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A volta dos Hippies

Para ser moderninho hoje em dia, é preciso viver como antigamente: morar em comunidade, tirar fotos em preto e branco e fazer a sua própria comida. Entenda aqui o que querem os jovens descolados. (Dica: envolve fazer compras.)

Ana Carolina Prado

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Todo verão Mark Zuckerberg decide fazer algo diferente. Em 2010, o criador do Facebook já havia resolvido aprender chinês. Em 2011, com todo o sucesso da rede social, optou por algo que lhe deixasse grato pelo que tem – mais precisamente, pela comida em seu prato. Resolveu que só iria comer a carne de animais que ele mesmo abatesse. Um vizinho e cozinheiro do Vale do Silício o apresentou aos agricultores das proximidades e o ensinou a matar seus primeiros animais. A nova dieta está fazendo sucesso: segundo ele, a quantidade de pessoas que vieram procurá-lo interessada em vegetarianismo, caça e até agricultura foi enorme. O criador do Facebook ter escolhido esse desafio particular, no entanto, não é o capricho isolado de um jovem bilionário. É um interesse da geração de Zuckerberg, de 27 anos. Os hobbies esquisitões, o contato com a natureza e o faça você mesmo são tendência entre pessoas muito menos abastadas do que o dono do Facebook. Talvez até você mesmo tenha uma mania dessas.

Não é de hoje que ser “moderno” e “antenado” é ser diferente. Toda geração tem seu grupo tentando criar uma identidade própria, de preferência distante dos padrões que a sociedade considera normais. Foi o caso dos hippies dos anos 70 e dos punks dos anos 80. Hoje em dia, eles às vezes são chamados de “hipsters” (veja a definição no boxe), mas muito do que pregam tem um pé nos anos 70. Basta dar uma olhada nas tendências que andam surgindo aqui mesmo no Brasil. Uma delas são as ecovilas, uma espécie de comunidade baseada na produção local de alimentos orgânicos, no uso de sistemas de energia renováveis e na preservação do ambiente. Todos constroem juntos suas casas e produzem sua própria comida: a inspiração hippie é inegável. Hoje, a Rede Global de Ecovilas (que contabiliza as iniciativas) registra 513 comunidades em todos os continentes, 16 delas no Brasil. Outra onda setentista que está de volta são os LPs. Estranhamente, as bolachonas são o formato de música que mais tem crescido nos últimos anos. Enquanto a venda de CDs caiu 12,7% em 2010, a de vinis aumentou 14%. É um recorde desde 1991, quando as vendas começaram a ser monitoradas. E os artistas campeões de venda são (logo atrás dos Beatles) os queridinhos dos roqueiros alternativos: Arcade Fire, Black Keys e Radiohead – sempre em vinis novinhos em folha.

Mas não para por aí. Outra inspiração desse grupo é a cultura do faça você mesmo (o “do it yourself”, em inglês, DIY), que teve origem no pós-guerra dos anos 50. Em décadas mais recentes, o DIY começou a ser mais associado à cultura punk e à produção musical (discos independentes e rádios piratas, por exemplo). Mas a ideia é basicamente a mesma: você pode muito bem construir, modificar ou consertar suas coisas sozinho, sem ter de recorrer à indústria ou a profissionais caros. Na versão dos anos 2000 do DIY, a mania se espalhou além da música: se transformou em aulas de tricô para jovens, em idas ao barbeiro para aparar o bigode e na compra de sapatos de couro feitos à mão – tudo hábitos que não param de crescer. Uma das modas mais prolíficas é a de fazer cervejas em casa. Um kit simples com panelas, termômetro, fermentador e máquina para colocar tampinhas custa cerca de 480 reais e pode render até 20 litros de bebida artesanal de qualquer tipo. Até a família Obama caiu no gosto e anda servindo na Casa Branca uma cerveja que ela mesma faz. E isso acaba tendo reflexos no mercado: produtoras de cervejas artesanais têm crescido 15% ao ano no Brasil e as microcervejarias andam pipocando por aí.

