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Música: Embuste eletrônico

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h51 - Publicado em 30 abr 2004, 22h00

Guilherme Coube*

A apresentação de John Carter e Fatboy Slim, em março, nas areias do Rio foi uma caricatura de como anda a música eletrônica no Brasil. Alheios ao que saía das caixas de som, 150 mil mortais se acotovelavam para conseguir um brinde da marca patrocinadora. Enquanto isso, uma área vip com 4 mil convidados vestindo camisetas laranjas roubou a parte nobre da pista. Para eles, o evento era o máximo. Entre eles estavam aqueles que se dizem formadores de opinião e pais de uma suposta cena. Cena? Se houvesse cena, a produção nacional seria efervescente, o público seria exigente e a imprensa saberia informar e criticar. E isso não acontece. O que faz então essa gente que respira música eletrônica e que diz levar tudo muito a sério? Além de bater ponto em colunas sociais e trocar seus reinos por um convite vip, essa gente (que poderia ajudar) só atrapalha. Protegidos pela impenetrável áurea de desbravadores, nossos bandeirantes da eletrônica se acomodaram em suas popularidades de bairro e compactuaram com a transformação da música eletrônica em um fenômeno mercadológico no Brasil.

A pista brasileira é musicalmente imatura e desinformada. O ecstasy, as roupas e o comportamento chegaram ao Brasil muito antes e com muito mais força que a música e seu significado. Basta ver o que é realmente consumido por essa tribo: celulares, energéticos, pirulitos e jeans. Música, informação e crítica originais, zero. Empresas de bens de consumo identificaram aí uma oportunidade e criaram um nicho de mercado: gente jovem, moderna, atraída por coisas coloridas. O estereótipo foi inventado segundo conveniências comerciais – e não assimilado como subproduto de um movimento cultural. Diferente, por exemplo, do hip hop, gênero que já tinha produção e público interessado bem antes de se espalhar pelo Brasil e ser traduzido em códigos de conduta e de consumo. Assim a música eletrônica cresceu por aqui: como fenômeno mercadológico, e não como gênero musical que tenta transmitir uma visão de mundo (objetivo de toda expressão artística, não?). Vá a uma pista qualquer de música eletrônica e pergunte o que as pessoas estão fazendo ali. A música será sempre a cerejinha no bolo. A impressão que fica, apavorante, é que tudo está configurado num ciclo vicioso. A produção rarefeita não chama a atenção da mídia preconceituosa que não informa o público inerte. Este não consegue entender que, além da festa, a música também é importante. A produção não é impulsionada e voltamos ao começo… O mais razoável é que a ruptura desse ciclo aconteça a partir dos ditos formadores de opinião, os baluartes da querida cena. Essas pessoas, além de sobrenomes e rostos conhecidos, têm credibilidade junto às empresas dispostas a investir em “plataformas inovadoras de entretenimento”. Por isso podem ajudar a música eletrônica a descolar-se da espiral esquizofrênica em que se meteu.

Das tentativas mais relevantes de se entender ou explicar qualquer coisa, temos apenas dois livros com enfoques específicos (um sobre a os bastidores da baladinha paulistana e outro sobre a cultura do DJ no Brasil). A imprensa nacional ainda não comprou a música eletrônica. As coberturas são ocas e não raro ficam só no desdobramento preguiçoso de releases. A crítica simplesmente não existe. Em uma palavra: a música eletrônica está ameaçada de nunca passar de uma onda frívola de comportamento e consumo no Brasil. A música, sabemos, é uma arte plástica. Modelável, passível de improvisos e apreciável simultaneamente à sua criação. E, por andar de mãos dadas com a tecnologia, a música eletrônica elevou as possibilidades de deformação, de improviso e de mistura ao infinito. Devido a sua natureza rica e mutante, deve ser levada mais a sério no Brasil por quem (acha que) ouve, (acha que) produz e (acha que) informa. Ou as festas continuarão sendo meros movimentos de manada. Claro, cada vez mais cheias e com todos os ingredientes para um bom divertimento juvenil: decibéis, cervejinha, garotas rebolando e estupefacientes a rodo. Mas que tenhamos, então, a honestidade de aceitar: não há “cena” alguma. E, até hoje, tudo não passou de uma farsa com jeitão de shopping center.

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*Pianista e ex-publicitário, mora em Nova York

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