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Inversão da ordem

Tem alguma coisa muito estranha acontecendo no mundo. De quem é a culpa? Dos coletivos, organizações misteriosas onde o planeta funciona ao contrário

Denis Russo Burgierman

Tem um fenômeno esquisito, quase nunca mencionado pela mídia, se espalhando pelos quatro cantos do mundo. É só prestar atenção: os sinais estão por toda parte. Em Roma, dezenas de pessoas sequestram um ônibus e, armados de aparelhos de som, começam uma festa lá dentro. Interrogados, vários deles afirmam ter o mesmo nome: Luther Blissett. Em Nova York, surgem placas sinalizando lugares históricos sombrios, como o mercado onde se leiloavam escravos. Em mais de 300 cidades do mundo, na última sexta-feira de cada mês, bandos de centenas de ciclistas se encontram aparentemente por coincidência e param o trânsito na hora do rush. Cidades dos pampas à Amazônia são invadidas por placas de trânsito adulteradas, paraquedistas de brinquedo caindo de arranha-céus e milhões de adesivos caseiros multicoloridos. Em Belo Horizonte, abre-se uma loja grátis. No norte da Itália, aparece um gigantesco coelho felpudo de 55 metros de altura. Um olhar mais atento no coelho revela o horror: suas tripas coloridas estão para fora.

Será que esses acontecimentos bizarros têm alguma conexão entre si? Sim. Todos eles são obras de “coletivos”.

Mas, afinal, que diabos é um “coletivo”? É impressão minha ou eles estão se espalhando mais rápido do que gripe?

Coletivos são grupos de pessoas, geralmente sem vínculo formal, geralmente construindo coisas grandiosas, geralmente fazendo algo que pode ser considerado arte, mas geralmente rejeitando o rótulo de “artistas”. Há coletivos em toda parte. “Não deve ser difícil escrever sobre isso”, pensei, quando a Super me pediu esta matéria. Aceitei a encomenda. Ah, se arrependimento matasse.

Comecei a pesquisar. Não encontrei nenhum livro esclarecedor. Nenhum site completíssimo, tipo “www.collectives.com”. Quase nenhum especialista. Quase nenhum conhecimento consolidado. Apenas milhares de informações fragmentadas e contraditórias. Comecei então a buscar traços comuns. Que nada. Cada coletivo parece ser um mundo, com suas próprias mitologias e regras.

Por exemplo, aqueles que citei no começo da matéria. O Luther Blisset, que sequestrou o ônibus, reunia mais de 400 artistas e escritores europeus que, entre 1994 e 1999, se dedicaram a inventar histórias falsas para enganar a imprensa e mostrar como os jornalistas somos incompetentes. Depois que se desfez, 5 membros fundaram o Wu Ming, coletivo italiano que escreve romances de sucesso. O RepoHistory, da placa do mercado de escravos de Nova York, era um grupo dos anos 90 dedicados à recuperação de passados perdidos. O Critical Mass, sem líder e reivindicação clara, promove invasões ciclísticas mensais há 17 anos em quase toda grande cidade do mundo. Os coletivos brasileiros de intervenção urbana são centenas, interessados em espalhar sua mensagem pelas ruas, em vez de abandoná-las em museus desertos. A loja grátis, instalada num mercado decadente de BH, na qual qualquer um pode deixar e pegar o que quiser, é um projeto do Ystilingue. O coelho gigante, que vai ficar apodrecendo até 2025 numa montanha italiana, foi feito com lã e palha pelo coletivo austríaco Gelitin. Eu poderia passar parágrafos e parágrafos dando exemplos como esses. Mas o que afinal eles têm em comum um com o outro?

A história e a inspiração

Resolvi pedir socorro. Telefonei para o Ronaldo Lemos, criador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV do Rio, um dos pesquisadores mais antenados em novidades do Brasil. Eu sabia que ele não me desapontaria. Coletivos não são novidade, ele contou. Num certo sentido, eles sempre existiram: qualquer grupo compartilhando o processo criativo é um coletivo. Mas o fenômeno explodindo agora tem raízes nos anos 1910s, quando surgiram 3 movimentos: o dadaísmo, o construtivismo e o surrealismo. Cada um tinha um manifesto e reunia artistas trabalhando juntos a serviço de um projeto coletivo. E, cada um de seu jeito, tinham um caráter contestador. Não apenas propunham um estilo artístico novo, punham em questão o próprio conceito de arte (exemplo é a obra do dadaísta Marcel Duchamp: um urinol, transformado em arte só porque foi levado a um museu).

