GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Ficção quase científica: clássicos do cinema violam leis da natureza

Casos clássicos de filmes de ficção científica que violam as leis da natureza.

Ricardo Bonalume Neto

Um pouco de fantasia, ok. Ninguém vai ao cinema para ver tratados de ciência. Mas enquanto alguns filmes apóiam o sonho em informações coerentes com o conhecimento científico, outros violam impiedosamente as leis da natureza.

Por Ricardo Bonalume Neto

Batalhas interespaciais, dinossauros no século XX e insetos monstruosos são coisas que só vemos no cinema, claro. E é justamente por tratar de situações inusitadas como essas que os filmes de ficção científica atraem. Quem gosta mesmo desse tipo de história, no entanto, levanta mais satisfeito da poltrona quando sente que a fantasia está bem respaldada em doses corretas de realidade.

É por isso que checar a credibilidade científica dos filmes de ficção pode ser uma atividade tão divertida quanto assisti-los. E ainda por cima instrui, como mostram os professores universitários norte-americanos Leroy W. Dubeck, Suzanne E. Moshier e Judith E. Boss no livro Fantastic Voyages – Learning Science Through Science Fiction Films (Viagens Fantásticas – Aprendendo Ciência Por Meio de Filmes de Ficção Científica, AIP Press, Nova York, 1994). O livro mostra quando os filmes usam corretamente os princípios da ciência e quando massacram o conhecimento em nome de um enredo dramático.

Não se trata de uma obra estraga-prazeres. Ao contrário. Ela mostra mais uma maneira de apreciar esses filmes. Afinal, se tirássemos a ciência de Blade Runner (1982), por exemplo, ele poderia se tornar um policial banal, passado nos anos 30. E Guerra nas Estrelas (1977) se pareceria com um capa e espada qualquer.

O que torna essas histórias sedutoras é a adaptação da ciência para inventar novos mundos. A mesma técnica permitiu ao francês Julio Verne (1828-1905), pai da ficção científica, prever com muita antecedência avanços como as viagens espaciais, o helicóptero ou o próprio cinema.

Verne fez o que fez porque buscou em informações científicas sólidas a sua inspiração. Porém, nem todos os roteiristas seguem a mesma escola. Nos filmes, encontra-se de tudo: misticismo, erros de proporção e absurdos completos, em meio, também, a acertos. Nesta reportagem, você pode conhecer alguns deles.

Para saber mais:

O impossível sob medida (SUPER número 3, ano 4)

Como se fosse verdade

(SUPER número 7, ano 4)

Irmãos Lumière, luzes, câmera, ação

(SUPER número 12, ano 5)

Quanta Irresponsabilidade!

O Super-homem arriscou demais em Superman IV: Em Busca da Paz (1987), ao levar a mocinha (foto) ao espaço. Se o filme fosse cientificamente correto, ela morreria de frio, pois não resistiria a temperaturas inóspitas, abaixo de -250 graus centígrados, ou sucumbiria diante da falta de oxigênio. Além disso, estaria exposta a radiações cósmicas nocivas.

Outro passeio espacial absurdo foi empreendido pelo herói em Superman, o Filme (1978). Voando velozmente em torno da Terra, ele reverte sua rotação, fazendo o tempo voltar. Mesmo que isso fosse possível, não daria certo, pois não há qualquer relação entre a rotação da Terra e o passar do tempo. Ainda nesse filme, ao levantar uma enorme rocha, na tentativa de conter um terremoto, o Super-homem afronta a terceira lei de Newton, segundo a qual para cada força existe outra igual, em direção oposta. No caso, a força contrária exercida pela rocha deveria enterrar o herói no chão — não importa a sua superforça, as rochas abaixo dele é que não suportariam o peso levantado.

Perigo na Enterprise

A teoria sobre o combustível da nave Enterprise, da série Jornada nas Estrelas, é perfeita. Ela seria movida graças à colisão de matéria (átomos com núcleos positivos e elétrons negativos) com antimatéria (núcleos negativos e elétrons positivos), o que, de fato, é a maneira mais eficiente de gerar energia. Mas há um detalhe que não se esclarece. Uma reação como essa emitiria fótons de altíssima potência energética, difíceis de ser controlados, que poderiam se espalhar pela nave, colocando a tripulação em perigo. Outro fenômeno, o teletransporte , do qual a série abusa, também não se explica. Os átomos do organismo teriam que ser convertidos em impulsos elétricos (energia), que, depois, seriam reconvertidos em carne e osso. Mas o único meio de transformar a matéria em energia é a reação explosiva com a antimatéria, que não deixaria um só átomo inteiro para depois ser retransformado.

