respaldo de outras áreas do conhecimento, como a neurociência, a compreensão dos mecanismos do cérebro cresceu de forma gigantesca. Freud deixou as janelas abertas para descobertas ainda mais surpreendentes.

Hoje se sabe que o inconsciente faz um trabalho constante de bastidores enquanto estamos acordados (cerca de 95% da nossa atividade cerebral). Por meio de associações entre o que estamos vivenciando e o que já sabíamos, estimula o surgimento de novas ideias. Sabemos que pressentimentos – o de que um vendedor está nos enganando, por exemplo – não são frutos de um sexto sentido, mas o inconsciente comparando aqueles traquejos para te convencer a comprar um carro usado a um Manual Prático de Picaretagem já arquivado na nossa biblioteca mental. Podemos relaxar, então, que o inconsciente nos resguarda de maiores roubadas? Não exatamente. O inconsciente é desejo e emoção, como já atentava Freud. Portanto é ele, também, que pode fazer você privilegiar, sem querer querendo, a candidata mais bonita para uma vaga na sua empresa em vez da mais qualificada.

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