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Cultura de um, focinho de outra

O Povo de Pandora representa o melhor do mais antigo tipo de civilização humana: os caçadores-coletores. Entenda de onde saiu a inspiração para criar essa cultura fictícia

Texto: Reinaldo José Lopes

O autor do romance O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien (provavelmente um dos poucos sujeitos, mortos ou vivos, mais obsessivos do que James Cameron na hora de criar um mundo ficcional), costumava dizer que a confecção de uma língua inventada sempre acaba gerando uma nova mitologia como “efeito colateral”. No caso de Avatar, a mitologia veio primeiro, e só depois a produção do filme encomendou a criação do belo e estranho idioma dos Na’vi. Mas o efeito geral, embora em menor escala, é parecido com o do universo da Terra-Média: uma cultura inteira, com língua, poesia, arte, tradição militar e mística, pronta para ser estudada nos mínimos detalhes pelos fãs.

É claro que as influências do mundo real se manifestam fortemente no caso dos Na’vi. O fato é que cada detalhe dos humanoides azuis se junta para formar uma visão idealizada do modo de vida mais antigo do Homo sapiens: o dos caçadores-coletores. Aliás, considere-se um privilegiado: você provavelmente pertence à última geração de seres humanos a viver num planeta onde ainda há caçadores-coletores. Os que não foram mortos ou pereceram de doenças ocidentais estão sendo lentamente assimilados, virando camponeses pobres, madeireiros ou até o-perários. Daqui a 30 anos, eles só existirão nos livros de história – ou no mundo virtual de Pandora.

Fala que eu te escuto

Começando pela língua, uma das grandes sacadas de Cameron foi forjar uma parceria com o linguista Paul Frommer, da Universidade do Sul da Califórnia. Especialistas em linguística são responsáveis por mapear a incrível diversidade de sons e ca-racterísticas gramaticais dos idiomas do planeta, e Frommer usou esse conhecimento para transformar o idioma Na’vi numa mistura fascinante do fami-liar e do completamente alienígena.

Um exemplo divertido tem a ver com o número gramatical – aquilo que, em português, a gente chama de singular e plural. Várias línguas antigas e modernas, como o grego de 2 500 anos atrás, também possuem o dual, usado para expressar pares de coisas (coisas como “meus sapatos” ou “meus o-lhos” teriam uma terminação especial, diferente do “s”, caso o português possuísse o número dual).

Além de singular, plural e dual, a língua Na’vi também utiliza o trial – sim, para trios de coisas. Nas línguas reais conhecidas, essa característica não existe para substantivos.

E, para deixar mais chique ainda o idioma nativo de Pandora, Frommer empregou declinações, terminações especiais das palavras que são comuns em latim, grego, sânscrito e russo. As declinações indicam, na própria palavra, qual a função gramatical dela. Assim, não é preciso colocar o sujeito antes e o predicado depois para a frase fazer sentido, como é comum em português. Isso faz com que as frases em Na’vi pareçam saídas do Hino Nacional, com aquelas inversões doidas; dizer “o toruk o menino comeu” seria supernatural porque as declinações mostram quem está fazendo o que na frase, independentemente da ordem.


Ciclo da vida

É claro que as armas, os adereços, os penteados e a pintura corporal dos Na’vi se inspiram em tribos do mundo real. Há alguns elementos dos zulus africanos, dos aborígines da Austrália e, principalmente, dos índios das grandes planícies da América do Norte, como os shawnees e os sioux que aparecem no filme Dança com Lobos. Pequena ironia: o fato de os Na’vi serem exímios cavaleiros obviamente deriva da “cultura do cavalo” nas grandes planícies, mas os índios dos EUA e do Canadá só domesti- caram montarias quando os europeus trouxeram seus corcéis para a América.

No entanto, talvez o elemento mais importante da sociedade Na’vi seja o que o especialista em mitologia americano Joseph Campbell, falecido em 1987, chamava de “ética paleolítica”. No Paleolítico, a humanidade inteira era composta de grupos de caçadores-coletores, e Campbell resume a ética e a religião desses povos numa frase simples: quando eles comiam carne, em vez de agradecer a Deus pela comida, eles agradeciam ao animal morto.

Como não plantavam nem criavam animais (ok, com exceção dos “cavalos” de Pandora, os quais, no entanto, parecem viver quase que por sua própria conta), os caçadores-coletores tiveram de desenvolver uma relação de extrema proximidade com os recursos naturais, representada pela união mística entre caça e caçador no filme. Isso não quer dizer que eles fossem anjinhos: os arqueó-logos já documentaram muitos casos de extinção de espécies causada por caçadores-coletores. Mas, quando habitavam o mesmo lugar por muitos milênios, eles tendiam a desenvolver uma relação mais ou menos equilibrada com seu ambiente.

Falando em crenças e tradições, outro traço bastante verossímil da cultura Na’vi é o rito de passagem de cavalgar os monstros voadores ikran. Esse tipo de ati-vidade perigosa ou dolorosa aparece em tribos “primitivas” de todos os lugares da Terra – coisas como circuncisões na Austrália e na Palestina, uso de alucinógenos no deserto dos EUA e até uma forma primitiva de bungee jumping na Polinésia e no México.

A maneira como se lida com a morte também é muito peculiar entre caçadores-coletores. Uma cena do filme mostra o enterro de um Na’vi. O corpo aparece em posição fetal. A mensagem é clara: o morto volta para sua mãe, a terra. Este repórter teve o privilégio de ver um esqueleto de mais de 8 mil anos ser desenterrado nessa mesmíssima posição num antigo cemitério de caçadores-coletores em Lagoa Santa, interior de Minas Gerais. É uma amostra de como Pandora chega perto de ser “real”.