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Os 7 segredos de Harry Potter

Abracadabra, pêlo de cabra. Conheça os efeitospara transformar um bruxinho míope em sucesso popular.Não se trata de bravata, Harry é campeão. Pois sóde livros vendidos, já é um quarto de bilhões!

Luís Augusto Fisher

E m números redondos: 250 milhões de exemplares vendidos. No ano passado, Joanne Kathleen Rowling, a autora, recebeu mais de 200 milhões de dólares. Sua obra já foi traduzida para 60 idiomas – estão saindo edições em latim, grego clássico e gaélico – e circula em mais de 200 países. Escreva as palavras “Harry Potter” no Google e surgirão 7,7 milhões de páginas.

Tudo isso sem falar no mistério mais intrigante: como é que crianças e adolescentes com imensas dificuldades de leitura atravessam centenas de páginas de uma história com tanto prazer? Como pode um livro ser desejado de tal maneira que filhos tentam convencer seus pais a ler e pais querem que os filhos leiam? Para repetir a pergunta-chave feita pelo crítico Harold Bloom: “Podem esses milhões de compradores de livros estar errados”? Bloom, que considera Harry Potter um amontoado de clichês, acha que sim, que estão errados. Nossa resposta, porém, é: não, estão certíssimos. Harry Potter é excelente leitura, em todos os sentidos. Vamos tentar entender por quê.

1. A escola como microcosmo

Uma das coisas mais agradáveis na leitura dessa saga deve-se ao fato de se passar numa escola. Isso permite a identificação imediata, por mais que algumas experiências escolares britânicas sejam estranhas ao brasileiro. Diferenças que vão do caráter prático das aulas de Hogwarts, o colégio interno de Harry, passam por uma biblioteca bem servida e chegam a um dos pilares da narração, as fraternidades ou “Casas”.

Hogwarts está dividida em quatro Casas, que funcionam como equipes: Lufa-lufa, Corvinal, Sonserina e Grifinória. Os nomes originais guardam conteúdos que a tradução não tinha como manter: Hufflepuf traz a palavra huff, “acesso de cólera”; em Ravenclaw temos raven, “corvo”, e claw, “garra”; Slytherin começa com sly, “astuto”, “fingido”; e Gryffindor pode ser associado ao “grifo”, animal com asas de águia e corpo de leão que protegia um tesouro. Aliás, em quase todo nome a autora embute um segredo a ser desvendado.

A começar pelo nome do herói: Potter é o sobrenome da inglesa Helen Beatrix Potter (1866-1943), uma escritora e ilustradora de livros infantis – Harry Potter seria assim um equivalente brasileiro a, digamos, Zeca Lobato.

Em sentido amplo, Hogwarts funciona como um mundo paralelo. Lá se inventa a vida a cada dia; lá nascem amizades imortais; lá se aprende o valor do estudo; lá é preciso negociar sua vontade no coletivo; lá se conhece a confiança e a traição, o sublime e o horroroso. Ora, ora: não é assim em qualquer escola? Daí que Harry Potter ganhe nosso coração na primeira leitura.

2. Realidade fantástica

Harry é um dos quatro pré-adolescentes protagonistas da história, ao lado de Rony Weasley, fiel amigo e escudeiro, meio lento e desastrado mas parceiro de todas; da menina Hermione Granger, CDF e inteligente, feminina e justiceira; e finalmente de Draco Malfoy, o “bad boy”, o cínico antagonista de Harry, acolhido pela casa de Sonserina (os três heróis pertencem a Grifinória). Os quatro, como os demais colegas, chegam no início do ano letivo com os materiais escolares (livros, varinha mágica, capa) e aprendem a voar em vassoura, a transformar objetos em animais, a preparar poções de encantamento, a dizer palavras mágicas.

Coisas dessa natureza levaram alguns a ver em Harry Potter um ataque à civilização cristã ocidental, como se o romance participasse de uma conspiração mundial destinada a implantar um reino de bruxaria. Nada disso. Se é fato que a série investe numa visão mágica do mundo, não é menos verdade que o mundo real está bem presente no enredo. Por exemplo: Sonserina foi fundada por um sujeito que acreditava que só os bruxos de nascença, como Malfoy (nome que, por sinal, em francês significa “má-fé”), mereciam estar em Hogwarts; já Grifinória foi fundada por um bruxo que pensava o oposto, que todos os que tivessem talento deveriam ser acolhidos, sem distinção de origem. Não é preciso muito para ver na simpatia da autora por Grifinória um gesto antielitista, antiesnobe, a favor da miscigenação.

