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“I am become death”: Oppenheimer e Raul Seixas citaram o mesmo poema hindu

Entenda o verso que parece ter um erro gramatical, que está na mesma escritura por trás da canção Gita, e que consolou o pai da bomba atômica – por ser um incentivo para um guerreiro que sentia remorso por matar.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
Atualizado em 25 jul 2023, 13h50 - Publicado em 19 jul 2023, 16h01

A citação mais conhecida do físico J. Robert Oppenheimer – “pai” da bomba atômica biografado no filme novo de Christopher Nolan – não é dele. É um verso do poema épico hindu Baghavad Gita (título que se traduz por algo como “canção do bem-aventurado”), escrito em sânscrito no quarto século antes de Cristo. 

Mais precisamente, o primeiro da trigésima segunda estrofe, que Oppenheimer traduziu assim:

Now I am become death, the destroyer of worlds.
“Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos.”

Oppenheimer cita o verso em um depoimento gravado após a 2ª Guerra – o físico narra, para uma câmera, a reação de sua equipe no momento da detonação bem-sucedida da primeira bomba atômica no Novo México em 1945. Esse foi o único teste antes dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Aqui vai a transcrição completa de sua entrevista:

“Nós sabíamos que o mundo havia mudado para sempre. Algumas pessoas riram, outras choraram, a maioria ficou em silêncio absoluto. Eu me lembrei de um verso da escritura hindu Baghavad Gita em que Vishnu está tentando persuadir o príncipe de que ele deve cumprir seu dever, e para impressioná-lo, assume sua forma de muitos braços e diz: ‘Agora eu me tornei a morte, o destruidor de mundos’. Acho que todos nós sentimos isso, de uma maneira ou outra.”

O Baghavad Gita é uma das várias escrituras sagradas do hinduísmo e recebeu dezenas de traduções para o inglês e outras línguas europeias ao longo de séculos. Oppenheimer sabia ler sânscrito – de fato, com 25 anos, ele já falava seis línguas – e é provável que tenha traduzido o verso de cabeça ou errado ao citá-lo de memória, já que sua versão não corresponde ao pé da letra a nenhuma versão do poema em inglês. 

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Quem sabe falar (mesmo que só um pouquinho) de inglês, quando se depara com a citação, sempre acha estranha a estrutura “I am become”. Os falantes nativos também acham, e perguntam internet afora se ela está errada. A resposta é “não”: ela só é arcaica. Vamos explicar. 

O inglês de hoje nos dá três possibilidades de conjugação verbal, no contexto desse verso:

I become (o presente, “eu me torno”);
I have become (o presente perfeito, “eu me tornei”);
I became (o passado simples, “eu me tornei”).

Uma delas, o presente perfeito de I have become, não tem uma tradução ou equivalência exatas no português, o que a torna uma eterna dificuldade para os estudantes. A diferença entre I have become e I became – e os critérios para escolher um ou outro – tem a ver com algumas sutilezas. 

De maneira muito simplificada, é o seguinte: se a ação começa e termina no passado, sem influenciar o presente, você tende a usar o passado simples: I ate acarajé when I went to Bahia, “eu comi acarajé quando fui pra Bahia”. 

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Por outro lado, se algo rolou no passado mas tem desdobramentos no presente, ou continua rolando no presente, o presente perfeito é a escolha certa de tempo verbal: I have loved her all my life, “eu a amei por toda minha vida.” 

O I am become escolhido por Oppenheimer, que usa o verbo to be em vez do verbo to have, é um jeito antigo de conjugar o presente perfeito. Aparece também em peças de Shakespeare e na Bíblia do Rei James, que é uma das versões mais famosas do livro sagrado cristão em países anglófonos. 

É provável, claro, que o físico tenha optado por essa forma justamente porque ele aparece em outras peças literárias antigas e cultuadas – o que lhe dá um sabor solene, condizente com a explosão de uma bomba atômica.

