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Cidadania: Batida social

Ajudar é uma festa

Mariana Peixoto, de Belo Horizonte

Música e cidadania não têm nada a ver? A balada é o reino do hedonismo, do “eu” acima de tudo? prepare-se para mudar de idéia. volume01 mostra projetos sociais em quatro capitais que misturam a cultura da balada com a necessidade das ruas

Barba e Cabelo

O organizador da Festa Gentileza, Humberto Rezende, reúne 8 mil pessoas numa rua de Belo Horizonte. E ainda põe as velhinhas para dançar tecno…

A pintura no muro já anuncia: aquele salão não é como os demais: “Filosofia terapêutica localizada. Método próprio. Resolva todos os seus problemas de cabeça começando pela superfície. Humberto (faço palestras e barba). Filósofo prático e cabeleireiro”. Rodeado por um sem-número de imagens de santos, pelos cachorros Dalai e Lama e com um fundo de música eletrônica (house e tecno, de preferência), Humberto Resende corta cabelos e faz história nas ações sociais em Belo Horizonte.

Na rua do seu salão (a casa em que nasceu, no bairro da Savassi), Seu Cabelo, como Humberto é conhecido, promove festas de rua há oito anos. Todas têm uma finalidade social. Neste ano, já foram recolhidos sete toneladas e 300 brinquedos, doados para cinco instituições mineiras. “Estou pensando em ampliar. A idéia é de que a festa ande, pois vai chegar uma hora em que não vai mais caber gente”, diz Humberto.

Ampliar é modéstia. O evento já cresceu e muito. Começou pequeno, com 200 pessoas. Mas a edição deste ano da Festa Gentileza, que aconteceu em agosto, durou 12 horas e atraiu um público de 8 mil pessoas. De peruca, como sempre, Seu Cabelo foi o anfitrião da balada – e recebeu convidados de todos os tipos. “A minha festa é a única que tem velhinha dançando música eletrônica.” No som, rola um pouco de tudo: banda da PM, circo, congado, capoeira. A eletrônica toma lugar com o cair da tarde. Anderson Noise e toda sua família são presença obrigatória. A festa tem até grito de guerra: “É Gentileza, É Seu Cabelo!”

A história de Seu Cabelo inspira muita gente. Ex-viciado, sua vida já virou livro (“Um Esqueleto no Armário”, de André Rubião). “Uma vez doido, eternamente doido”, não se cansa de repetir. Hoje, a loucura de Humberto é sadia – e contagiante. Ídolo em Belo Horizonte, DJ Robinho seguiu o exemplo e criou há dois anos uma festa com o objetivo de arrecadar alimentos. O nome oficial é Aniversário do Robinho, mas ninguém sabe quando é a comemoração oficial – a data ele não conta nem por decreto. Na edição promovida em setembro, foram arrecadados 900 quilos de comida e quase 3 000 reais, enviados para quatro instituições.

Aprendiz de DJ

Projeto de São Paulo põe manose patricinhas, eletrônicos e roqueiros numa só oficina para DJs…

Gaía Passarelli, de São Paulo

A patricinha que estuda em colégio particular e sai sempre para a balada aprende a mesma coisa que o mano que guarda os discos num saco plástico e pega dois ônibus para chegar à sala de aula. Essa integração é uma das regras básicas para o sucesso da Oficina de DJs da Cidade Escola Aprendiz, uma das ONGs mais bem-sucedidas de São Paulo.

A Aprendiz utiliza o espaço do ampgalaxy, um misto de clube e loja que fica nas imediações da sede da ONG. Lá, os aspirantes a DJs têm aulas com os residentes da casa, Kbeça e Liberato. O curso dura dois meses. São quatro horas de aula a cada quinze dias. Parece pouco, mas não é, diz Liberato: “A gente ensina o que é necessário para ser DJ e dá direção profissional, mas o que o pessoal precisa mesmo é treino e dedicação”. Além disso, a idéia do programa não é só formar DJs, mas também promover a integração entre os participantes, diz Alexandre Sayad, redator-chefe do site da ONG e um dos coordenadores do projeto. Daí a mistura de alunos de origens diferentes.

A oficina de DJs já formou uma turma. A segunda está prestes a “colar grau”. Alguns dos aprendizes já puderam mostrar seu trabalho em clubes da região, como Urbano e Show Bar – além, é claro, do próprio ampgalaxy. Outra idéia é levar os aspirantes para discotecar na rádio Brasil 2000, um dos patrocinadores do projeto.”Tivemos três bons destaques entre os vinte alunos da primeira turma. E parece que vai sair muito mais nessa segunda fase, que é cheia de talentos naturais”, diz Liberato, o DJ professor. E não é só em hip hop e música eletrônica. “Um dos melhores alunos, por exemplo, toca rock e apareceu com discos do Olho Seco debaixo do braço”, diz Sayad. Afinal de contas, dá para ensinar de tudo a um DJ –menos gosto musical.