Aí a 2ª Guerra começou, terminou e, ao fim dela, o mundo estava dividido em dois: capitalistas e comunistas. Era a Guerra Fria. Começaram a surgir coletivos que davam um passo além: eles não queriam apenas mudar a arte, queriam mudar o mundo. O exemplo mais radical foi o dos situacionistas, influenciados pelo marxismo, que ajudaram a começar a revolta estudantil de maio de 1968 na França.

Os coletivos de hoje, pós-Guerra Fria, continuam querendo mudar a arte e o mundo. Mas, como o Muro de Berlim caiu, abandonaram o discurso marxista. Muitos são influenciados por um escritor americano chamado Hakim Bey, hoje com 64 anos, que criou o conceito de “Zonas Autônomas Temporárias” (TAZ, na sigla inglesa), inspirado nas ilhotas da costa africana administradas por piratas até o século 19. TAZ são espaços nos quais vigoram regras diferentes das do resto da sociedade. E em vez de tentar mudar o mundo inteiro, os coletivos passaram a criar espaços alternativos, que servem para experimentar novas formas de viver e para influenciar os outros lá fora. Cada coletivo, por esse ponto de vista, é uma TAZ, com suas regras e ideias próprias – e é por isso que é tão difícil achar traços em comum entre eles. Cada um é um. Coletivos, então, não são lugares onde pode tudo – são lugares com regras próprias, mas diferentes das do lado de fora.

Nem tudo é política. Ou é?

Quer dizer então que coletivo é, no fundo, coisa de comunista? Não. Pegue o caso dos artistas cubanos do Los Carpinteros, que trabalham com madeira nobre e cujas obras lembram cenas aristocráticas com lareiras e pianos. Esse é o jeito que eles encontraram de fazer arte provocativa na Cuba de Fidel.

O próprio jeito coletivo de trabalhar é, de certa maneira, política – porque contém uma crítica ao individualismo, que é a regra no mundo de hoje. Exemplo: os 3 fotógrafos do coletivo paulista Ciadefoto. Ao assinar coletivamente suas fotos, eles incomodam um monte de fotógrafos – que acham que a autoria é uma conquista da profissão.

Os coletivos mais interessantes são aqueles que questionam o mundo, a arte, a política, a economia, mas sem fazer discurso, apenas agindo. É o caso do Superflex, formado por 3 artistas dinamarqueses. Um deles, Bjørn Christiansen, que mora no Brasil, contou sobre os projetos do grupo. Um exemplo: eles foram à Amazônia, perceberam que a produção de guaraná era controlada por um punhado de grandes empresas de refrigerante, que pagavam pouco aos agricultores pelo fruto do guaraná. Aí resolveram lançar seu próprio refrigerante, batizado de guaraná Chupdower. Fizeram contato com produtores, montaram fábrica, articularam com comerciantes na Europa e lançaram o produto, até com propaganda no YouTube ironizando a linguagem publicitária. Hoje, se você visitar a Dinamarca, pode para tomar guaraná Chupdower. Os lucros vão inteiramente para os agricultores da Amazônia.

“É um absurdo você não querer ser parte do capitalismo”, diz Bjørn. “Capitalismo é um fato. O que podemos é tentar mudar o sistema entrando nele.” O Superflex também criou uma cerveja grátis e construiu uma usina de energia na África. Esses projetos são obras de arte: expostos em museus e bienais. Mas também são empresas, marcas, empreendimentos capitalistas. Ou seja: o Superflex não apenas protesta – ele altera diretamente o mundo.


O quarto setor: as pessoas

Pessoas atuando sozinhas não costumam fazer grande diferença. Historicamente, os únicos jeitos de empreender grandes projetos têm sido criar uma empresa ou apelar ao governo. Isso está mudando rápido. A internet tornou possível juntar muita gente em esforços conjuntos, sem gerentes. Por exemplo: criar uma enciclopédia (a Wikipedia) ou um sistema operacional (o Linux). “Estamos vivendo um aumento impressionante na nossa capacidade de compartilhar, cooperar uns com os outros e gerar ação coletiva”, escreveu o teórico da internet americano Clay Shirky, no livro Here Comes Everybody (“Aí Vem todo Mundo”, sem tradução brasileira).

No fundo, a Wikipedia e o Linux também são coletivos. E o Superflex e o Los Carpinteros, embora não tenham nascido na internet, se beneficiam de um mundo onde é possível articular ideias grandiosas sem governos ou empresas. Enfim, tudo é parte de um mesmo fenômeno.

