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Na avenida

Um conto futurista de Daniel Galera.

O caminho do colégio até a casa em que viviam era percorrido em grande parte por uma avenida de pista dupla, com canteiro central e densamente arborizada nos dois lados. No verão, em determinados dias, cigarras escondidas nos galhos apitavam em uníssono com um ardor que parecia capaz de trincar as janelas de vidro do automóvel. Mas na maior parte dos casos ela escutava apenas o sussurro aveludado dos pneus rodando sobre o asfalto. Nas raras vezes em que outro automóvel silencioso cruzava por eles, Milena lembrava que aquela avenida fora construída décadas atrás para dar vazão ao tráfego congestionado que ligava a zona sul da cidade ao centro e tentava imaginar o trovejar constante de dezenas de extintos motores a combustão acelerando e parando aos soluços, atrapalhando a conversa dos motoristas irritados. Avenidas congestionadas já tinham desaparecido quando Jonas nasceu. Milena as tinha visto na juventude, mas hoje em dia pensar nelas era quase como inventá-las. O mundo superpopuloso era como uma ficção científica às avessas.

Naquela tarde Jonas ia sentado no banco do passageiro em sua posição costumeira, com as pernas recolhidas sobre o assento, jogando alguma coisa nos óculos de realidade virtual. Os tênis do filho estavam sujos do campinho de futebol enlameado do colégio. Milena reparou nos músculos aparentes da panturrilha e do joelho do garoto. Já não eram as pernas de uma criança. Seriam as de um adulto? Jonas desligou o jogo e retirou os óculos. A luminosidade da rua o forçou a piscar os olhos repetidamente, e depois ele adotou um olhar vazio e se perdeu em seus pensamentos. Milena esqueceu o filho por uns minutos e voltou a atenção à pista e ao noticiário que o computador de bordo emitia em volume quase inaudível. A comunidade internacional voltava a impôr sanções à China por violação das diretrizes internacionais de controle de natalidade. O comentarista, um historiador que assinava uma coluna bastante popular no jornal, ressaltava a ironia da situação, lembrando como, poucas décadas antes, o gigante asiático era condenado pelos contornos punitivos de sua política de contenção demográfica.

– Mãe. – Jonas interrompeu o silêncio. – Vou me retirar no dia 2 de outubro.

– Tão cedo? – Milena respondeu por impulso, se arrependendo em seguida. Sabia que o filho considerava a decisão há meses, e era verdade que ele vinha tangenciando o assunto fazia tempo. Não era nenhuma surpresa.

– Não é cedo. Faltam quase dois meses.

– Eu sei. Só estou sendo chata como de sempre.

– E vai ser uma caravana. O Felipe e a Riana vão comigo.

– Que ótimo! – Milena se entusiasmou, se arrependendo outra vez. Não conseguia mais conversar com Jonas sem sentir-se inadequada. Ou contrariava os próprios sentimentos, ou os dele. – Eu gosto muito da Riana. Ela é uma graça, e tem uma cabeça tão adulta… Vai ser bonito vocês irem juntos.

Jonas pareceu satisfeito e não falou mais. Milena sufocou um suspiro. Não queria perdê-lo. Ela e Zeca tinham decidido ter a criança depois de muitos anos dispensando filhos. Uma vez, no quarto ano de casamento, entrou no Posto de Controle de Natalidade para renovar o dispositivo intrauterino e quase solicitou uma ligadura. Faziam na hora e era gratuito como todo o resto. A maioria das mulheres optava por procedimentos definitivos. Homens nem tanto, preferiam pílulas masculinas a vasectomias. Ela havia recuado na última hora. Podia querer um filho no futuro. Que mal fazia? Um só.

Ontem, quando chegaram em casa, Jonas tinha se oferecido para esquentar a comida do jantar e picar vegetais para uma salada. Não era comum ele assumir o almoço. Em geral ia treinar cestas de basquete no pátio dos fundos enquanto ela cozinhava. O garoto estava animado pela ideia da retirada.