Hoje tem prova de house

Na escola mantida pelo coletivo B.U.M., do Rio, os alunos aprendem a prática – e também a teoria…

Carlos Albuquerque, do Rio de Janeiro

Tudo – house, tecno, trance e drum’n’bass – pelo social. O Brazilian Underground Movement, ou simplesmente B.U.M., usa agulhas e toca-discos – e também giz e quadro-negro – para mostrar com quantos beats se faz uma boa música. Trata-se de um curso que há alguns meses acontece na Casa do Menor São Miguel Arcanjo, uma das principais instituições beneficentes da Baixada Fluminense, epicentro das desigualdades sociais no Rio de Janeiro.

Baseado na Baixada, o B.U.M. é um coletivo de DJs, produtores e simpatizantes do som eletrônico. Fundado pelo DJ Péricles há oito anos, o B.U.M. é uma das iniciativas pioneiras na união da música eletrônica com iniciativas sociais. Péricles morreu em 2001. Mas seu trabalho segue firme.

As aulas acontecem uma vez por semana. Englobam não apenas “matérias”, como técnicas de discotecagem e produção, mas também história da música e moda. A parte de estilo combina com a principal patrocinadora do curso, a multinacional C&A. Outro ponto importante é a integração social. Alguns dos alunos moram na própria Casa do Menor, e o curso de DJs é uma maneira de reintegrá-los à comunidade. “Tivemos até que aprender noções de pedagogia e psicologia para poder lidar com eles sem cometer deslizes”, explica o DJ JJ Jonas, que divide as aulas com o produtor Joe S.

Na sala de aula, os alunos aprendem, por exemplo, o que é house music – e o curso tem provas escritas. Nas aulas práticas, é mão na massa.

“Mostramos não apenas como mixar. Explicamos como funciona um mixer, a importância da equalização, o que são freqüências e decibéis”, conta Jonas. “Mas, acima de tudo, incentivamos a leitura e o estudo em geral. Para isso, damos o exemplo de DJs como Marky e Patife, que vieram de ambientes difíceis, superaram todas as dificuldades e hoje são conhecidos no mundo inteiro.”

Eu coopero, tu cooperas…

Em salvador, a eletrocooperativa ensina novas tecnologias a garotos do pelourinho

Cláudio Manoel, de Salvador

Como nem só de pista vive a cultura do DJ, algumas iniciativas mostram o compromisso social da música, e, no nosso caso, da música eletrônica. Em Salvador, a Eletrocooperativa, fundada a menos de 6 meses, vem destacando a música e as ferramentas tecnológicas contemporâneas como instrumentos para a cidadania. “A Eletrocooperativa tem como missão potencializar projetos sociais organizados que utilizam a música como mecanismo para a inclusão social”, esclarece Reinaldo Pamponet, um dos coordenadores.

Palestras, oficinas, cursos são instrumentos para a “Inclusão Musical”, que nada mais é que trabalhar a música como patrimônio cultural, para fortalecer e incluir socioeconomicamente talentos musicais brasileiros. Algumas comunidades “musicais” estão tendo contato pela primeira vez com tecnologias e cursos voltados para a experiência sonora. O acesso tecnológico é visto como potencializador da experiência educacional e de cidadania através da música.

Com sede no Pelourinho, a entidade contou recentemente com a presença do DJ Patife em uma de suas oficinas. Patife defende que o DJ preocupado com o social pode participar de workshops, nesse caso voltados para a comunidade. “Ou até mesmo trabalhar em projetos sociais ensinando a cultura do DJ”, detalha.

Atentos ao belo dogma do PLUR (paz, amor, unidade e respeito), nada mais justo que demonstremos solidariedade, através de nossa cultura. Ivo Michalick, do núcleo Pororoka Music, de Belo Horizonte, acredita que as iniciativas sociais dos DJs tendem a ser muito bem vistas pelo público, gerando um “efeito multiplicador muito positivo”. Iniciativas organizadas como a da Eletrocooperativa alinha a cultura eletrônica – e de uma forma mais ampla, a música – numa perspectiva social de colaboração. “Utilizamos a tecnologia para educação e capacitação para o trabalho profissional com música”, aponta Pamponet. Eis um exemplo para a cena eletrônica brasileira: aliar prazer da ótima música a uma atuação por uma vida melhor.