A fantasia potteriana nos oferece, com uma mão, o prato da bruxaria e do misticismo, e com a outra nos dá uma dose forte (e crítica) da realidade atual. A série não arranca o leitor do solo firme da realidade para conduzi-lo ao reino da fantasia, mas quase o contrário – a história compartilha com o leitor uma visão fantasista da vida, típica da infância, oferecendo-lhe um caminho seguro para transitar dela para a dura vida do mundo teen.

3. Sexo e alguma droga

Harry Potter não tem nada a ver com o trio “sexo, drogas e rock’n’roll”, que faz parte da formação cultural da geração de J.K. Rowling, 38. A série está a anos-luz disso, mas não perde de vista que elementos assim fazem parte do interesse de todo mundo, a começar pelas crianças e adolescentes. Drogas são poucas, e sempre relacionadas ao estudo: são plantas com poderes surpreendentes que, combinadas em poções minuciosas, auxiliam no cumprimento de tarefas decisivas. É o caso do polissuco (em HP e a Câmara Secreta), que Hermione prepara por semanas a fio e que habilita o trio de amigos a adquirir por uma hora as feições de seus inimigos.

Já o sexo está em toda parte, mas só é observável com lente adequada. No primeiro volume, que corresponde à idade dos 11 ou 12 anos, meninos e meninas quase não se aproximam. Mas isso não impede que apareçam questões relativas à maturação da sexualidade dos protagonistas (e de muitos leitores). Exemplo: na busca da Pedra Filosofal, o trio cai numa espécie de rede viscosa, formada de galhos e folhas que enlaçam pernas e braços. Os meninos se debatem furiosamente para tentar se livrar da situação angustiante, sem resultado positivo. Nessa hora, Hermione, com a sabedoria intuitiva das mulheres, ordena que eles relaxem, que fiquem calmos, que assim escaparão da trama. Exatamente como as mulheres dizem para os homens, por vários anos, até que eles entendam que precisam ouvi-las e ser gentis com elas…

No segundo volume, uma envergonhadíssima Hermione pede para ficar sozinha quando percebe que seu rosto foi tomado por incômodos pêlos, com os quais ela (ainda) não sabe lidar. No terceiro, Harry sente o coração inquieto e o baixo-ventre pulsando ao se aproximar de Cho Chang, uma colega. Sempre que faz alguma coisa notável pensa que ficaria feliz se ela estivesse por ali. Cho acaba saindo com outro rapaz, como acontece também na vida real dos adolescentes. No quarto volume, Hermione é convidada ao baile de inverno pelo maior astro do quadribol – para mortal ciúme de Rony Weasley. Em suma: o sexo está em tudo, mas é presença justificada, porque a autora está fazendo literatura mesmo, e literatura, em Hogwarts ou cá fora, lida com a experiência humana.

4. Literatura bem feita

Harry Potter apresenta as virtudes da literatura bem feita. A começar pelo protagonista, um prato cheio para a ficção: menino que teve seus pais mortos quando era bebê vive de favor na casa de tios odiosos. Restou dessa triste experiência uma marca em sua testa em forma de raio, um distintivo enigmático. Sozinho, ele desconhece o próprio talento, mas será brindado com a chance de descobrir sua vocação.

Assim como Harry, os personagens importantes são nítidos, o que ajuda o leitor menos afeito a sutilezas. Mas isso não significa que sejam previsíveis ou meros marionetes: em cada volume, ocorre de personagens “bons” serem levados a uma aproximação com o Mal, correndo riscos reais. Os adultos bons da trama – pais e professores, como convém a um mundo escolar – têm fraquezas em suas virtudes. Já os maus ostentam capacidades muito admiráveis por todos, inclusive pelos do Bem. Adultos, na série idealizada por Rowling, têm tudo o que aqui no mundo real apresentam: mesquinharia, patifaria, dúvidas, ao lado de bravura, diligência, senso de justiça. Sempre se pode esperar um desfecho positivo para Harry e seus parceiros, é certo; mas o andamento da história oferece essas várias faces da experiência humana.