Milena ficava um pouco perplexa diante da postura que a geração do filho tinha diante da vida e da morte. Nascida na geração do milênio, ela própria entendia a vida como opcional. Mas Jonas e seus colegas já chegavam à adolescência com uma concepção diferente. Abandonar a vida cada vez mais cedo era quase uma missão. Ainda na infância do menino, tinha visto sinais disso. Retirar-se da vida estava no cerne da noção de identidade daquela garotada, mais do que as roupas, as bandas ou as preferências sexuais. Foi a geração de seu filho que cobriu de eufemismos as decisões pessoais de vida e morte: eles se retiravam em caravanas. Esforçavam-se para sair da vida com um evento planejado sob medida, depois de uma presença sobre a terra cuja brevidade seria compensada por uma personalização impecável. Uma vida exposta e aprovada nas redes sociais, cristalizada para sempre por uma saída de cena calculada para o momento exato.

Somente pequenos grupos conservadores e os tímidos remanescentes dos velhos monoteísmos ainda se davam ao trabalho de gritar termos como “suicídio coletivo”, agarrados a anacrônicas visões da vida humana como algo sagrado. Havia as chamadas seitas de fertilidade, que abrigavam adeptos da reprodução descontrolada em prédios abandonados e chácaras isoladas. Havia também os adeptos da morte suja, que buscavam nos rituais sanguinolentos um contraponto à banalização asséptica da morte. Sobre esses, Milena não gostava nem de pensar. Tinha visto vídeos na internet e ficado muito perturbada.

Para a geração de Jonas, já fazia parte dos currículos escolares a noção de que buscar transcendência na reprodução, viver ao máximo, viver até o fim, tornava insustentável a perpetuação da raça humana. E quem tinha colocado isso lá eram pessoas como Milena. Pessoas como o pai de Jonas, que tinha ido à farmácia comprar um kit de eutanásia meia hora depois de ser diagnosticado com câncer pulmonar. Dentre várias opções, Zeca escolheu um kit que induzia lenta e progressiva anestesia, até a perda da consciência em uma morte indolor. A festa de sua partida contou com 40 amigos e familiares, que assistiram juntos, com risos e lágrimas, ao vídeo biográfico que o Google editava automaticamente. Jonas tinha 8 anos quando viu o pai fechar os olhos para sempre.

O mundo tinha então 4 bilhões de pessoas. As estimativas atuais eram de 2,6 bilhões.

– Jonas. – Milena fez uma longa pausa. A avenida serpenteava morro abaixo em curvas abertas e ela queria chegar logo em casa. – Até outubro, vamos tentar…

– Já pensei em tudo, mãe. A gente vai fazer um monte de coisa juntos até lá. Mas a data eu decidi. É assim que eu quero.

 (Laurindo Feliciano/Reprodução)

Milena sentiu a mão do filho em seu braço. Era a primeira vez em muito tempo que ele tocava nela. Ele usava um anel de madeira com um enfeite oval de aço escovado. Era alguma coisa nova da Apple. Ela sentiu o braço inteiro e as costelas se arrepiando. Com o olhar fixo na mão carinhosa do filho, não viu a caminhonete de luxo descontrolada cruzar o canteiro central. O volante puxou violentamente para o lado, ouviu seu carro sendo esmigalhado e sentiu a gravidade tentando arrancar sua cabeça do pescoço.

Quando voltou a si dentro do casulo de aço e plástico, a primeira coisa que viu foi Jonas, ainda preso ao banco do passageiro pelo cinto de segurança. O sangue escorria da topo da cabeça do garoto como chocolate derretido. Ele olhava para os lados como se assistisse a uma partida de tênis. Já não estava mais ali de verdade. Ela ainda esperou alguma última palavra, mas não veio nada. A avenida continuou vazia e em silêncio.

Daniel Galera é escritor e vive em Porto Alegre. Seu mais recente livro é o romance Barba Ensopada de Sangue.