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O Clube da Esquina: Coisas que a gente se esquece de dizer…

Samuel Rosa conta como o Clube da Esquinaconstruiu a ponte entre a Rua Divinópolis, em Santa Tereza,Belo Horizonte, e a Abbey Road dos Beatles. E como aquelamúsica mudou a vida de muita gente - a dele, inclusive

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 31 out 2004, 22h00

Lô Borges costuma brincar, dizendo que eu pulei do disco colorido dos Três Porquinhos para o Clube da Esquina, mas não é verdade. Eu pulei foi para os Beatles, que têm um apelo incrível com a criançada – vejo hoje pelo meu filho. Só fui redescobrir o Clube da Esquina (porque eu já conhecia por tabela, ouvindo os discos de meu pai) lá por 1982, logo antes do boom do rock brasileiro.

Essa redescoberta foi muito importante num momento de definição da minha adolescência – a real possibilidade de ser viável musicalmente crescendo e vivendo em Belo Horizonte, num bairro de classe média baixa, e ainda assim ser interessante para o Brasil e para o mundo. Entendi que não precisava ter nascido no Rio, em São Paulo nem em Liverpool. Era um tipo de fascínio exercido não pela distância, mas pela proximidade. Eu via Lô Borges comendo macarrão no bar Bolão, torcendo pelo Cruzeiro no Mineirão e andando com seu violão pelas ruas de Santa Tereza. Aquilo era muito poderoso.

No início dos anos 70, quando o Clube da Esquina apareceu, Milton Nascimento já tinha uma carreira sólida mais ou menos posicionada entre os músicos surgidos na época dos festivais de MPB. Era conhecido por “Travessia” e já tinha até um álbum lançado nos Estados Unidos pela A&M – que era a gravadora que publicava os discos dos brasileiros lá, de Edu Lobo, Sérgio Mendes, Marcos Valle.

Apesar da inclinação dele e dos músicos que sempre tocaram com ele para o jazz, o Bituca diz que sempre gostou e ouviu muito rock. Gostava de Beatles, The Who, progressivo, entendia do que se fazia na época. O disco de 1970 (Milton) já mostra isso. A banda de apoio era o Som Imaginário, com Zé Rodrix, Wagner Tiso e Tavito, que paralelamente fez uma carreira de rock psicodélico. Milton era seu terceiro álbum no Brasil e, naquele disco, ele incluiu pela primeira vez três parcerias com Lô Borges, que acabaram sendo grandes sucessos: “Para Lennon e McCartney”, “Alunar” e “Clube da Esquina”. Humildemente, Lô costuma dizer que sua grande contribuição foi ter apresentado a palheta para os violonistas do Milton, que até então tocavam com a mão mesmo.

Lô tinha 18 anos e havia escrito “Clube da Esquina” mais ou menos um ano antes. Em Belo Horizonte, onde não tem praia, o pessoalzinho classe média é sempre sócio de algum clube. Santa Tereza, onde os Borges moravam, não era assim e as crianças jogavam bola entre as ruas Divinópolis e Paraisópolis mesmo. Era isso o Clube da Esquina. Hoje, existe até uma placa lá, mas é só uma esquina. E Milton conhecia os Borges fazia muitos anos, desde antes mesmo de ser músico profissional, quando trabalhava como datilógrafo num escritório no centro de Belo Horizonte. Ele havia chegado de Três Pontas, no interior, e morava numa pensão no mesmo prédio em que os Borges viviam, no centro, no começo dos anos 60. E acabou por ali, meio “adotado” pela dona Maricota, virou o 12º filho no meio daquele povo todo.

Imagine esse movimento lá por 1967, 1968, todos envolvidos com música – Lô, Marilton, Yé, Telo, Nico, Márcio. Devia ser quase uma comunidade hippie. Tem uma história ótima, de um dia em que os meninos apareceram com um “mendigo”, barbudo, cabeludo, vestido todo estranho. A dona Maricota viu aquele cara na sala, chamou um filho na cozinha e disse: “Vocês deveriam ter dado alguma coisa para o mendigo comer!” Aí ele respondeu: “Pô mãe, ele não é mendigo! É o Naná Vasconcelos!”

Quando os Borges se mudaram para a Rua Divinópolis, em Santa Tereza, esse movimento continuou. Na verdade, foi meio natural que o Milton tenha querido cumprir o seu primeiro contrato com a Odeon com um disco com aquela gente. E convidou Lô para dividir um álbum duplo, que chamaram de Clube da Esquina. O Milton sempre foi muito aglutinador, sempre se cercou de gente nova – até hoje, se você for lembrar que o cara que praticamente lançou a Maria Rita foi ele. E dividiu os créditos daquele disco com o Lô, e chamou gente como Nelson Ângelo, Toninho Horta, Wagner Tiso, Beto Guedes. Era um coletivo, uma organização com cara da época. Eu vejo muito Beatles, rock progressivo, Crosby, Stills, Nash & Young naquele som. Mas é muito brasileiro e mineiro também.