O tempo e a morte 

Mais interessante do que o jeitinho épico de conjugar o verbo, porém, é a escolha da palavra “morte”. O termo original, em sânscrito, significa “tempo” ao pé da letra – e a maior parte dos tradutores opta por “eu sou o tempo”, mesmo (você pode ver uma lista com dezenas de traduções possíveis do verso aqui, no site de Harvard). 

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Faz sentido que “morte” e “tempo” sejam intercambiáveis nesse contexto, já que o tempo é um destruidor inevitável de quaisquer mundos: tudo, até a própria Terra, vai desaparecer um dia. 

Traduzir poesia não é um trabalho literal. Se você só olha o significado de cada palavra estrangeira no dicionário e então tenta transcrevê-la na sua língua natal, todo o resto se perde: as rimas, a métrica dos versos, as sacadas. É só tentar cantar uma música em inglês em português para entender por que poemas são, por definição, intraduzíveis: 

I’m in love with the shape of you.
“Eu estou apaixonado pelo formato de você.” 

(Desculpa, Ed Sheeran.) 

Porém, se você fizer um esforcinho para se adequar à métrica, o verso fica cantável:

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“Me apaixonei por suas formas.”

Note que foi preciso mexer com a gramática para encaixar a letra traduzida na melodia da música original. Traduzir poesia é isso: escrever um poema novo que remeta ao antigo da maneira mais completa possível. Considerar ritmo e forma além do significado. 

Com a interpretação em jogo, alguns tradutores preferem usar “tempo” em vez de “morte” no Bhagavad Gita. E é mais fácil entender porque as duas palavras funcionam quase como sinônimos se você ler o verso no contexto da estrofe. Olha só uma versão em português, traduzida por Francisco Valdomiro Lorenz:

“Eu sou o Tempo, destruidor dos mundos.
Sob esta terrível forma, aqui
Me empenho na destruição
Desta multidão de príncipes.
De todos os guerreiros que aqui vês,
Nenhum Me escapará. Só tu os sobreviverá.”

A estrofe revela outro significado oculto na citação de Oppenheimer. Nessa cena do poema, um dos deuses demonstra remorso em matar durante uma batalha. E o outro deus do diálogo comenta, justamente, que a morte é inevitável: os que não morrerem lutando vão morrer depois por causas naturais – simplesmente porque o tempo passa, e a morte é inevitável. Ele continua: 

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“Levanta-te, pois, teu é o poder;
Combate, tu serás o vencedor,
Meu braço já abateu teus inimigos;
Sê instrumento Meu; sê Meu executor.
Derrota todos: Bhishma, Drôna, Karna,
E Yayadratha com os mais heróis;
Eu já os destrui, não estremeças! Coragem!
e serás o vencedor!”

Oppenheimer sentia um remorso enorme por ter criado a bomba atômica, e se dedicou ao ativismo contra armas nucleares. Mas ele não se opôs completamente ao lançamento da primeira bomba contra Hiroshima durante a 2ª Guerra – uma postura ambivalente, que Nolan retrata bem no filme. É possível que os versos tenham lhe dado alguma forma de alívio, já que funcionam justamente como consolo para um guerreiro que não quer guerrear. 

Tá, mas e o Raul? 

Por fim, a curiosidade prometida no título. Sabe a música “Gita”, de Raul Seixas? Outra referência ao Bhagavad Gita. Tá aqui o trecho original, em que o deus lista seus atributos, exatamente como Raul (a lista é longa, colocamos só um pedacinho):

Entre  os  purificadores,  sou  o  puro  ar;
Entre os guerreiros, sou Rama;
Entre  os  peixes  sou  Makara;
Entre  os  rios,  sou  o  Gânges.
De tôda a criação,
Eu sou o princípio, o meio  e  o  fim.
Das  ciências,  sou  a  ciência  do Espírito
e o verbo dos oradores.
Das  letras,  sou  o  A;
nas  palavras  a  conjunção.
Eu  sou  o  tempo  perdurável
e  Aquêle  cuja face se volta para tôdas as partes.

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