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O melhor amigo do leitor

Misto de diário, memória, análise e interpretação, o livro de Montaigne é agradável de ler por sua prosa elegante, típica de quem aprendeu a pensar por escrito.

Luís Augusto Fischer

Medo é o sentimento que nos assalta quando chegamos perto de um autor catalogado como “filósofo”. E nada pior para o leitor comum – você e eu – do que essa paralisante reação. Porque desistimos justamente na porta de acesso a universos maravilhosos. Mas o caso é que um escritor como o francês Michel de Montaigne (1533-1592) deve ser lido por todo mundo – porque não é, estritamente, um filósofo, desses que passa a vida a formular sistemas abstratos de pensamento, e porque o universo que ele apresenta é realmente encantador: seus Ensaios (1580) são a primeira tentativa bem-sucedida de escrever agudamente sobre as coisas da vida de cada um, das mais triviais às mais requintadas, a partir de um ângulo radicalmente individual.

Por isso mesmo é que o título da sua obra passou a ser, a partir de então, sinônimo de um gênero literário – o ensaio –, difícil de definir mas fácil de reconhecer: ali onde um indivíduo se expressa livremente, com o máximo de verdade possível aliado a uma radical vontade de entender a si e ao mundo, ali temos um ensaio.

Misto de diário, memória, análise e interpretação, o livro de Montaigne é agradável de ler por sua prosa elegante, típica de quem aprendeu a pensar por escrito. Seja para comentar suas leituras clássicas, seja para falar de um exemplar pintor de paredes, seja ainda para tecer um longo e sentido elogio à amizade, Montaigne nos deleita com uma leitura adulta e (mas) totalmente acessível. Sempre a favor da inteligência do leitor.