Absurdos até debaixo d’água

Alguns princípios fundamentais sobre a vida debaixo d’água são desrespeitados no filme O Segredo do Abismo (1989), a respeito do surgimento de alienígenas no fundo do mar. É sabido que conforme se desce no mar a pressão da água aumenta linearmente. A 1 000 metros de profundidade, a pressão é 98 vezes maior do que na superfície do planeta. No filme, um mergulhador desce até perto de 6 000 metros, em apenas trinta minutos. Se fizesse isso de verdade, ele morreria esmagado. No final, os alienígenas expulsam a estação submarina desde 600 metros de profundidade até a superfície, também em minutos. Mudança tão rápida, sem uma descompressão lenta, deveria ter matado toda a tripulação.

Corpanzil com falta de ar

O clássico O Mundo em Perigo (1954), é pioneiro num tema comum no cinema: a produção de monstros por mutação genética. Nesse caso, explosões atômicas dão origem a formigas gigante. Só que o tamanho dos bichos não leva em conta a relação entre massa e volume. Um cubo de 1 metro de lado, por exemplo, tem superfície de 1 m2 e volume de 1 m3 . Dobrando o comprimento dos lados, a superfície aumenta quatro vezes — 2 m x 2 m = 4 m2 — e o volume oito vezes — 2 m x 2 m x 2 m = 8 m3. Assim, o peso também aumenta oito vezes. A superformiga, 100 vezes mais comprida que o normal, não agüentaria o próprio peso — ele cresceria 1 milhão de vezes. Outro problema: formigas respiram por difusão passiva de ar, ou seja, o ar apenas passa pelo seu corpo. Com o corpo maior, o oxigênio não poderia chegar a todas as células com a rapidez necessária.

Epidemia de enganos

Se a medicina funcionasse como no filme Epidemia (1994), a Aids seria tão curável quanto um resfriado. O enredo trata de um vírus letal, como o Ebola, e a produção de um soro contra ele acontece em questão de minutos, algo impossível. Os processos usados para produzir soro demandam, pelo menos, uma semana. Depois seria preciso mais um mês de testes de segurança. Outra proeza: com o sangue de um único macaquinho faz-se soro para centenas de pessoas. Para se ter uma idéia, uma cobaia de 450 gramas pode fornecer, no máximo, 10 miligramas de soro anti-rábico por mês, menos do que é necessário para tratar um só adulto com raiva. Para completar, a recuperação ultra-rápida de pacientes já muito doentes também é coisa que só acontece no cinema.

Vôo impossível

A rigor, o carro futurista de Blade Runner (1982), não poderia voar. Aviões voam porque a forma aerodinâmica da asa — curva em cima, reta embaixo — faz com que o ar demore mais para passar por cima, produzindo uma diferença de pressão. Mas o carro de Blade Runner não tem asas nem foguetes. Supõe-se que funcione como os hovercraft, veículos que se movem sobre um colchão, que vai expulsando ar por pequenos orifícios na sua parte de baixo. Mas para voar assim ele teria que ter, embaixo do chassi, lâminas semelhantes às asas de avião.

Pelo que se pode observar do carro, no entanto, ele não possui essas lâminas ou elas são pequenas demais, e, portanto, insuficientes para levantá-lo do chão.

Fantasia coerente

Exceção à regra, o filme O Enigma de Andrômeda (1971) prima pelo rigor científico. Num laboratório subterrâneo, pesquisadores tentam identificar um misterioso microorganismo vindo do espaço. Eles usam, corretamente, filtros para checar o tamanho das partículas e microscópios para estudar sua estrutura. Também fazem análises químicas para verificar se há material genético ou proteínas semelhantes aos que existem na Terra. Concluem que o bicho tem estrutura parecida com a dos vírus, mas é capaz de se reproduzir sem parasitar uma célula. Pode ser que em alguma parte do universo exista algo assim, pode ser que não, mas as informações do filme são coerentes com fatos conhecidos pela ciência.