O último item do qual os neohippies não abrem mão é a tecnologia. O sucesso do Instagram, aquela rede social de fotos do iPhone, na qual usuários postam, comentam e curtem as imagens alheias, é apenas um dos exemplos. Todas as fotos têm um ar de bolor nostalgia, com filtros em preto e branco ou que imitam as lomos, antigas câmeras soviéticas. As próprias lomos, aliás, viraram moda nos últimos anos: desde 1991, quando dois jovens vienenses descobriram uma das câmeras baratas lançadas na União Soviética nos anos 80, o interesse cresce. Hoje em dia, existem 500 mil lomógrafos pelo mundo. E tem mais: aplicativos e softwares que deixam as gravações dos celulares com cara de filme mudo de 1920 ou com som de vinil com poeira no disco. Mas, mesmo quando o produto é analógico, ele lucra com a tecnologia. É o caso dos sapatos de couro de canguru produzidos à mão pelo sapateiro australiano James Roberts, e que viraram febre. A manufatura e as ferramentas antigas são tradicionais – mas a distribuição e a venda são feitas pela internet.

Rebeldes de butique

Mas de onde vem esse interesse pelo passado? “Os jovens tendem a ver a cultura dominante como homogeneizante e comercial demais. Então eles partem em busca de experiências mais autênticas”, diz Zeynep Arsel, professora de marketing da Universidade de Concordia, no Canadá, que estuda esses jovens desde 2003. O paradoxo dos neohippies está no fato de que é quase impossível ter uma experiência 100% autêntica: eles estão inseridos no mesmo sistema que tentam renegar. Se conseguem comprar os instrumentos para fazer cerveja em casa por um preço acessível, é simplesmente porque as empresas perceberam que havia um grupo de pessoas dispostas a gastar dinheiro – e resolveram investir nisso. Sim, não está fácil ser diferente. Assim que alguém resolve inventar moda e lançar alguma tendência, lá está alguma empresa pronta para vender produtos personalizados para ele. Foi o que aconteceu com as cervejas artesanais: quando começaram a vender, foram compradas por grandes empresas. É o caso, por exemplo, das marcas Baden Baden, Eisenbahn e Devassa, todas compradas pela gigante Schincariol entre 2007 e 2008. “O mercado que resgata atividades artesanais é uma reação contra a uniformização do consumo. Mas ele só é possível por causa da abundância material na qual vivemos. E isso de modo algum questiona a sua mensagem e o seu apelo”, diz Heloisa Pait, socióloga da Universidade Estadual de São Paulo, a Unesp. E mais: ser “autêntico” costuma ser muito caro. Basta ver o preço da parafernália preferida: iPhone (1 749 reais), câmera de lomografia (250 reais), garrafa de cerveja artesanal (18 reais), sapato de couro de canguru artesanal (790 dólares).

E não se deixe enganar pelo rostinho descabelado e casacos de vovó: os hippies de hoje em dia não são tão engajados quanto a versão dos anos 70. Não há uma ideologia definida por trás dessas manias: eles não lutam por um mundo melhor nem pela libertação sexual, por exemplo. Alguns flertam com a sustentabilidade (como a turma das ecovilas e dos alimentos orgânicos, que não para de crescer). Outros pregam uma vida mais simples, de volta às raízes (como o faça você mesmo). Mas a principal preocupação desses jovens é ser diferente. E basta. Isso não quer dizer, no entanto, que as modas não sejam verdadeiras. “Eles não são uma tendência superficial e ávida por atenção. O interesse pelas bandas, marcas, artistas e estilos que consomem é genuíno, e eles se sentem em casa dentro desse universo”, diz Arsel. Ou seja, eles podem não mudar o mundo. Mas são jovens – e estão se divertindo.

Que raio é um hipster?

Os hipsters eram os fãs de jazz do Harlem, em Nova York. Nos anos 50, o escritor Norman Mailer começou a chamar os brancos de classe média que frequentavam os bares de jazz assim também. Hoje, os hipsters são os moderninhos, descolados, que gostam daquela banda indie que ninguém conhece. Sua reputação, no entanto, já foi melhor: pega mal dizer que você é um hipster.

Para saber mais

DiY Culture: Party & Protest in Nineties Britain
George McKay, Verso, 1998

Demythologizing Consumption Practices
abr.io/estudo-hipsters