Aquela era uma molecada nova, muito sintonizada com o mundo. Vejo assuntos muito urbanos, como a solidão do garoto na rua, a repressão policial, a alienação das drogas. É preciso lembrar que em 1972 ter uma banda de rock não era coisa para filho de executivo, como virou nos anos 80. Era uma coisa marginal, de quem escolhe viver na sarjeta mesmo. Todo mundo hippie, cabeludo, muitas drogas, bebidas rolando. Sem falar de sexo, coisa de nego dividir a mulher com os amigos. Bem comunitário…

Era transgressor na atitude, mas era musicalmente radical também. O Clube da Esquina não era jovem guarda. Não era um tipo de música fácil. As guitarras tinham arestas, as harmonias eram difíceis. Em certo sentido, era o inverso dessas bandas de hardcore de hoje em dia, com os filhinhos de papai vestidos de preto, fazendo careta, tocando pesado – mas que no fundo são uns bundões. Era violão, mas era rock’n’roll. Talvez o lado bucólico, de falar sobre montanhas e natureza (às vezes como metáforas, porque eram tempos de Censura), tenha ficado muito mais marcado para o grande público, mas quem ouvir aqueles trabalhos com atenção vai notar que esse é apenas um ingrediente.

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No show de lançamento, também em abril de 1972, em Belo Horizonte, Lô Borges tocou de costas para a platéia – isso muito antes do punk! Essa aversão ao jet set sempre me despertou admiração. Ninguém ali tinha pretensão de se apossar de algo ou de alguém, nem de lotear a música brasileira (que, como a gente sabe, é prática bastante comum). Tanto que, logo depois, todos foram se desprendendo. Um foi lançar discos a cada cinco anos, outro foi flertar com o jazz, outro saiu do país.

Em contrapartida, essa despretensão contribuiu para que o movimento (a gente chama de “movimento”, mas não era exatamente isso) tenha desandado com o tempo. Houve outro álbum fundamental saído desse período, que é o “Disco do Tênis” (o primeiro LP, homônimo, de Lô Borges, de 1972) e até um Clube da Esquina 2, de 1978, creditado ao Milton, mas com toda aquela galera de novo.

Acho que faltou um porta-voz ou alguém que viesse lembrar que o Clube da Esquina é referência no mundo inteiro, tão importante quanto o tropicalismo, tão bom quanto qualquer disco dos Mutantes. Mas isso também é muito típico daquela época, de um povo que acreditava realmente que a música falaria por si – e a gente está cansado de saber que não é assim que funciona, que o autor precisa ficar vigilante com a sua obra, vivendo quase como um guarda-costas, protegendo o bichinho das distorções e injustiças que sempre surgem no caminho.

O mais importante é que aquilo funcionou, fez a cabeça de uma galera, o ciclo se fechou. E foi influenciar o mundo inteiro, do jeito que o mundo influenciou aquela gente. Não há conceito ou teoria que fale mais alto do que isso.

O mineiro Samuel Rosa é guitarrista do grupo Skank, cruzeirense e parceiro de Lô Borges em músicas como “Dois Rios”.

O rock rural

O Clube da Esquina tinha como sócios os músicos do Som Imaginário, do qual fazia parte Zé Rodrix. Antes de se unir a Sá e Guarabyra, ele defendeu “Casa no Campo” no FIC de 1971. A idéia riponga de um casebre campestre onde se pudesse “curtir um filho de cuca legal e fazer muitos rocks rurais” agradou a Elis Regina, que a gravou no mesmo ano. Nascia o rock rural, junção do folk rock e dos sons regionais, que, no início dos anos 70, fundiram-se sob o comportamental hippie.

Sá, Rodrix & Guarabyra foram os primeiros a chamar a atenção para o estilo com Passado, Presente e Futuro (1972), do hino “Primeira Canção da Estrada”. Ao vivo, o trio era acompanhado pelo O Terço, com o mineiro Flávio Venturini, o que os levou de volta ao Clube.

Outro grande hit do rock rural foi “Serafim e Seus Filhos”, do Ruy Maurity Trio, incluído no célebre álbum Em Busca do Ouro (1972). Em Pernambuco, a versão do Quinteto Violado para “Asa Branca”, também de 1972, abriu caminho para outros conterrâneos, como Banda de Pau e Corda, Santarén e Ave Sangria. O gênero ecoou no Rio Grande do Sul (Inconsciente Coletivo, Almôndegas, Os Tápes), São Paulo (Paranga, Flying Banana, Tarancón, Raíces de América) e Bahia (Bendegó, do qual saíram Vermelho e Hely para formar o 14 Bis).

O fim dos anos 70 ainda rendeu o Recordando o Vale das Maçãs cantando “Ranchos, Filhos e Mulher”. Contudo, o gênero se rendeu à inclemência do mundo moderno e “Casa No Campo” acabou virando um jingle de um empreendimento imobiliário. “Fui hippie de butique”, declarou Rodrix à Folha de S.Paulo na época. “Nunca acreditei naquele papo de campo. Sou um cara urbano.”

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