Some-se a isso o fato de os romances serem narrativas de suspense, fator que impele à leitura – no afã de encontrar o desfecho da trama – e confere unidade a cada volume – cada um dos quais se organizando em torno de uma busca principal (o encontro da Pedra Filosofal, o mistério da Câmara Secreta, a descoberta do Prisioneiro de Azkaban, a conquista do Cálice de Fogo). Outro componente essencial na arte de narrar, o tempo, aqui tem ótimo rendimento literário: por um lado, o tempo é denso e tem aspecto ancestral, porque lida com lendas e sabedoria milenares; por outro, está focado numa vida apenas, a de Harry, e por isso tem aspecto moderno, à semelhança de qualquer romance que se lê despreocupadamente, de qualquer filme que se vê na Sessão da Tarde.

A autora tem uma admirável fluência narrativa, administrando vários subenredos com destreza, além de lidar com o imenso patrimônio da mitologia, celta ou grega, hindu ou latina, sempre com proveito para o leitor, que assim entra em contato com o mundo da velha sabedoria humana.

5. Ensinamentos virtuosos

Harry Potter tem a grande virtude de oferecer ao leitor uma trajetória exemplar. O menino que vive oprimido na casa de tios estúpidos, ingressa em Hogwarts e começa a caminhar em direção a seu destino nos oferece o espetáculo de um ser humano em busca de realização.

Trata-se de um caminho tortuoso. Ao chegar à escola, ele passa por uma seleção para saber em que Casa ingressará: é submetido ao Chapéu Seletor, que avalia os novatos e os destina, por afinidade, a uma delas. Na vez de Harry, o Chapéu fica em dúvida entre Sonserina e Grifinória. Chega a dizer ao menino que ele pode ser um grande líder na primeira, tenta-o com essa promessa de poder. Mas ele permanece irredutível em seu desejo de juntar-se ao companheiros em Grifinória. Essa dubiedade significa que Harry poderia ser, se quisesse, um líder “do Mal”, como o terrível Malfoy. Tradução: qualquer um de nós pode se dar bem no caminho errado, e precisamos de muita determinação para perseverar no trilho do Bem.

A mesma lição de autonomia da vontade aparece outras vezes, e nunca com o peso das lições de moral barata que acometem tantos livros destinados a crianças e adolescentes. J.K. Rowling é suficientemente respeitosa com o leitor, assim como adequadamente artística, para não cair em dualidades simples, que coloquem de um lado todo o Bem e, de outro, todo o Mal. Não é que os dois não existam; é que, ao contrário do que insinua a saga O Senhor dos Anéis, aparentada do mundo de Hogwarts, os dois pólos não pairam acima de nós. Bem e Mal, Certo e Errado são contingências da vida e estão misturadas nela; e cabe a cada um lidar com ambos, avaliando a cada momento o peso e as conseqüências dos atos. Para a autora, como para os humanistas, nada está acima do homem.

A súmula dos valores morais afirmados na história é auspiciosa: o valor do estudo e da dedicação está acima dos dons naturais, incluindo o da magia; o sentido profundo da amizade, especialmente com os mais fracos; a perseverança na busca racional de objetivos, sempre buscando harmonia com as intuições profundas. O que vale é coragem, inteligência, camaradagem; não importa se de vez em quando pintar a tentação de colar na prova, de burlar determinadas regras, de confrontar certos adultos: munido de bom coração, Harry vive sua vida como nós todos gostaríamos de viver a nossa: intensa e verdadeiramente. Num mundo carente de mitos educativos, que nos esfrega na cara valores banais – a perversa supremacia da aparência, a ridícula busca da juventude, a nojenta necessidade de consumo –, a vida de Harry Potter é um oásis de humanidade.

6. A força do mercado

Poderosas forças de mercado atuam em favor dos romances da série, que viraram filmes, que deram origem a bugigangas, que as crianças querem comprar. O montante de dinheiro movimentado nessa roda viva é inimaginável.

A quanto subirá a conta total, incluindo todo o mundo editorial, mais o mundo cinematográfico, mais o mundo escolar, mais a indústria de bonecos? Ultrapassa ramos inteiros de atividade humana tradicional. A força da grana se manifesta no fato de se tratar de uma série, que acompanha a evolução de uma turma de jovens ano a ano, o que induz ao consumo cativo. Além disso, a série é cuidadosamente dosada: pré-lançamentos juntam centenas de pequenos fãs nas livrarias em busca do novo volume, e apetrechos vão sendo acrescentados à lista de presentes cobiçados.

