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Celebridade sumida

Russo decifra enigma, mas desaparece antes de receber o prêmio

Marcelo Cabral

Quinze minutos de fama definitivamente não são o desejo do matemático russo Grigori Perelman. Ele se tornou uma celebridade na área ao confirmar um dos mais antigos mistérios matemáticos do mundo – a chamada Conjectura de Poincaré –, mas resolveu sumir do mapa sem receber os louros da descoberta. Grisha, como é o apelido de Perelman, não só recusou a Medalha Fields, considerada o Oscar da matemática, como também pediu demissão do instituto onde trabalhava, deixou de fazer contatos com outros colegas e pode também recusar a premiação de US$ 1 milhão oferecida pela fundação americana Clay Mathematics Institute como recompensa pelas principais descobertas no campo da matemática. Em entrevista, Grisha declarou que “prêmios são completamente irrelevantes para mim”.

A Conjectura de Poincaré era um dos 7 (agora são 6) enigmas matemáticos conhecidos como “Problemas do Milênio”, com uma recompensa de US$ 1 milhão pela solução de cada um deles. Para provar que a teoria de Poincaré é verdadeira, Perelman precisou de quase 1 000 páginas de cálculos e equações diferenciais. Outros matemáticos demoraram 3 anos para ler e se certificar de que o trabalho de Grisha é correto.

A conjectura foi criada pelo matemático francês Henri Poincaré em 1904 e atravessou o século 20 resistindo a diversas tentativas de solução. Ela trata basicamente do estudo das propriedades geométricas de diversos objetos. Através de seus cálculos é possível “redesenhar” objetos maciços, como uma estátua, em uma esfera. Já objetos com furos, como um cd ou uma rosquinha, não têm essa capacidade. Esse campo de estudos, chamado topologia, é aplicado em uma série de trabalhos científicos, principalmente na matemática e na física.

Esta não é a primeira vez que Perelman provoca polêmica. Ele já havia recusado convites de trabalho da Universidade Princeton e também uma outra premiação da Sociedade Européia de Matemática. O motivo para a mágoa de Perelman seriam divergências com o Instituto Steklov, onde trabalhava. Sejam quais forem os problemas que o afligiram, o choque foi pesado: jornais russos noticiaram que ele teria abandonado a matemática. Ele se retirou para um isolamento quase total, passando a morar junto com a mãe. Segundo amigos, ele está sem trabalhar e sobrevive com a pensão da mãe. Grisha estaria mantendo apenas seu passatempo predileto: apanhar cogumelos nas florestas próximas à cidade.