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Conversamos com Daisy Ginsberg, a artista que usa biologia sintética em suas obras

Daisy utiliza e questiona a biologia para criar obras de arte

 

Daisy Ginsberg tem duas paixões: a biologia e o design. E é justamente o fato de não ter escolhido entre uma das duas, que faz seu trabalho se destacar. Em 2004, a inglesa se formou em Arquitetura, na Universidade de Cambridge – onde foi eleita a melhor aluna geral -, cinco anos depois, estava na Royal College of Art, de Londres, apresentando a dissertação Evolução do Design: Micróbios e o dia a dia, em que questionava o desdém com que a sociedade trata as bactérias. De lá para cá, se tornou uma artista que utiliza a biologia dentro de suas criações, para demonstrar e questionar descobertas ou teorias. Em seus trabalhos mais recentes, Daisy tem focado em uma área especial: a biologia sintética, que estuda a criação de seres vivos para ajudar na medicina e no ambiente, por exemplo.

Daisy veio à São Paulo participar da edição brasileira da feira What Design Can Do, e conversou com a SUPER sobre como a biologia e arte se completam – e contestam.

SUPERINTERESSANTE : Um de seus trabalho é o E.chromi, em que você se juntou a um time de cientistas, para teorizar sobre um produto que faria uma bactéria presente nas fezes para gerar um pigmento visível a olho nu. Como foi isso?

DAISY GINSBERG: Esse grupo de cientistas da Universidade de Cambridge apareceu com a ideia. Eles queriam a minha ajuda e de outro designer para ajudar a mostrar a razão daquela tecnologia ser importante, útil. Desenvolvemos a ideia de fazer a bacteria mudar de cor, mais tarde, prevemos que o catalizador disso podia ser um iogurte.  Depois que o projeto ficou pronto, chamaram a gente para participar da Competição Internacional de Engenharia Biológica (iGEM) – onde ganhamos o Grande Prêmio. Queríamos falar sobre o processo de criação, mas não conseguimos um espaço para isso, então inventamos um objeto que pode trazer essa discussão. Foi assim que criamos a maleta de cocô, pensada para leva-la às mesas e conversar. Algumas pessoas acharam nojento, outras engraçado, outras interessante. Acabamos virando aquela coisa que todo mundo tinha que ver. E foi um jeito de falar sobre o assunto. Mas o mais interessante é que os cientistas acharam uma boa ideia. Eu acho uma ideia ruim. Não por que o projeto, na prática, não funcionaria (precisaríamos ingerir um número muito grande de bactérias para as fezes mudarem de cor – o que nos deixaria doente). Nós já sabíamos disso. Ruim porque não sei se eu confiaria em um iogurte para me dizer se eu tenho câncer ou não. A ideia era levantar esse debate, mas haviam cientistas que achavam que tudo aquilo tinha muito potencial.

SUPER: E você notou alguma diferença entre como cientistas reagiram ao projeto, e como artistas responderam a ideia?

DG: A real diferença  que apareceu não foi profissional, mas geográfica. Não importava se você era um artista ou cientista, e sim, de que parte do planeta você é. No Brasil, Inglaterra e Estados Unidos acharam uma ideia divertida. Na Áustria e na Alemanha, o pessoal não se impressionou.  Isso porque lá é muito mais comum você olhar para suas próprias fezes. Os banheiros são desenhados de uma forma com que você acaba tendo de encarar seus dejetos, sua saúde. É uma diferença cultural interessante. Nós somos tão tímidos em pensar que somos humanos, bagunçados, biológicos e outras culturas são muito mais seguras sobre o próprio corpo.

SUPER: Outro de seus trabalhos, o Designing for the Sixth Extinction, fala sobre criar novas criaturas, para ajudar a salvar a natureza. Como isso funcionaria?

DG: A ideia veio de uma conferencia de cientistas de biologia sintética discutindo se essa tecnologia seria amigável, ou só causaria mais problemas. Eu fiquei fascinada por esse questionamento tão difícil. Cheguei a ouvir: “A gente podia inventar uma bactéria para limpar o ar”, ou então: “Podíamos criar um vírus que salvasse esses morcegos, ou essas árvores, ou a cor do oceano”. Ou seja, estávamos infectando completamente algo para salvar isso. E chegaram a conclusão que talvez se soltassem determinados animais modificados, em áreas específicas, talvez pudessem salvar espécies. Foi quando eu pensei “Qual seria a versão de biologia sintética disso?” Então fiz essa floresta repleta de animais estranhos, que são feitos de material sintético e estariam ali apenas para salvar a natureza de verdade. E isso abre muitos problemas. Para mim é um projeto de design muito bem sucedido por não apresentar nenhuma solução e ainda mostra os problemas de criar dessa forma. Parece muito real, fez alguns cientistas ficarem desconfortáveis, outros pensarem em realmente utilizar essa tecnologia para salvar a natureza. Esse tipo de design que eu gosto de criar. Eu não quero suavizar nada. Quero criar problemas, para mostrar problemas.

