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“Nos anos 70, ninguém sabia onde estava pisando”, diz David Bowie

Leia entrevista exclusiva concedida pelo músico à revista "Bizz"

*Entrevista concedidada à revista BIZZ, em julho de 1992*

1990 foi ótimo para o velho camaleão do rock’n’roll e especialmente para seus fãs brasileiros, que tiveram oportunidade de presenciá-lo ao vivo por aqui no fim do ano. Em sua primeira turnê solo desde 87, chamada de Sound + Vision (também o título da compilação que puxou o relacionamento de todo seu catálogo pré-Let’s Dance pela Rykodisc, acrescido de faixas-bônus), Bowie apresentou-se com um show baseado em seus maiores hits que fascinou seus admiradores. Anamaria G. de Lemos flagrou-o na coletiva que antecedeu a excursão, realizada no Raibow Theatre, de Londres – palco do “adeus” de Ziggy Stardust, em 73. 

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Estamos aqui para discutir seu primeiro quarto de século do rock, então vamos começar lá por 63. Você largou sua primeira banda, The Konrads, porque eles não queriam tocar rhythm’n’blues, certo?

Exato, e sei exatamente qual que era a música! Era “Can I Get A Witness”, de Marvin Gaye. Eles não queriam tocar de jeito nenhum e eu dizia: “Vocês são estúpidos! Esta música é super excitante”.

Em 66, você estava liderando Davey Jones & The Lower Third, um grupo que tentava ser de r&b e soava muito como The Who.

É, nós sempre abríamos os shows deles. Eles tiveram uma influência enorme sobre nós, mesmo quando se chamavam The High Numbers. Eles eram os melhores e nós chupávamos tudo…

Mas durante algum tempo você também deu uma de cantor folk.

Eu tinha passado por duas ou três bandas e não estava feliz com o que estava fazendo. Então, de repente, me peguei usando uma simples guitarra. Naquela época, para se conseguir público, o negócio era fazer algo folk. Não fiz muito nessa área, porque senti que não era bom nela.

Em 72, com “Changes”, você parecia estar dizendo que fazer o que se bem entendesse podia valer a pena, mas ninguém devia esperar que a sociedade aceitasse isso tranquilamente.

É, aquela coisa: “OK, você liquidou com a unidade familiar, diz que o negócio é ficar maluco, expandir sua consciência e aquela coisa toda. Mas ,agora que você nos deixou, o que resta? Porque nós continuamos aqui, só que sem nossas famílias, totalmente pitados e sem ter a menor idéia de quem somos. Esse era o feeling no inicio dos anos 70: ninguém sabia em que chão estava pisando.

“Changes” também tinha uma frase que daria uma belo título para as suas memórias: ‘Turn and face the strange” (“vire-se e encare o estranho”).

Essa linha foi obviamente chupada do estilo Jim Morrison/Syd Barrett de escrever. Barrett teve uma influência enorme sobre mim… Possuia uma aparência mística, com as unhas pintadas de preto e os olhos maquiados… É muito triste que ele não tenha mantido a energia febril que tinha no início.

Muita gente não sabe que você gravou The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars antes de fazer Hunky Dory.

Quase metade. Eu precisava de bastante tempo para fazer Ziggy então completei antes o Hunky Dory só para cumprir meu contrato – mas mesmo assim, o disco tinha algumas músicas ótimas.

Você escreveu boa parte de Alladin Sane durante a excursão não americana de Ziggy – aquilo era um caos, parecia um jardim zoológico. Você chegou a gravar algumas músicas em Nova York e Nashville. Como é que conseguiu?

Acho que quando você se torna famoso e embarca naquela onda de euforia, percebe que aquilo só vai durar um tempo limitado. Então se tenta produzir o máximo possível… Assim, a gestação de “Jean Geme” durou um dia. Eu tinha acabado de conhecer Iggy Pop. Ele era uma figuraça típica de Detroit e eu estava tentando verbalizar de alguma maneira a idéia que fazia dele – que depois, com os anos, mudou. E o título da música era um jogo com Jean Genet.

Em 74, depois da turnê de Diamond Dogs, você residiu um tempo na Philadelphia, enquanto começava a compor o álbum Young Americans.

Sim, foi o disco mais “social” que já fiz. Todo dia, uns dez ou vinte garotos faziam plantão na porta do estúdio, dando idéias. E no final da noite, nós saíamos e íamos para nightclubs.

Como foi o período em que você escreveu o material de Low, em Berlim?

Foi traumático, porque estava lutando contra a cocaína e tive uma série de depressões profundas… A trajetória dessa luta, até me livrar inteiramente da coca é perceptível através de quatro álbuns: Low, Heroes, Lodger e Scary Monster – que considero um desabafo. Esse disco sou eu, erradicando todos os sentimentos pessoais que me incomodavam.”

 

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