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“Ninguém quer um herói perfeito”, diz criador de Lupin, o hit do ano da Netflix

A série francesa sobre um ladrão carismático foi vista por 76 milhões de pessoas em 2021. Conversamos com o elenco para falar dos novos episódios, que estreiam sexta (11).

Por Rafael Battaglia Atualizado em 7 jun 2021, 21h11 - Publicado em 7 jun 2021, 19h10

O primeiro episódio de Lupin começa com uma tomada aérea do museu mais icônico do mundo: o Louvre, em Paris. A pirâmide de vidro na entrada ilumina a noite. Logo em seguida, somos apresentados ao personagem de Omar Sy (o carismático ator que brilhou em Intocáveis). Rapidamente, ele se infiltra disfarçado de faxineiro e se dirige a um colar de 20 milhões de euros. Fica claro que ele irá roubá-lo.

Pronto: em menos de cinco minutos, fui completamente fisgado pela série.

Não estou sozinho nessa. Lupin é o maior sucesso de 2021 da Netflix até agora. No primeiro trimestre, 76 milhões de usuários deram play na série – o equivalente a 37% dos assinantes da empresa. Nos EUA, foi a primeira produção francesa a figurar no top 10 da plataforma.

“Eu não sei explicar o êxito da série, e confesso que até agora estamos tentando entender o que aconteceu”, disse Sy em coletiva de imprensa realizada (à distância) na quinta-feira (3). O evento aconteceu para promover a chegada da segunda parte de Lupin, que estreia nesta sexta (11).

  • Esse Sherlock tá diferente

    Imagem da série Lupin.
    Netflix/Reprodução

    Se você caiu aqui de paraquedas, uma rápida contextualização. Lupin conta a história de Assane Diop (Sy), filho de um imigrante senegalês que trabalhava para a família do ricaço Hubert Pellegrini (Hervé Pierre). O pai de Assane é acusado injustamente de roubo por Pellegrini e vai para a cadeia. O garoto, então, passa a viver sozinho – e jura vingança aos que lhe fizeram mal.

    Assane se torna um ladrão inspirado por um livro de Arsène Lupin, dado de presente por seu pai. Lupin é um personagem criado em 1905 pelo francês Maurice Leblanc. Ele estrelou dezenas de romances e já foi adaptado para TV, teatro e quadrinhos. Mas a série da Netflix é a primeira a recriar o personagem numa versão século 21 – algo na linha de Sherlock, a série da BBC estrelada por Benedict Cumberbatch.

    “De fato, essa foi uma de nossas inspirações”, disse George Kay, o criador de Lupin – que, assim como Sherlock Holmes, é britânico. “Mas a diferença é que nós não adaptamos a obra literária de Leblanc. Ela foi uma dentre as várias inspirações para a nossa história.”

    Omar, que além de protagonista também é produtor-executivo de Lupin, entrou em contato com os livros clássicos quando se juntou ao projeto da série. “Antes, eu conhecia a história pela sua versão em mangá”, contou o ator, que é fã de quadrinhos, ao The Hollywood Reporter.

    (As histórias de Lupin são famosas no Japão. Por lá, a série de mangás Lupin III narra as aventuras do neto do Arsène Lupin original. Na Netflix, dá para assistir ao anime Lupin III – O Castelo de Cagliostro, caso você tenha ficado curioso.)

    “Durante a preparação para a série, eu li as aventuras de Lupin para os meus filhos, e eles ficaram obcecados”, contou a atriz Ludivine Sagnier, que interpreta Claire, o par romântico de Assane, com quem tem um filho adolescente, Raoul (Etan Simon).

    Nas histórias, Lupin é um mestre dos disfarces, mas o seu visual clássico é o de um cavalheiro sofisticado: cartola, sobretudo e monóculos. Na série, restou a homenagem moderna: uma boina e um grande casaco. “Eu pedi ao departamento de figurino para que o casaco fosse o mais longo possível, para que ficasse parecido com uma capa de super-herói”, disse Omar. O Air Jordan que Assane sempre usa nos pés também foi sugestão do ator. “Eu adoro esses tênis.”

    Imagem da série Lupin.
    Netflix/Reprodução

    Lost in translation

    Lupin é feito pela Gaumont, a produtora de filmes mais antiga do mundo. Ela foi criada junto com o nascimento do cinema, em 1895. Com a Netflix, a empresa francesa já trabalhou por trás da série Narcos – e parece ir na contramão da resistência de parte do país com a plataforma de streaming.

