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De volta à natureza

Nós somos máquinas biológicas, robôs programados para preservar e multiplicar os verdadeiros donos do mundo: moléculas egoístas chamadas "genes".

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni) Atualizado em 23 out 2020, 15h52 - Publicado em 3 dez 2015, 15h15

Livro: O Gene Egoísta
Autor: Richard Dawkins
Ano: 1976
Por que ler? O zoólogo mostrou como nossos genes influenciam comportamentos e escolhas.

No início, havia a vontade de Deus (ou de deuses) explicando todas as coisas. Depois, o homem começou a se dar conta que descer ao inferno era resultado das suas próprias escolhas – ainda que as decisões estivessem ligadas à moralidade religiosa. Foram sete séculos aprimorando uma espécie de arrogância sobre a natureza: como era capaz de refletir sobre a própria existência, o homem estava convencido de que havia transcendido sua condição de animal.

Foi um erro. O homem não é um ser especial feito à imagem e semelhança de Deus (há molde mais nobre?), mas um herdeiro de bilhões de anos de evolução, como mostrou Darwin. Bom, ainda somos a única espécie capaz de pensar e tomar decisões racionais, certo? Mais ou menos. Foi o que o Richard Dawkins mostrou em 1976, em O Gene Egoísta. No livro, o zoólogo compilou décadas de estudos para convencer a comunidade científica e o público leigo (Dawkins tem um texto fácil e até divertido) de que a evolução não produziu apenas espécies mais bem adaptadas ao meio. O darwinismo podia ajudar a explicar como somos comandados pelos nossos genes.

Somos máquinas de sobrevivência – veículos robô programados cegamente para preservar as moléculas egoístas conhecidas como genes.

Dawkins, que era um zoólogo pouco conhecido quando publicou o livro, mas tinha estudado com o Prêmio Nobel Nikolaas Tinbergen, especialista em comportamento animal, percebeu que a lógica da evolução acontecia no nível genético. Isto é, são as moléculas do nosso DNA que buscam a perpetuação – e não as espécies. Para o zoólogo, os genes desenvolveram plantas e animais como “robôs” cada vez mais sofisticados para se proteger e se reproduzir – “máquinas de sobrevivência”, como definiu. Se a espécie não for eficiente, o robô será substituído por outro. Sai a ideia da perpetuação das espécies e entra a da perpetuação de genes.

Havia uma repercussão filosófica no conceito: nosso livre-arbítrio não foge à lógica genética. Não seria tão livre assim. O zoólogo foi bombardeado. Críticos dizem que genes não têm vontade própria e, assim, não podem criar máquinas de sobrevivência.

Mas, com o mapeamento genético, décadas depois, sua tese está cada vez mais atual. Compartilhamos 99% dos genes com chimpanzés. O índice mostra que os verdadeiros vitoriosos dessa guerra são os 99% de genes presentes nas diferentes máquinas de sobrevivência, e não o solitário 1% que nos diferencia.

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