Por outro lado, não há nenhuma passagem da narrativa que induza ao consumo, que leve o leitor a pensar que comprar é sinônimo de felicidade, que faça crer que o dinheiro é a solução para tudo. Nada disso: como já vimos, Harry Potter reafirma a cada passo o valor da condição humana, em sua contraditória e esplêndida variedade. Tudo de acordo com os valores da autora, que chegou à fama e ao dinheiro após muita ralação. Aí por 1994, uma jovem professora chamada Joanne (Kathleen ela agregou em homenagem à avó), formada em francês e latim e recém-separada, com uma filhinha de meses, trabalhava na Anistia Internacional e, nas folgas, escrevia a história do menino Harry na mesa de um bar na cidade. Precisaria insistir muito até publicar Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Daí por diante, o sucesso e uma intensa participação em fundos assistenciais de várias partes do mundo. Mesmo com toda a propaganda e o apelo mercadológico, não são poucas as crianças e pré-adolescentes que preferem os livros aos filmes. Isso prova que a arte mais antiga, a literatura, quando bem feita, nem sempre sucumbe diante da jovem arte cinematográfica, nem diante da total mercantilização do mundo. Algo maior parece estar em jogo aqui.

7. Jornada de herói

O mais poderoso segredo do prazer que sentimos ao ler Harry Potter repousa numa camada muito antiga e poderosa de nossa percepção: aquela que faz cada um de nós ser o indivíduo que somos. O jovem bruxo retrata em sua vida todos os passos necessários para sair da mera condição de ser vivo para a condição de homem.

Também nisso J.K. Rowling tem demonstrado extrema habilidade. No complexo enredo que desenhou, com mundos paralelos, famílias de todo o tipo, adultos variados, uma escola de centenas de crianças e jovens, tudo atravessado pelo jogo da magia, a autora centralizou a trajetória de um herói que é ao mesmo tempo especial, porque é bruxo, e muito parecido conosco, porque tem fraquezas e virtudes como qualquer um. Ela talvez não tenha lido Carl Gustav Jung, psiquiatra que se dedicou ao estudo do mundo simbólico, ou Joseph Campbell, estudioso das mitologias de todos os quadrantes da Terra. Mas é certo que ela penetrou nos mesmos mistérios que Jung e Campbell mostraram ser típicos de toda a experiência humana.

O herói, na Grécia antiga ou em Hogwarts, começa sua história por acaso. Está vivendo a vida medíocre que lhe cabe quando algo inesperado acontece: um chamado, um acidente, uma visão. Sente que está sendo convocado a uma jornada, mas resiste; finalmente, cede. Resolve ir ao encontro do problema, arrostando perigos, descendo aos infernos, combatendo medos e inimigos. Em certos momentos, terá o auxílio de um sábio, que lhe oferece conselhos, advertências e até algum carinho, mas que não pode viver por ele. O herói se compenetra de sua missão individual e inescapável; passa pelos obstáculos usando seus dons naturais e aprendendo com a experiência; torna-se humilde e sábio, sobrevive e começa a empreender a viagem de volta. Depois de muito tempo, chega ao ponto de onde tinha saído, sendo reconhecido pelos seus. Torna-se, finalmente, um herói, o que tem a posse de dois mundos.

Harry Potter refaz passo a passo esse caminho, em escala longa (o passar da infância à juventude) ou curta (a tarefa que precisa cumprir a cada volume da série), sempre na direção da maior sabedoria, que adquire, como a autora faz questão de enfatizar, pelo uso das melhores vocações da condição humana – inteligência, solidariedade, amizade, coragem, astúcia – e contra as tendências destrutivas que existem no mundo todo, a toda hora.

Harry está vivendo uma jornada sensacional, que começa na morte dos pais, do mundo infantil, da inocência, e acolhe a nova etapa, do amor, da ciência, da vida madura enfim. Dualidades, ambigüidades, tensões, misturas, apreensões, tudo isso o leitor compartilha com o herói literário inventado sabiamente por uma mulher que entende e respeita a condição humana do pequeno leitor. E do grande também.