Não é à toa que a ideia de coletivo está vazando da arte para o resto da sociedade. Exemplo disso é o designer mineiro Helder Araújo. Helder tem duas empresas – a Webcitizen, que usa a internet para aproximar governos e cidadãos, e a Spix, que faz o Busk.com, um buscador de internet que doa 1 grama de alimento a cada busca. Nenhuma dessas empresas tem sede. Os funcionários não batem cartão. São empresas – pagam impostos e têm registro jurídico -, mas funcionam como coletivos. “Isso dá agilidade para experimentar, para inovar”, diz Helder.

No fim de semana passado, fui convidado para o aniversário de um amigo jornalista, o Daniel Nunes, num sítio que ele divide com 7 amigos. O Dani não é um hippie que decidiu se afastar do sistema. Pelo contrário: ele tem um emprego estressante e trabalha num prédio de vidro no coração econômico do país. Mas, nos finais de semana, ele é parte de um coletivo, cujo objetivo não é produzir arte nem dinheiro: é administrar um sítio de 46 000 metros quadrados. A propriedade saiu baratinha para cada um. As tarefas foram divididas em 8 grupos: verde, água, animais, lixo, comunicação e festas, alimentação e faxina, administração e manutenção. Cada um é responsável por um desses assuntos e co-responsável por outro. Assim, todo mundo é chefe e funcionário ao mesmo tempo e ninguém é superior a ninguém. No futuro, cada um terá uma casa lá. Eles criaram uma TAZ.

Mas por quê? A melhor resposta que encontrei foi a do Bjørn Christiansen, do Superflex. “Porque os seres humanos são animais sociais. Vivemos melhor em grupo. Nossas ideias são melhores em grupo, porque já nascem testadas e criticadas.” Visto por esse prisma, nada indica que a pandemia de coletivos esteja em vias de enfraquecer.

Gelitin

Grupo de 4 artistas vienenses que se especializou em intervenções artísticas espetaculares com as quais o público interage. O coelhão, abandonado perto de Gênova, Itália, pode ser escalado, explorado como se você fosse um verme num animal em decomposição. Tecer o coelhão levou mais de 5 anos e o plano é que ele fique abandonado até 2025, para que a obra seja um comentário sobre a decadência.

Futurismo

Movimento surgido na Itália em 1909, o futurismo foi uma das 3 vanguardas modernas que podem ser consideradas avós dos coletivos de hoje. Apaixonados por tecnologia, os futuristas renegavam as tradições, como afirmaram em seu manifesto: “Não queremos nada com o passado”. Sua arte era influenciada pela publicidade: gráfica, direta, com mensagens atraentes. Suas obras eram cartazes, pôsteres, livros, algo que os situacionistas herdaram deles.

Situacionismo Internacional

Os situacionistas, influenciados pelo marxismo, eram artistas que acreditavam que o povo só não fazia a revolução comunista porque estava hipnotizado pela mídia, que orquestrava uma cultura do espetáculo. Para combater essa cultura, eles abriram mão de suas individualidades (em nome de um projeto coletivo) e saíram espalhando pichações e cartazes pelas ruas, com frases quase publicitárias de oposição ao sistema, que se tornaram famosas no mundo todo.


Superflex

Os 3 dinamarqueses do Superflex são artistas, mas seus projetos vão muito além do mundo das artes: exercem um impacto real no mundo. Um exemplo é a cerveja grátis, cuja fórmula é aberta (open source) e disponível a qualquer pessoa no mundo que queira fabricar a bebida. Eles também produzem guaraná na Amazônia. Em vez de chamar esses projetos de “obras de arte”, eles preferem o termo “ferramentas”, porque são coisas que podem ser usadas por outras pessoas para alterar o mundo. Outra de suas obras famosas é um vídeo que mostra uma réplica de um McDonald’s sendo inundada. Tudo o que fazem é um comentário crítico sobre o capitalismo, mas não necessariamente contra ele.


Wu Ming

A Fundação Wu Ming, formada por 5 ex-membros destacados do Luther Blissett, é um coletivo de escritores que assina seus livros como se fosse um autor só. A ideia de fazer literatura em grupo é bastante radical. Assim como a arte, essa é uma área em que o indivíduo é valorizado. Seus romances, com histórias fantásticas e complexas, e um humor ácido, foram traduzidos em vários países. Eles se recusam a ser filmados ou fotografados.


Para saber mais

Here Comes Everybody Clay Shirky
The Penguin Press, EUA, 2008

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Wu Ming, Conrad, 2005