SUPER: E quais seriam os principais problemas se realmente seguissem sua ideia?

DG: Seria impossível de controlar essas criaturas. Esse é o problema de criar, de ter uma vida sendo mais valiosa que outra. A vida tem mais valores do que ser vendida e comprada. Usar  tecnologia para resolver um problema criado pela tecnologia não necessariamente é uma solução. Talvez você esteja apenas criando mais transtornos, que precisarão de tecnologia para serem resolvidos. A gente já sabe como salvar a natureza. Precisamos consumir menos, poluir menos. Todo mundo sabe quais são as respostas, mas escolhemos não faze-las.

SUPER: Você também tem outro projeto, o curta Biome, onde você brinca um pouco com a aparência de bactérias.  A ideia ali era falar sobre a beleza da natureza?

DG: Sim, é um trabalho muito antigo, eu era estudante, estava tentando me estimular a falar sobre uma tecnologia que não existia ainda. Eu realmente sou interessada já estética da biologia, sou bioengenharia também. Me fascina essa ideia de que podemos criar coisas. Sabe, no século XVII teve uma loucura a respeito das tulipas. Todo mundo queria essas flores, teve uma explosão econômica, por um produto que foi puramente criado com base nos conceitos humanos de beleza. Como entendemos beleza? E como podemos fazer experimentos? Eu amo cachorros, você olha para todos os tipos de cachorro e percebe que essa é a expressão máxima humanos mudando as coisas. Quantas espécies de cachorro trabalham de acordo com a forma que elas foram imaginadas? Sabe, em geral, eles apenas ficam em casa e dão umas voltas pelo parque.

SUPER: E você acha que artistas e cientistas podem trabalhar mais juntos do que ocorre hoje?

DG: Sim, essa junção é muito positiva. Existem diversas formas de fazer artistas e designers trabalharem com cientistas. Eles podem ajudar o cientista a se comunicar, a trabalhar com questões éticas, além de dar espaço à inovação. Trazendo dois modos muito diferentes de encarar o mundo, coisas inesperadas podem acontecer. Eu aprendi isso com esses projetos. Talvez você não seja o melhor cientista, ou o melhor designer, mas você pode trazer novas formas de pensar, o que é muito difícil de se fazer. Isso é muito útil.

SUPER: E como você enxerga a biologia sintética afetando o design?

DG: Para mim, parte do trabalho de artistas e designers é ajudar a revelar algumas coisas, e acho que, particularmente, a forma como eu trabalho está ajudando a tocar nessas questões. Mas não acho que depende do design, acho que depende da sociedade, da bioética, de nos juntarmos e falarmos “isso não é uma boa ideia”. A arte talvez ajude a empoderar as pessoas a saberem mais sobre a ciência para que sejam serem fortes o bastante e digam “isso não é o que queremos”.
 

SUPER: E como você imagina que essas tecnologias, se desenvolvidas, podem afetar a rotina das pessoas?

DG: Desenvolver uma bebida que te faz olhar para o suas fezes todos os dias é uma maneira bem diferente de encarar a saúde. Eu acho que me faria neurótica, desconfiada. Me sinto da mesma forma em relação à essa ideia de se saber tudo sobre sua sequência de DNA, visando mapear que doenças você terá. Eu não quero saber se vou ter Alzheimer. Eu posso deduzir isso pela minha família. Acho também que algumas escolhas muito difíceis seriam apresentadas. Uma delas é a construção de pessoas. Se todos pudessem construir geneticamente seus filhos, tudo poderia ser escolhido. Crianças seriam selecionadas pelo sexo (o que já acontece em algumas culturas), nós arriscamos criar um mundo onde tudo entre a vida e a morte seriam resultado de desigualdade. Isso nos afetaria todos os dias. Não faria nossas vidas melhores, faria um futuro melhor para poucas pessoas que pudessem pagar por isso. 

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