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Nova série da HBO imagina um Brasil onde a maconha foi legalizada

Ambientada em São Paulo, "Pico da Neblina" estreia no próximo domingo (4) na TV e no serviço de streaming do canal

Biriba (Luis Navarro) é o que podemos chamar de microempreendedor. O jovem paulistano organiza sua produção artesanal no quarto da casa que divide com a família e passa o dia rodando a cidade para vendê-la.

Seja de ônibus, seja de metrô, Biriba cruza São Paulo para encontrar seus clientes: universitários, médicos, donas de casa, etc. O público alvo é dos mais diversos, sinal de que o garoto manda bem nos negócios. Ah, faltou mencionar qual o ramo de atuação: Biriba vende maconha.

Essa é uma breve descrição da cena inicial de Pico da Neblina, nova série brasileira produzida pela HBO e que estreia no próximo domingo, dia 4 de agosto. A história, focada em Biriba e em seu melhor amigo – e companheiro nos negócios – Salim (Henrique Santana), tem como pano de fundo uma realidade alternativa, na qual a maconha foi legalizada no Brasil.

“A ideia surgiu em 2012, durante uma reunião com colegas da faculdade”, disse à SUPER o cineasta Quico Meirelles, diretor geral de Pico da Neblina. O sobrenome soa familiar? Pois é: Quico é filho do também cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira), que comanda alguns dos dez episódios dessa primeira temporada. “A ideia era fazer uma produção que imaginasse o que aconteceria com um traficante de maconha se a droga fosse liberada”.

Quico conta que, na época, uma nova lei entrou em vigor no Brasil, obrigando canais de TV por assinatura a exibirem conteúdo nacional. Para ele, foi o momento ideal para investir em um novo projeto, já que as emissoras começavam a ir atrás de produtoras nacionais para desenvolver programas 100% brasileiros.

Quico Meirelles, diretor da série “Pico da Neblina”, da HBO

Quico Meirelles, diretor da série “Pico da Neblina”, da HBO (HBO/Divulgação)

Como foi a produção da série

Para imaginar a realidade alternativa da série, Quico e a equipe de roteiristas foram atrás de exemplos de políticas públicas em outros lugares do mundo. “Misturamos a nossa imaginação com o que já acontece em países como Uruguai, Espanha e Holanda”, relata. “Pegamos algumas referências e adaptamos para o que achávamos que iria acontecer no Brasil.”

Pico da Neblina não mergulha no debate político da legalização – a série até levanta algumas questões, mas a liberação da maconha é uma decisão tomada logo nos primeiros minutos da série.

De acordo com Quico, tópicos como o uso medicinal da planta até são abordados, mas eles não são o foco dessa primeira temporada. “Para mim, a questão social da legalização é o que mais me toca”, diz o diretor. “A realidade de que a maconha é realmente proibida para negros e pobres, mas para brancos e ricos não é necessariamente um problema. Em bairros pobres, dá para ser enquadrado como traficante com apenas um baseado no bolso.”

A série irá mostrar a trajetória de Biriba e seus esforços para colocar o seu negócio dentro da lei. No caminho, ele contará com a ajuda de Vini (papel de Daniel Furlan, o Renan do Choque de Cultura), um antigo cliente que acaba virando seu sócio, ao mesmo que tenta se desvencilhar de seus problemas familiares e do seu passado como traficante ao lado de Salim.

 (HBO/Divulgação)

Tema em discussão

De 2012, quando a série foi pensada, até o seu lançamento em 2019, sete anos se passaram. Se você acompanha o noticiário nacional, ainda que superficialmente, sabe que houve tempo suficiente para incontáveis acontecimentos que impactaram a política do país. A pergunta é: em que medida isso alterou os rumos de uma série sobre maconha?

“Quando começamos a desenvolver Pico da Neblina, a relação do Brasil com um projeto de lei de legalização da droga era bem diferente de hoje. Chegamos a pensar ‘será que até o lançamento da série a maconha já estará liberada?’.”

De acordo com Quico, essa previsão tomou um caminho inverso. De fato: uma recente pesquisa mostrou que o país é mais conservador que a média global quando o assunto é maconha, tanto para o uso medicinal quanto para o recreativo. Isso está exemplificado em alguns dos problemas que a produção enfrentou. “Não conseguimos filmar em determinadas locações, pois as pessoas ficavam receosas quando falávamos qual o tema da série. Foi difícil conseguir certas músicas e imagens de arquivo justamente por esse pé atrás.”

Num país em que a legalização da maconha é um assunto recorrente, Pico da Neblina pula esta etapa do debate e transforma a cidade de São Paulo em um grande “E se..” – e que dá vontade de explorar. Com personagens carismáticos e boa ambientação, a série estreia no próximo domingo (4). Não tem HBO? Dá para assistir pelo serviço de streaming do canal, o HBO GO.