Errinho de

proporção

Em geral correto, 2010, o Ano em que Faremos Contato (1984), não escapa de alguns escorregões e pelo menos um deles merece ser citado. No final do filme, os astronautas encontram sinais de vida em Europa, uma das luas de Júpiter, e, para torná-la mais agradável, dão um jeito de transformar o planeta em um novo Sol. Porém, segundo os astrofísicos, para uma estrela existir ela deve ter massa equivalente a, pelo menos, 3 000 vezes a da Terra. Só assim a pressão interna seria alta o suficiente para aumentar a temperatura a ponto de fundir os átomos, no processo conhecido como fusão nuclear, que é o motor do brilho das estrelas. E Júpiter tem apenas 318 vezes a massa da Terra.

Misticismo e manobras improváveis

Os efeitos especiais não escondem alguns defeitos científicos nos filmes da série que nasceu com Guerra nas Estrelas (1977). Não há nada que explique, por exemplo, a habilidade dos cavaleiros de Jedi de mover objetos com a mente, como ocorre nas famosas lutas com sabres de luz de O Império Contra-ataca (1980). O funcionamento do cérebro simplesmente não produz energia suficiente para fazer levitar objetos. As manobras dos caças em Guerra nas Estrelas são igualmente absurdas. Aviões manobram porque têm superfícies móveis que interagem com o fluxo de ar. No vácuo do espaço não há como utilizar flaps e estabilizadores.

Para compensar, no começo de O Império Contra-ataca há passagens fiéis aos princípios da termodinâmica. É correta a decisão de abrigar do frio, dentro da barriga de um animal morto, um personagem ferido. Como o bicho havia acabado de morrer, ele conservaria por algum tempo certa quantidade de calor interno. Também é certa a decisão de usar o gelo para construir, em volta do ferido, uma espécie de iglu. Ele serve de isolante térmico porque a neve tem bolhas de ar presas que impedem a fuga de calor.

Gravidade artificial

A estação espacial em forma de roda de 2001, uma Odisséia no Espaço (1968), é mostrada como tendo um ambiente com gravidade semelhante à da Terra. Isso é possível. Um objeto grande, girando em torno do seu próprio eixo a uma velocidade adequada pode reproduzir no seu interior um efeito próximo ao da gravidade terrestre. Em outra cena, a ausência de peso dentro de uma espaçonave que não gira como a estação espacial também faz sentido. Por isso, a espaçomoça pode andar pelas paredes desde que tenha um sapato equipado com material aderente.

Amontoado de dúvidas

A idéia central de Viagem Insólita (1987), filme sobre a miniaturização de um submarino e seus tripulantes para uma viagem dentro do corpo humano pode ser fascinante, mas é completamente improvável. De cara, há uma violação da lei de conservação de energia, segundo a qual ela não pode ser criada ou destruída, mas apenas transformada de uma forma em outra. Então, o que acontece com o resto da energia, em forma de matéria, do submarino e das pessoas quando elas se miniaturizam? Segundo, qual processo miniaturizou o que já é uma miniatura — o átomo e suas partículas constituintes? E de onde vem a energia que faz tudo voltar ao normal depois da aventura? São perguntas que o filme não responde. Muito menos a ciência.

Energia que vem do nada

O robô de metal líquido de O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991), é incrível: ele se transforma naquilo que toca e, quando destroçado, se recompõe rapidinho. Mas a ciência não justifica tais poderes. Primeiro, o robô não conta aparentemente com nenhuma fonte de energia para suas peripécias. Além disso, não se sabe de um mecanismo que permita às moléculas mudar sua estrutura atômica para se transformar em outros objetos. Ao promover uma viagem no tempo, o filme também viola a lei da conservação de energia, segundo a qual não se pode criar nem destruir energia, apenas transformá-la. Assim, a quantidade dela no mundo é sempre a mesma. Seria, portanto, impossível adicionar energia em forma de matéria no mundo do passado — ou retirá-la do mundo do futuro.

Evolução a jato

A história de O Planeta dos Macacos (1968) é curiosa e desconcertante. Os chimpanzés evoluíram e se tornaram a espécie dominante do planeta, tomando o lugar do homem. Até aí, tudo bem, mas o filme se passa no ano de 3978, o que constitui um forte empecilho à sua consistência. Os primeiros hominóides — ancestrais dos primatas atuais — surgiram há 20 milhões de anos. Os primeiros hominídeos — ancestrais do homem — aparecem no registro fóssil há 10 milhões de anos. O ser humano como é hoje surgiu há 300 000 anos. Logo, 2 000 anos é pouco tempo para o chimpanzé evoluir.