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    (Vale lembrar que o Festival de Cannes, um dos mais prestigiados do mundo, se recusa a exibir filmes da Netflix por não estrearem em salas de cinema convencionais. Mesmo assim, a plataforma de streaming inaugurou o seu escritório em Paris em 2020.)

    Outro nome francês de peso em Lupin é o diretor Louis Leterrier, que já dirigiu vários filmes de ação em Hollywood, como O Incrível Hulk (2008) e Truque de Mestre (2013). Ele dirigiu os três primeiros episódios da série e ajudou a dar o tom da produção.

    “Só tem um pequeno detalhe: eu não falo muito bem francês”, confessou Kay. Mas para tudo se dá um jeito. “Eu escrevo o roteiro em inglês, e a primeira leitura dos atores é feita com essa versão. Só depois ela é traduzida”, explica Kay, que já escreveu episódios de Killing Eve, além de ser o autor da série policial Criminal, disponível na Netflix.

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    Coletiva de imprensa de Lupin. Da esquerda para a direita: a apresentadora Genie Godula, os atores Ludivine Sagnier e Omar Sy e o criador da série, George Kay. Netflix/Divulgação

    Apesar de ter um criador britânico, há a constante preocupação em Lupin de mostrar a França como ela realmente é. “A nossa Paris é realista e contemporânea, com locações que você não vê em cartões-postais”, disse Ludivine. “Acho que isso explica parte do sucesso da série.”

    Durante a coletiva, perguntaram para equipe se o sucesso de Lupin nos EUA poderia inspirar uma nova versão da série, em inglês. Eles foram enfáticos:  “Essa é uma série totalmente francesa, e temos muito orgulho disso”, falou Omar. “Nós não queremos mudar isso”, completou. “Também não vejo necessidade”, disse George.

    Gravações pandêmicas

    Imagem da série Lupin.
    Netflix/Reprodução

    Por causa da Covid, as gravações de Lupin foram interrompidas em meados de março do ano passado e retomadas dois meses depois, em maio, seguindo os protocolos de segurança definidos pelo governo francês.

    Para George, foi um grande desafio, já que, durante boa parte da nova leva de episódios, ele estava isolado em Londres – e precisou acompanhar as gravações à distância. Além disso, as equipes de filmagem (iluminação, design de produção, etc.) não trabalhavam ao mesmo tempo, para reduzir o número de funcionários simultâneos no set.

    “Ficamos muito felizes em voltar a gravar – algo que não aconteceu com algumas produções após o lockdown“, contou Omar. “Mas era estranho conhecer novas pessoas e até mesmo reconhecer os antigos colegas, já que todos estavam de máscara. No meu caso, houve ainda um desafio extra: trancado em casa, eu voltei com cinco quilos a mais para gravar”, acrescentou, rindo.

    A nova temporada de Lupin começa no exato instante em que o último episódio da primeira havia terminado. Sem entrar em muitos detalhes, ela continuará a mostrar a saga de Assane contra o sr. Pellegrini – desta vez, com participação ainda maior da polícia, sobretudo o agente Guedira (Soufiane Guerrab). Além disso, as cenas de flashback trarão mais detalhes sobre o passado de Assane e Claire (e do caminho traçado pelo protagonista para virar um ladrão).

    Imagem da série Lupin.
    Netflix/Reprodução

    Enquanto a Parte 2 não chega, a Netflix já tratou de confirmar uma terceira temporada de Lupin. Para Omar, não será problema. “[Assane] oferece desafios e oportunidades perfeitos para um ator”, disse, em referência à personalidade (e os disfarces) do personagem e à variedade de cenas que a série proporciona (roubos, lutas, perseguições, diálogos dramáticos e por aí vai).

    “Nosso objetivo principal é divertir as pessoas, mas há também mensagens sociais pela série”, disse George. “A história de Assane fala sobre as pessoas que trabalham abaixo do radar. Classes sociais que, na maior parte do tempo, são invisíveis.”

    “Assane é um personagem com muitas falhas, e eu adoro isso”, contou Omar. “Ele quer fazer o certo, mas nem sempre sabe como agir.” Para George, essa é a principal razão das pessoas se identificarem com ele: “Você entende as suas motivações. Vamos combinar: ninguém gosta de um herói 100% perfeito.”

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