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Música para todos

Prefuse 73 – One word extinguisher (Warp) Importado

Uau. Se fosse possível cometer um estelionato jornalístico e escrever uma resenha de três letras, essa seria a única possível para falar de “One Word Extinguisher”, o novo disco de Prefuse 73. Prefuse 73 é dos um dos codinomes do americano Scott Herren, um produtor de hip hop de Atlanta, nos Estados Unidos. Empregado num estúdio comercial da cidade, Herren estava entediado de fazer as mesmas batidas de sempre, que seriam coladas aos mesmos vocais de sempre e tocadas nas mesmas festas de sempre. Nas horas vagas, sua diversão era subverter a ordem natural do hip hop: reduzir os vocais dos MCs a fragmentos sônicos, desfigurar os samples de forma que nem os pais dos original pudessem reconhecê-los. Essa estética de produção poderia colocar Herren no mesmo barco de Matthew Herbert e Akufen, dois expoentes do som que nestes dias de infinitos recursos digitais é genericamente chamado glitch (falha, em inglês). Só que o som de Prefuse 73 não cabe numa definição. É hip hop, como se ouve logo na segunda faixa, “Plastic”. Mas é uma das únicas faixas em que a voz do MC é inteligível. No restante do álbum, os vocais recortados são apenas instrumentos musicais.

Em entrevistas, Herren disse que o disco foi produzido durante uma longa separação – e aí você começa a entender o porquê de músicas como “Storm Returns”. Não pense em DJ Shadow ou RJD2, dois outros mestres do hip hop instrumental. Não, aqui, não há climas nem sensações sugeridas. Herren criou um som cru, um direto no nariz do ouvinte. Melodias melancólicas e sublimes são intercaladas por vinhetas supereditadas. Mas trata-se apenas de um respiro, do braço encolhido antes do golpe. Não adianta se esquivar. A música pega na cabeça e no estômago – além de dar aquele nó no coração. “One Word Extinguisher” confunde suas idéias sobre onde termina o hip hop e onde começa a eletrônica. Deixe-se nocautear.

Sérgio Teixeira Jr.

Fine Arts Militia – We Are Gathered Here (Koch) Importado

Onze de setembro, a política de guerra dos Estados Unidos, a bancarrota econômica norte-americana, a nova realidade eletrônica… Todos são temas discutidos por Chuck D em seminários e palestras e que ainda não tinham encontrado espaço nas músicas do Public Enemy. O rapper montou um combo de jazz, funk e rock para a base instrumental para discursos politizados. Mas não acredite em descrições. A referência aqui não é o spoken-word jazzístico. Há flertes com o novo metal e jazz-funk, mas o grupo não pende para nenhum lado. Fica tudo mais fácil para o verbo calmo e macio deste Chuck D 2003.

Alexandre Matias

Black Eyed Peas – Elephunk (A&M) Importado

O trio de Los Angeles agora virou quarteto (com a deliciosa voz da novata Fergie). Dispostos a apagar a pecha de sub-A Tribe Called Quest, eles atiram para todos os lados: funk para festas, rock·n·roll descarado e até uma visita ao Brasil. O groove começa na primeira faixa, “Hands Up” e segue em pérolas como “Smells Like Funk” e a excelente “Let·s Get Retarded”. A viagem brasileira é “Sexy”, com os teclados de Sérgio Mendes, convidado especial. Os BEP entram para o primeiro escalão do hip hop do século 21. E isso não é pouco.

Alexandre Matias

RJD2 – The Horror EP (Def Jux) Importado

RJD2, a melhor surpresa no hip hop americano de dois anos pra cá, vem com uma nova versão de “Deadringer”, seu álbum de estréia. Cata o que jogou em discos alheios para montar seu EP de lados b. “The Horror” desfila por praias tão diferentes quanto o dub, o soul, o funk, o electro e as baladas. Como DJ Shadow, RJD2 funde rótulos musicais na mesma cama instrumental. Macia ou frenética – mas nunca indiferente.

Alexandre Matias

Norman Jay – Desert Island Mix Pt. 2 (Journeys by DJ) Importado

Norman Jay é o único DJ com uma honra concedida pela rainha. Entre outros feitos, ele tem o soundsystem mais tradicional do carnaval londrino de Notting Hill. Aqui, Jay mixa faixas que levaria para uma ilha deserta. São grooves raros dos anos 70 e alguma coisa dos anos 80 e 90. O destaque é “Maneater”, de Hall & Oates. O encarte avisa: “Somente grandes paixões podem elevar a alma aos grandes feitos”. É isso mesmo. E, de quebra, fazer você dançar como se não tivesse ninguém por perto.

Erika Brandão

Curumin – Achados e Perdidos (Y/B Brasil) Nacional

Quase uma década se passou desde Samba Esquema Noise, do Mundo Livre S/A. Composto no início dos anos 90, a estréia de Fred 04 retomava o papo tropicalista de linha evolutiva da MPB, trocando João Gilberto por Jorge Ben. Hoje o ML encontra filhotes nascendo como flores na lama. Curumin é o caçula. Faz a ponte do universo de samba e malandragem com o R&B e o hip hop. O groove corre solto pelo disco, seja conduzido por baixo sintético, toca-discos ou cavaquinhos. Ainda conta com doses cavalares de Stevie Wonder, camadas de P-Funk, samba-rock, soul e partido-alto, djavanismos e dub. Seria perfeito não fosse o fantasma tribalista de Arnaldo Antunes.

Alexandre Matias

 

Pílulas

• O nome Prefuse 73 É uma referência ao jazz produzido entre 1968 e 1973, antes do movimento fusion. Logo, pré-fuse 73. Sacou?

• Scott Herren lança discos com outros dois nomes: Savath + Savalas e Delarosa & Asora, ambos de música eletrônica (e ambos muito bons, confira)

• Americano, Herren vive em Barcelona. Seu pai é catalão, e ele se diz cansado do clima de intolerância nos Estados Unidos. “Este disco é dedicado a todos os povos que estão na ponta errada do ódio do governo americano”, escreveu Herren em “One Word Extinguisher”